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domingo, 27 de setembro de 2026

O que São Francisco de Assis ainda nos ensina depois de 800 anos

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Em artigo, Frei Maurício Solfa mostra como os ensinamentos de São Francisco continuam atuais diante de uma sociedade marcada pelo excesso e pela busca por controle


O que São Francisco de Assis tem a nos ensinar depois de 800 anos? Talvez, antes de tudo, que a vida não se resume a conservar aquilo que somos. Há momentos em que precisamos permitir que algumas coisas morram em nós para que algo novo possa nascer. 

Francisco morreu muitas vezes antes de morrer fisicamente: morreu para a riqueza, para o prestígio, para os projetos pessoais, para a necessidade de reconhecimento, para o controle e, até mesmo, para determinadas imagens que havia construído sobre a própria vocação. Sua vida nos recorda que nem toda perda é o fim; algumas perdas são passagens. 

Francisco também nos ensina a simplicidade. Em um mundo que nos convence de que precisamos possuir mais, aparecer mais, produzir mais e controlar mais, ele escolheu o caminho do despojamento. Não se trata simplesmente de ter menos coisas, mas de não permitir que as coisas tenham poder sobre nós. A pobreza de São Francisco não foi apenas econômica, foi uma liberdade interior diante daquilo que poderia ocupar o lugar de Deus. 

Ele nos ensina ainda que o Evangelho precisa tornar-se vida concreta. São Francisco não quis apenas falar de Jesus, quis conformar sua existência a Ele. Por isso, sua espiritualidade não pode ser reduzida a uma coleção de frases bonitas sobre paz, natureza ou simplicidade. Há em São Francisco uma radicalidade: seguir Cristo transforma a maneira como nos relacionamos com o dinheiro, com os pobres, com os irmãos, com a criação, com o poder e conosco mesmos. 

Francisco nos ensina também a fraternidade e talvez aqui esteja uma das suas maiores atualidades. Ele descobriu que não era possível viver o Evangelho sozinho. Mesmo desejando a solidão e a contemplação, precisou aprender a viver com irmãos concretos, diferentes, limitados e nem sempre correspondentes ao ideal que havia imaginado. Isso também foi uma de suas mortes. A fraternidade real nunca é exatamente igual à fraternidade que imaginamos. Amar o irmão concreto é muito mais exigente do que amar uma ideia de fraternidade. 

E talvez seja justamente aí que São Francisco nos ensine algo profundamente humano: precisamos aprender a distinguir entre aquilo que Deus colocou em nosso coração e a maneira como imaginamos que aquilo deveria acontecer. Às vezes, não é a vocação que precisa morrer, mas a imagem que construímos dela. Não é a missão que acabou, mas a forma como pensávamos realizá-la. Não é o amor que terminou, mas uma determinada maneira de amar que já não pode continuar. Há mortes que não destroem a vida, mas sim libertam a vida para uma nova forma de existir. 

São Francisco nos ensina ainda a reconciliar-nos com a nossa própria fragilidade. Ele não chegou ao fim da vida como um homem que havia conseguido realizar perfeitamente tudo o que sonhara. Chegou marcado pelas feridas, pelas limitações, pelas doenças, pelas incompreensões e pelas perdas. E, mesmo assim, conseguiu acolher a própria morte como irmã. Isso não significa que tenha amado a morte em si mesma, mas que havia aprendido, ao longo da vida, a entregar aquilo que não podia controlar. 

Por isso, depois de 800 anos, talvez a grande pergunta que Francisco nos faça não seja simplesmente: “O que você precisa conquistar?”. Talvez seja: “O que você precisa deixar morrer para voltar a viver?” Que necessidade de aprovação? Que desejo de controle? Que imagem de si mesmo? Que projeto que já não corresponde à realidade? Que mágoa? Que medo? Que maneira antiga de viver que já cumpriu sua função, mas que agora impede o nascimento de algo novo? 

São Francisco nos recorda que a conversão não acontece apenas quando começamos alguma coisa. Muitas vezes ela começa quando temos coragem de terminar. Há portas que precisam ser fechadas, papéis que precisam ser abandonados, expectativas que precisam ser devolvidas, imagens que precisam ser desfeitas. E isso pode doer, mas nem toda dor significa que estamos no caminho errado. Às vezes, a dor é simplesmente o preço de deixar para trás aquilo que já não pode continuar. 

Talvez por isso São Francisco permaneça tão atual. Ele nos ensina a viver com menos máscaras, menos necessidade de controle e mais verdade. Ensina-nos que a grandeza não está em ocupar o primeiro lugar, mas em saber quem somos diante de Deus. Ensina-nos que a liberdade não consiste em fazer tudo o que queremos, mas em não sermos escravos daquilo que nos possui. Ensina-nos que a fraternidade exige acolher pessoas reais e que a fé precisa tocar a vida concreta. 

E, finalmente, São Francisco nos ensina a morrer. Não apenas a morte física, que um dia chegará para todos nós, mas essas pequenas mortes que fazem parte de toda existência. Morrer para o ego, para o orgulho, para a necessidade de ter razão, para a ilusão de controlar tudo, para aquilo que já não somos. Morrer para algumas versões de nós mesmos para que possamos nascer mais livres, mais inteiros e mais próximos daquilo que Deus sonhou para nós. 

Foi assim que São Francisco chegou à sua última hora. Depois de tantas mortes vividas, pôde acolher a morte corporal como irmã. Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos que ele nos deixou: quem aprende a desapegar-se ao longo da vida, chega ao fim com menos coisas para perder e mais liberdade para entregar-se. 

Oito séculos depois, São Francisco continua nos convidando a uma vida mais simples, mais fraterna, mais livre e mais evangélica. Continua nos lembrando de que não precisamos preservar para sempre aquilo que fomos. A vida também é passagem e algumas coisas precisam morrer para que outras possam nascer. 

São Francisco de Assis morreu há 800 anos, mas seu modo de viver continua perguntando a cada geração: o que em nós precisa morrer para que a vida possa, finalmente, nascer? 



Frei Maurício Solfa -entrou para o seminário com os Freis Capuchinhos em 1999, sendo ordenado padre em 2009. Estudou Filosofia e Teologia, é psicanalista, pós-graduado em Espiritualidade Franciscana e, atualmente, cursa pós-graduação em Bíblia. 60 dias para mudar é seu quarto livro. Trabalha como Vigário Paroquial em Cruzeiro do Oeste-PR, na paróquia Nossa de Fátima.  
Instagram:
@freimauriciosolfa_  


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