segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Tempestade hormonal ou dor de crescimento? Especialista alerta sobre os limites entre o comportamento típico da puberdade e sinais de alerta emocional

Reconfiguração cerebral na adolescência exige atenção redobrada dos pais; rotular irritabilidade e isolamento como "frescura da idade" pode fazer com que a família perca a janela de atuação preventiva.

 

 

A chegada da puberdade é marcada por transformações físicas evidentes, mas o que ocorre nos bastidores da mente muitas vezes pega pais e responsáveis desprevenidos. Mudanças bruscas de humor, crises de oposição, busca intensa por isolamento e variações repentinas de energia costumam ser creditadas apenas aos hormônios. No entanto, a neuropsicologia aponta que o cérebro passa por uma intensa revolução estrutural nessa fase, exigindo um olhar cuidadoso para diferenciar o desenvolvimento natural de quadros de sofrimento psíquico.

De acordo com a psicóloga, neuropsicóloga e educadora parental Sarah Rebeca Barreto, o cérebro infantil experimenta uma verdadeira reconfiguração durante a transição para a adolescência, com destaque para a desproporção no desenvolvimento entre o sistema límbico — ligado às emoções e à busca por recompensas — e o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento, controle de impulsos e regulação emocional.

"Do ponto de vista neuropsicológico, o que acontece no cérebro de uma criança quando ela ingressa na puberdade justifica plenamente as famosas mudanças bruscas de humor. Enquanto o sistema límbico está a todo vapor, acionando reações emocionais intensas, o córtex pré-frontal — que é o maestro do autocontrole e da avaliação de riscos — ainda está em pleno processo de maturação, que só se completa por volta dos 25 anos. O jovem literalmente sente o mundo de forma mais dramática e desregulada porque a infraestrutura biológica para gerenciar isso está 'em obras'", explica a especialista.


O limite tênue entre a individuação e o retraimento patológico

Um dos maiores desafios para as famílias é decifrar o comportamento de recolhimento típico dessa fase. O afastamento parcial dos pais faz parte do processo de individuação e construção de identidade, mas o limite entre o saudável e o patológico pode ser tênue.

"Até certo ponto, o distanciamento dos pais é um processo saudável de individuação, no qual o adolescente precisa testar quem é fora do núcleo familiar. Contudo, quando esse afastamento se torna radical, acompanhado de perda persistente de interesse por atividades que antes lhe davam prazer, queda acentuada no rendimento escolar, alterações severas no apetite ou no sono e apatia profunda, ele deixa de ser um rito de passagem e passa a ser um indicativo de depressão ou retraimento patológico", alerta Sarah Rebeca Barreto.


Como estabelecer limites sem romper o diálogo

Diante desse cenário de turbulência emocional, muitas famílias caem em dois extremos: a permissividade excessiva por medo de confrontar o jovem ou o autoritarismo rígido, que costuma fechar definitivamente as portas da comunicação. Para a educadora parental, a chave está na firmeza aliada à conexão.

"A família pode e deve estabelecer limites firmes na adolescência sem romper o canal de diálogo e a confiança. O segredo não está na punição severa, mas na previsibilidade e na escuta ativa. O adolescente precisa de contornos seguros para se apoiar, mas também precisa sentir que sua dor e sua opinião são validadas. Quando os pais conseguem regular as próprias emoções antes de responder a uma provocação, eles oferecem ao jovem o modelo de regulação que o cérebro dele ainda não consegue fazer sozinho", conclui.

 

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