terça-feira, 15 de setembro de 2026

O CEO do futuro será mais humano ou mais técnico

A ascensão da inteligência artificial está mudando a conversa sobre sucessão executiva. Conselhos procuram líderes capazes de compreender tecnologia, dialogar com especialistas e tomar decisões em um ambiente cada vez mais orientado por dados. O risco começa quando esse movimento transforma credencial técnica em substituto para clareza de critério. 

Um levantamento da EY mostrou que, entre 2022 e 2023, a proporção de novos membros de conselho vindos de cargos executivos de tecnologia saltou de 38% para 62%. A leitura mais rápida é que os conselhos estão se blindando contra a disrupção tecnológica, porém, muitos conselhos ainda não sabem exatamente o que procuram, e por isso trocam clareza de critério por credencial técnica. 

Segundo a Heidrick & Struggles, a proporção de executivos que já incorporam inteligência artificial à estratégia de negócio subiu de 76% para 82% em um único ano e o Gartner mostra que 86% dos CEOs acreditam que a IA pode ampliar a receita da empresa, embora a maioria ainda a trate como alavanca de produtividade, não como motor de novos modelos de negócio. 

Em processos de sucessão que acompanhei, virou comum colocar “conhecimento de IA” ao lado de “domínio de inglês” e “experiência internacional” na lista de critérios, como se fosse mais um item de currículo a ser marcado. O problema é que fluência técnica atualmente é piso, não diferencial. Um CEO que não consegue ler criticamente um relatório de IA produzido pelo próprio time de dados está tão desatualizado quanto, quinze anos atrás, estava um CEO incapaz de ler um balanço. Isso não faz dele um líder mais preparado para o futuro. Faz dele apenas alguém que não está desqualificado para o presente. 

O que a tecnologia ainda não sabe fazer é decidir o que fazer com a própria capacidade que ela criou: julgar sob informação incompleta, sustentar a confiança de um time em um trimestre ruim, dar sentido a uma decisão impopular, equilibrar interesses de acionistas, colaboradores e clientes que raramente apontam na mesma direção. 

Uma pesquisa recente da Forbes sobre o mercado de trabalho em 2026 mostrou que profissionais da geração mais jovem já atribuem às habilidades humanas o mesmo peso das habilidades técnicas na hora de avaliar um líder. Quem cresceu rodeado por inteligência artificial entende, na prática, que ela replica conhecimento, mas não substitui a conexão. 

O verdadeiro diferencial do CEO do futuro não estará em saber operar um modelo de IA, nem em memorizar a diferença entre um caso de uso e outro. Estará na capacidade de decidir o que deve ser automatizado e o que deve continuar sendo uma decisão humana, traduzir incerteza técnica em direção clara para pessoas, e manter o julgamento ético como critério final quando o algoritmo já apontou um caminho. Domínio técnico sem esse julgamento produz eficiência sem direção. Sensibilidade humana sem letramento técnico produz boas intenções sem instrumento. 

Conselhos que erram para o lado técnico tendem a eleger especialistas brilhantes que não conseguem alinhar conselho, cultura e mercado nas decisões mais difíceis, as que não têm uma resposta certa no dado. Conselhos que erram para o lado puramente relacional tendem a eleger líderes carismáticos que perdem credibilidade diante de investidores e comitês cada vez mais fluentes em dados, e que hoje tratam decisões que antes eram só intuição como decisões que também precisam ser defensáveis com modelo e evidência. Os dois erros são reais, e superestimar qualquer um dos dois lados é, em si, um risco de governança que muitos conselhos ainda não nomeiam. 

Se sua empresa está buscando o próximo CEO, vale observar qual pergunta está orientando a decisão: “essa pessoa entende de inteligência artificial?” ou “essa pessoa consegue liderar pessoas e decisões em um mundo cada vez mais mediado por inteligência artificial?”. A primeira pergunta é necessária, a segunda é decisiva. 

Competência técnica pode ser contratada em uma diretoria de dados, desenvolvida em uma equipe de tecnologia ou acessada por meio de bons conselheiros. O julgamento para decidir a serviço de quem a tecnologia deve operar, e o que ela nunca deveria decidir sozinha, é uma responsabilidade que só o topo da organização pode exercer.


Andrey Abreu - Conselheiro, mentor de líderes e organizações, palestrante e especialista em estratégia, inovação e transformação empresarial. Há 25 anos atua em empresas de base tecnológica, apoiando executivos e times de liderança na tomada de decisões em contextos de mudança, crescimento e alta complexidade. Atualmente, é COO da Softplan, uma das principais empresas de tecnologia para transformação digital de governo no Brasil. Também é autor do best-seller Além do Agora: A reinvenção do futuro, obra que estimula consciência e protagonismo em tempos acelerados, transformando complexidade em clareza e ação. Seu trabalho é dedicado a ajudar líderes e organizações a navegar pelas incertezas do futuro de forma simples, eficaz e humana, conectando governança, inovação e propósito



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