Burnout atinge quase quatro em cada dez veterinários e expõe uma emergência silenciosa entre profissionais que convivem diariamente com dor, luto, eutanásia e decisões de vida ou morte
Por trás de cada animal atendido existe um
profissional submetido a uma combinação pouco visível de sobrecarga,
responsabilidade clínica, pressão financeira, conflitos com tutores e contato
repetido com sofrimento e morte. No mês em que se celebra o Dia do
Médico-Veterinário, a médica-veterinária e pesquisadora Dra. Aline Gonçalves
Goulart faz um alerta: proteger a saúde de animais e pessoas também exige
cuidar da saúde mental de quem sustenta esse trabalho.
O alerta encontra respaldo em uma revisão
sistemática e meta-análise publicada em 2026. Ao reunir 34 estudos, 35.202
veterinários e dados de 13 países, os pesquisadores estimaram prevalência
global de burnout de 38,68%. Em termos simples, o resultado se aproxima de dois
profissionais afetados em cada cinco avaliados. Carga de trabalho e jornadas
extensas apareceram entre os estressores mais recorrentes.
A Organização Mundial da Saúde define o burnout
como um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho que não
foi administrado adequadamente. Ele se caracteriza por exaustão, maior
distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução
da eficácia profissional. A definição é importante porque desloca o debate da
suposta fragilidade individual para as condições em que o trabalho é realizado.
“O veterinário também é
humano. Não podemos continuar tratando disponibilidade
permanente, jornadas intermináveis e sofrimento silencioso como provas de amor
à profissão. Pedir ajuda não reduz competência; cria condições para cuidar com presença,
ética e segurança”, afirma a Dra. Aline.
Uma profissão da saúde sob pressão
A Medicina Veterinária integra a saúde pública, a
vigilância de zoonoses, a segurança dos alimentos, a pesquisa, a conservação
ambiental e o cuidado clínico dos animais. Essa amplitude faz do
médico-veterinário um profissional central para a Saúde Única, abordagem que
reconhece a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Mas o
conceito fica incompleto quando ignora a saúde de quem executa o cuidado.
Na prática clínica, esses profissionais comunicam
diagnósticos difíceis, acompanham famílias em luto, enfrentam emergências,
realizam eutanásias e precisam equilibrar o tratamento ideal com os limites
financeiros do tutor. Uma revisão de 2024 que examinou 78 estudos encontrou
pesquisas sobre burnout, ansiedade, depressão, estresse ocupacional, sofrimento
moral, fadiga por compaixão e sofrimento relacionado à eutanásia na força de
trabalho veterinária.
Outro estudo, publicado no Veterinary Record,
avaliou 141 veterinários espanhóis: 19,8% relataram diagnóstico de ansiedade ou
depressão, enquanto outros 31,9% disseram não ter diagnóstico, mas sentir
necessidade de tratamento. Por ser uma pesquisa transversal e regional, o dado
não deve ser extrapolado para todos os veterinários; ainda assim, reforça um
padrão de sofrimento que aparece de forma consistente na literatura
internacional.
Fadiga por compaixão não é falta de vocação
Entre os conceitos que ajudam a explicar esse
desgaste está a fadiga por compaixão, associada à exaustão emocional e física
decorrente da exposição prolongada ao sofrimento de outros seres. Uma revisão
sistemática de 2024 identificou seis instrumentos usados para medi-la em
profissionais da saúde animal, mas concluiu que ainda faltam ferramentas
suficientemente validadas e específicas para a categoria. A lacuna mostra que o
problema é reconhecido, embora sua mensuração ainda precise avançar.
Para a Dra. Aline, amar os animais não protege
automaticamente contra o adoecimento. Em alguns casos, o envolvimento profundo
aumenta o impacto de uma perda, de um tratamento inviável ou da sensação de não
ter conseguido salvar um paciente. “O sofrimento não nasce da falta de amor
pela profissão. Muitas vezes, nasce justamente da exposição contínua à responsabilidade,
à dor e à expectativa de resolver tudo”, explica.
Cuidado precisa entrar na rotina das equipes
A prevenção não pode ser limitada a recomendações
de autocuidado. Medidas institucionais incluem dimensionamento adequado das
equipes, controle de jornadas, pausas e descanso, protocolos para situações de
violência e assédio, comunicação segura com tutores, espaços de escuta após
perdas e eventos críticos, acesso confidencial a apoio psicológico e
capacitação de lideranças para reconhecer sinais de sofrimento. A OMS recomenda
intervenções organizacionais sobre carga de trabalho, horários, comunicação e
trabalho em equipe para reduzir riscos psicossociais.
As universidades também têm papel preventivo.
Preparar estudantes para conversas difíceis, luto, eutanásia, limites
profissionais e tomada de decisão ética pode reduzir o choque entre a formação
técnica e a realidade emocional do exercício profissional. Conselhos, clínicas,
hospitais, laboratórios, universidades e gestores públicos precisam tratar saúde
mental como parte da segurança e da qualidade assistencial.
“Não existe cuidado de qualidade quando quem cuida
está adoecendo em silêncio. Saúde Única também começa por quem sustenta o
cuidado”, resume a pesquisadora.
Sinais que merecem atenção
- exaustão
persistente e sensação de não se recuperar mesmo após o descanso;
- irritabilidade,
cinismo, distanciamento emocional ou perda de sentido no trabalho;
- alterações
importantes de sono, apetite, concentração ou desempenho;
- isolamento,
culpa intensa, uso de álcool ou medicamentos para suportar a rotina;
- sensação
de desesperança, sofrimento intenso ou pensamentos de morte.
Esses sinais não substituem avaliação profissional.
Diante de sofrimento persistente, recomenda-se procurar psicólogo, psiquiatra
ou um serviço de saúde. Em situação de crise ou risco imediato, busque
atendimento de urgência. O Centro de Valorização da Vida oferece apoio
emocional gratuito pelo telefone 188.
Fonte:
Dra. Aline Gonçalves Goulart é médica-veterinária,
pesquisadora e referência em Endocanabinologia Veterinária. Atua na interface
entre ciência, cuidado animal, educação e promoção de práticas responsáveis em
saúde veterinária.
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