Cardiologista explica como a obstrução de uma artéria provoca danos progressivos e alerta para sintomas que exigem atendimento imediato
As doenças cardiovasculares
permanecem como a principal causa de morte no mundo. A Organização Mundial da
Saúde (OMS) estima que elas tenham provocado 19,8 milhões de óbitos em 2022,
aproximadamente 32% de todas as mortes registradas globalmente. Desse total,
85% foram causados por infarto e acidente vascular cerebral (AVC). No Brasil, o
Ministério da Saúde estima a ocorrência de 300 mil a 400 mil casos de infarto
por ano, com um óbito a cada cinco a sete episódios.
No Distrito Federal, um informativo
epidemiológico publicado pela Secretaria de Saúde em 2025 aponta que o infarto
agudo do miocárdio e o AVC estão entre as principais causas isoladas de morte.
O documento também identificou aumento da taxa de mortalidade por doenças
isquêmicas do coração em 2024, depois de uma pequena tendência de queda entre
2021 e 2023.
Conhecida na cardiologia, a
expressão “tempo é músculo” traduz a urgência que envolve o atendimento ao
infarto: quanto maior o intervalo entre o início dos sintomas, o diagnóstico e
o restabelecimento do fluxo sanguíneo, maior o risco de progressão da lesão
cardíaca. O alerta ganha especial relevância durante o Setembro Vermelho, mês
dedicado à conscientização e à prevenção das doenças cardiovasculares.
“Quando uma artéria coronária é
obstruída, a região do músculo cardíaco irrigada por ela passa imediatamente a
receber menos oxigênio e nutrientes. Em poucos segundos, já ocorrem alterações
no metabolismo e na capacidade de contração daquele território”, explica Anny
Gutemberg, cardiologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas,
segunda maior rede de hospitais privados do país.
Se a obstrução persistir, algumas
células podem começar a sofrer danos irreversíveis após aproximadamente 20 a 30
minutos de isquemia intensa. A partir daí, a área de necrose, ou morte do
tecido, tende a avançar progressivamente.
“Quanto mais cedo conseguimos
reabrir a artéria, maior é a possibilidade de interromper a progressão da lesão
e salvar o músculo cardíaco que ainda está viável. Por isso, meia hora a mais
não deve ser encarada como ‘apenas meia hora’. No infarto, todo o sistema
precisa trabalhar para reduzir o tempo total de isquemia”, afirma a médica.
Não existe uma quantidade fixa de músculo perdida por minuto
Embora a expressão “tempo é músculo”
reforce a urgência do atendimento, a cardiologista ressalta que não é correto
estabelecer uma quantidade exata de tecido cardíaco perdida a cada minuto. Dois
pacientes com o mesmo tempo de sintomas podem apresentar extensões de infarto
muito diferentes.
O dano depende de fatores como a
artéria atingida, o tamanho da região irrigada por ela, se a obstrução é
completa ou parcial, a existência de circulação colateral — caminhos
alternativos pelos quais o sangue consegue chegar ao coração — e até eventuais
episódios de abertura espontânea da artéria.
“Não devemos afirmar que determinado
número de minutos corresponde a uma quantidade específica de músculo perdido. O
conceito mais importante é que a lesão é progressiva e que cada atraso reduz a
oportunidade de salvar o miocárdio”, esclarece Anny.
Quanto maior a área afetada pelo
infarto, maior pode ser o risco de complicações como insuficiência cardíaca,
arritmias graves, choque cardiogênico e morte.
Dor no peito não é o único sinal de alerta
O sintoma mais conhecido do infarto
é a dor ou o desconforto no peito, geralmente descrito como aperto, pressão,
peso ou queimação, principalmente quando persistente ou recorrente. A dor
também pode irradiar para braços, ombros, mandíbula, costas ou região superior
do abdômen.
Falta de ar, suor frio, náuseas,
tontura, palidez, sensação de desmaio e mal-estar intenso também devem ser valorizados.
De acordo com a cardiologista, qualquer dor na região entre a cicatriz
umbilical e o queixo precisa ser observada com atenção, especialmente quando
acompanhada de outros sintomas ou quando o paciente possui fatores de risco
cardiovascular.
“Nem todos os pacientes apresentam a
forma clássica. Mulheres, idosos e pessoas com diabetes, por exemplo, podem ter
manifestações menos típicas. Diante da suspeita, o mais importante é não
esperar a dor passar em casa e procurar atendimento médico o mais rápido
possível”, alerta.
O Ministério da Saúde também orienta
que idosos e pessoas com diabetes podem apresentar infarto sem sinais
específicos. Em caso de dor no peito acompanhada de suor frio, palidez, falta
de ar ou sensação de desmaio, a recomendação é acionar o Serviço de Atendimento
Móvel de Urgência pelo número 192 ou procurar imediatamente uma emergência
cardiológica.
Protocolo integrado acelera diagnóstico e tratamento
Uma das primeiras medidas diante da
suspeita de infarto é a realização do eletrocardiograma. Quando o exame e a
avaliação clínica identificam um quadro que exige reperfusão imediata — o
restabelecimento do fluxo de sangue —, começa uma corrida coordenada contra o
tempo.
“A equipe é acionada, as medicações
indicadas são administradas e a hemodinâmica é preparada para a realização do
cateterismo e, quando necessário, da angioplastia. O objetivo é reabrir a
artéria o mais rapidamente possível”, explica Anny Gutemberg.
Segundo a médica, protocolos
organizados de atendimento à dor torácica são fundamentais porque reduzem
etapas desnecessárias e integram os diferentes setores envolvidos. “Recepção,
emergência, cardiologia e hemodinâmica precisam funcionar como partes de um
mesmo processo. Quanto mais eficiente for essa cadeia, maior será a possibilidade
de preservar o músculo cardíaco e reduzir as sequelas do infarto”, conclui.
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