“É frescura”. “Na minha época ninguém tinha isso”. “É só não pensar nisso”. Frases assim ainda aparecem quando crianças, adolescentes e jovens tentam falar sobre o que sentem. O problema é que aquilo que costuma ser tratado como exagero pode esconder um sofrimento real. Se a ansiedade é hoje o transtorno de saúde mental que mais afeta essa população no Brasil, ignorá-la já não é apenas uma questão de comportamento: é uma questão de saúde pública.
A juventude sempre conviveu com inseguranças,
mudanças e descobertas. A diferença é que, hoje, boa parte delas acontece sob
exposição permanente. Redes sociais ampliam comparações, expectativas e
cobranças. A vida do outro parece estar sempre disponível como medida de
sucesso. Soma-se a isso a pressão por desempenho escolar, escolhas
profissionais e aprovação social. Para muitos jovens, parece ser necessário
demonstrar que se está vivendo bem.
Nesse cenário, falar sobre ansiedade não significa
transformar qualquer tristeza ou preocupação em doença. Significa oferecer
repertório para reconhecer o sofrimento e compreender quando ele deixa de ser
passageiro e começa a interferir na vida.
A família ocupa um lugar decisivo nesse processo.
Muitas vezes, a primeira reação diante da angústia de um jovem é tentar
eliminá-la com conselhos: “não pensa nisso”, “vai passar”, “você tem tudo para
estar bem”. A intenção pode ser proteger, mas o efeito pode ser o oposto.
Antes de procurar uma solução, é preciso criar
espaço para a escuta. Mudanças persistentes no sono, no comportamento, no
rendimento escolar ou no convívio social não devem ser automaticamente
interpretadas como “fase”.
A escola, por sua vez, não precisa — nem deve —
assumir o papel de consultório. Mas não pode ignorar o sofrimento que atravessa
seus corredores. Professores e equipes pedagógicas podem ajudar a identificar
mudanças, abrir espaços seguros de conversa e encaminhar os estudantes para o
cuidado adequado.
Falar sobre ansiedade, portanto, é combater o
silêncio que frequentemente atrasa os diagnósticos. Entre chamar de “frescura”
e transformar toda dificuldade em transtorno, existe um caminho mais
responsável: escutar, observar e saber quando buscar ajuda.
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