Em artigo, Frei
Maurício Solfa mostra como os ensinamentos de São Francisco continuam atuais
diante de uma sociedade marcada pelo excesso e pela busca por controle
Francisco morreu muitas vezes antes de morrer
fisicamente: morreu para a riqueza, para o prestígio, para os projetos
pessoais, para a necessidade de reconhecimento, para o controle e, até mesmo,
para determinadas imagens que havia construído sobre a própria vocação. Sua
vida nos recorda que nem toda perda é o fim; algumas perdas são passagens.
Francisco também nos ensina a simplicidade. Em um
mundo que nos convence de que precisamos possuir mais, aparecer mais, produzir
mais e controlar mais, ele escolheu o caminho do despojamento. Não se trata
simplesmente de ter menos coisas, mas de não permitir que as coisas tenham
poder sobre nós. A pobreza de São Francisco não foi apenas econômica, foi uma
liberdade interior diante daquilo que poderia ocupar o lugar de Deus.
Ele nos ensina ainda que o Evangelho precisa
tornar-se vida concreta. São Francisco não quis apenas falar de Jesus, quis
conformar sua existência a Ele. Por isso, sua espiritualidade não pode ser
reduzida a uma coleção de frases bonitas sobre paz, natureza ou simplicidade.
Há em São Francisco uma radicalidade: seguir Cristo transforma a maneira como
nos relacionamos com o dinheiro, com os pobres, com os irmãos, com a criação,
com o poder e conosco mesmos.
Francisco nos ensina também a fraternidade e talvez
aqui esteja uma das suas maiores atualidades. Ele descobriu que não era
possível viver o Evangelho sozinho. Mesmo desejando a solidão e a contemplação,
precisou aprender a viver com irmãos concretos, diferentes, limitados e nem
sempre correspondentes ao ideal que havia imaginado. Isso também foi uma de
suas mortes. A fraternidade real nunca é exatamente igual à fraternidade que
imaginamos. Amar o irmão concreto é muito mais exigente do que amar uma ideia
de fraternidade.
E talvez seja justamente aí que São Francisco nos
ensine algo profundamente humano: precisamos aprender a distinguir entre aquilo
que Deus colocou em nosso coração e a maneira como imaginamos que aquilo
deveria acontecer. Às vezes, não é a vocação que precisa morrer, mas a imagem
que construímos dela. Não é a missão que acabou, mas a forma como pensávamos
realizá-la. Não é o amor que terminou, mas uma determinada maneira de amar que
já não pode continuar. Há mortes que não destroem a vida, mas sim libertam a
vida para uma nova forma de existir.
São Francisco nos ensina ainda a reconciliar-nos
com a nossa própria fragilidade. Ele não chegou ao fim da vida como um homem
que havia conseguido realizar perfeitamente tudo o que sonhara. Chegou marcado
pelas feridas, pelas limitações, pelas doenças, pelas incompreensões e pelas
perdas. E, mesmo assim, conseguiu acolher a própria morte como irmã. Isso não
significa que tenha amado a morte em si mesma, mas que havia aprendido, ao
longo da vida, a entregar aquilo que não podia controlar.
Por isso, depois de 800 anos, talvez a grande
pergunta que Francisco nos faça não seja simplesmente: “O que você precisa
conquistar?”. Talvez seja: “O que você precisa deixar morrer para voltar a
viver?”
Que necessidade de aprovação? Que desejo de controle? Que imagem de si mesmo?
Que projeto que já não corresponde à realidade? Que mágoa? Que medo? Que
maneira antiga de viver que já cumpriu sua função, mas que agora impede o nascimento
de algo novo?
São Francisco nos recorda que a conversão não
acontece apenas quando começamos alguma coisa. Muitas vezes ela começa quando
temos coragem de terminar. Há portas que precisam ser fechadas, papéis que
precisam ser abandonados, expectativas que precisam ser devolvidas, imagens que
precisam ser desfeitas. E isso pode doer, mas nem toda dor significa que
estamos no caminho errado. Às vezes, a dor é simplesmente o preço de deixar
para trás aquilo que já não pode continuar.
Talvez por isso São Francisco permaneça tão atual.
Ele nos ensina a viver com menos máscaras, menos necessidade de controle e mais
verdade. Ensina-nos que a grandeza não está em ocupar o primeiro lugar, mas em
saber quem somos diante de Deus. Ensina-nos que a liberdade não consiste em
fazer tudo o que queremos, mas em não sermos escravos daquilo que nos possui.
Ensina-nos que a fraternidade exige acolher pessoas reais e que a fé precisa
tocar a vida concreta.
E, finalmente, São Francisco nos ensina a morrer.
Não apenas a morte física, que um dia chegará para todos nós, mas essas
pequenas mortes que fazem parte de toda existência. Morrer para o ego, para o
orgulho, para a necessidade de ter razão, para a ilusão de controlar tudo, para
aquilo que já não somos. Morrer para algumas versões de nós mesmos para que
possamos nascer mais livres, mais inteiros e mais próximos daquilo que Deus
sonhou para nós.
Foi assim que São Francisco chegou à sua última
hora. Depois de tantas mortes vividas, pôde acolher a morte corporal como irmã.
Talvez esse seja um dos maiores ensinamentos que ele nos deixou: quem
aprende a desapegar-se ao longo da vida, chega ao fim com menos coisas para
perder e mais liberdade para entregar-se.
Oito séculos depois, São Francisco continua nos
convidando a uma vida mais simples, mais fraterna, mais livre e mais
evangélica. Continua nos lembrando de que não precisamos preservar para sempre
aquilo que fomos. A vida também é passagem e algumas coisas precisam morrer
para que outras possam nascer.
São Francisco de Assis morreu há 800 anos, mas seu
modo de viver continua perguntando a cada geração: o que em
nós precisa morrer para que a vida possa, finalmente, nascer?
Frei Maurício Solfa -entrou para o seminário com os Freis
Capuchinhos em 1999, sendo ordenado padre em 2009. Estudou Filosofia e
Teologia, é psicanalista, pós-graduado em Espiritualidade Franciscana e,
atualmente, cursa pós-graduação em Bíblia. 60 dias para mudar é seu quarto
livro. Trabalha como Vigário Paroquial em Cruzeiro do Oeste-PR, na paróquia
Nossa de Fátima.
Instagram: @freimauriciosolfa_

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