quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Resposta parcial ao tratamento da depressão exige atenção para além da troca sucessiva de antidepressivos

 Debate sobre terapias adjuvantes cresce diante da dificuldade de alguns pacientes em alcançar a melhora completa dos sintomas

 

A resposta parcial ao tratamento do Transtorno Depressivo Maior ainda é uma realidade muito frequente nos consultórios psiquiátricos. Isso acontece quando o paciente apresenta melhora com o tratamento antidepressivo, mas ainda não alcança a remissão completa dos sintomas, mantendo prejuízos significativos no bem-estar e na qualidade de vida, além de riscos de recaída1. 

Na prática clínica, há pacientes que relatam melhora de parte do quadro depressivo após iniciar a medicação, como redução da tristeza intensa ou retomada parcial da rotina, porém continuam convivendo com alguns sintomas, como fadiga, ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e redução da capacidade funcional1. 

“O paciente, muitas vezes, consegue voltar a trabalhar ou retomar algumas atividades do dia a dia, e pensa que atingiu o máximo possível de melhora com o antidepressivo prescrito. Mas resposta parcial não significa remissão. Em muitos casos, ainda há espaço para otimizar o tratamento e recuperar a funcionalidade de forma mais ampla”, afirma o psiquiatra Felipe Lobo, médico consultor da Libbs e supervisor do ambulatório de transtornos de personalidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Resposta parcial ao tratamento da depressão exige atenção
 para além da troca sucessiva de antidepressivos.
 Freepik
O estudo STAR*D (Sequenced Treatment Alternatives to Relieve Depression), uma das principais pesquisas sobre tratamento de depressão, mostrou que uma parcela significativa dos pacientes com Transtorno Depressivo Maior não alcança remissão completa com o primeiro antidepressivo prescrito. Além disso, entre os pacientes que necessitavam de novas etapas terapêuticas, as taxas de remissão tendiam a diminuir progressivamente2. 

Segundo o psiquiatra, diante de um caso de resposta parcial ao tratamento, é comum que a primeira conduta do médico seja a troca do antidepressivo. Esse processo pode ocorrer mais de uma vez antes de se considerar estratégias de otimização do tratamento, como as terapias adjuvantes3. 

As terapias adjuvantes consistem na associação de abordagens complementares ao antidepressivo principal, com o objetivo de potencializar a resposta e a melhora dos sintomas3. Entre as alternativas estudadas para esse contexto está o levomefolato de cálcio (L-metilfolato), forma ativa do folato que participa da síntese de neurotransmissores relacionados ao humor e que pode ser utilizado como terapia adjuvante em pacientes selecionados, conforme avaliação médica4

Estudos mais recentes sugerem que determinados perfis clínicos podem alcançar mais benefícios com o L-metilfolato, como pacientes com índice de massa corporal elevado e níveis aumentados de biomarcadores inflamatórios, como proteína C-reativa ultrassensível e determinadas citocinas inflamatórias5. 

“Ainda há uma tendência de insistir em sucessivas trocas de antidepressivos antes de avaliar outras estratégias. Mas, também tem aumentado a compreensão dos médicos de que alguns pacientes podem se beneficiar de terapias adjuvantes, especialmente quando persistem com sintomas”, diz Lobo. 

Ainda segundo o médico, “hoje entende-se que a resposta parcial à depressão pode ter diferentes causas. Por isso, além da escolha do antidepressivo, é importante avaliar fatores individuais do paciente e estratégias complementares, como o L-metilfolato, que possam favorecer uma recuperação mais completa.” 

Por fim, Felipe Lobo explica que a melhora clínica não deve ser avaliada apenas pela redução dos sintomas mais graves. “O objetivo do tratamento é permitir que o paciente recupere a funcionalidade, a autonomia e a qualidade de vida”, finaliza.

 

Referências 

1. Tranter R, O'Donovan C, Chandarana P, Kennedy S. Prevalence and outcome of partial remission in depression. J Psychiatry Neurosci. 2002;27(4):241-7. 

2. Rush AJ, Trivedi MH, Wisniewski SR, Nierenberg AA, Stewart JW, Warden D, et al. Acute and longer-term outcomes in depressed outpatients requiring one or several treatment steps: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2006;163(11):1905-17. 

3. Wade RL, Kindermann SL, Hou Q, Thase ME. Comparative assessment of adherence measures and resource use in SSRI/SNRI-treated patients with depression using second-generation antipsychotics or L-methylfolate as adjunctive therapy. J Manag Care Pharm. 2014;20(1):76-85. 

4. Papakostas GI, Shelton RC, Zajecka JM, Etemad B, Rickels K, Clain A, et al. L-methylfolate as adjunctive therapy for SSRI-resistant major depression: results of two randomized, double-blind, parallel-sequential trials. Am J Psychiatry. 2012;169(12):1267-74. 

5. Maletic V, Shelton RC, Holmes V. A review of L-methylfolate as adjunctive therapy in the treatment of major depressive disorder. Prim Care Companion CNS Disord. 2023;25(3):22nr03361. 

Parágrafos não referenciados correspondem à opinião e/ou prática clínica do profissional de saúde entrevistado. 


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