terça-feira, 15 de setembro de 2026

Não reconhecer o próprio sofrimento é a maior barreira à saúde mental, aponta estudo global

Mind Health Report 2026 mostra que 36% das pessoas acreditam que sua condição não justifica atenção médica, e 60% não procuraram um profissional por questões emocionais nos últimos doze meses;

45% dos usuários de IA para saúde mental se dizem insatisfeitos com os conselhos recebidos, e 28% afirmam que recomendações dessas plataformas os levaram a comportamentos prejudiciais;

40% das pessoas relataram solidão, e 75% dizem que o tempo de tela afeta negativamente a vida diária;
Para psicanalista da Sow Saúde Integral, a busca por IA pode criar a ilusão de tratamento sem enfrentar o que de fato causa sofrimento.

 

O principal obstáculo para quem precisa de cuidado em saúde mental é a dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento como algo que merece atenção. O dado faz parte do Mind Health Report 2026, estudo conduzido pela seguradora AXA em parceria com a Ipsos. Segundo o levantamento, 36% das pessoas afirmam que sua condição não justifica atenção médica, percentual maior do que o custo do tratamento, apontado por 33%. Ao todo, 60% dos entrevistados não procuraram um profissional de saúde por questões emocionais nos últimos doze meses. 

O número contrasta com a realidade descrita pelo próprio estudo, que ouviu 19 mil adultos de 18 a 75 anos em 18 países, entre janeiro e fevereiro deste ano. Quase metade da população pesquisada, 46%, está definhando emocionalmente ou em sofrimento psicológico, seis pontos a mais do que em 2022. Em dez dos dezesseis países que participam do estudo desde 2021, os índices são os piores já registrados desde o início da série. 

Para Flávia Anjos, psicanalista e diretora vice-presidente da Sow Saúde Integral, essa distância entre o sofrimento e a busca por ajuda começa antes, na forma como cada pessoa interpreta o que sente. “Muita gente convive com sofrimento por anos sem nomear aquilo como algo que precisa de cuidado. Aprendemos a tratar o mal-estar como cansaço, como fase, como característica de personalidade. E enquanto não existe essa nomeação, não existe busca por ajuda”, explica. 

Sem procurar ajuda profissional, muitos recorrem ao que está disponível de forma imediata e sem custo. O relatório aponta que 63% já usaram inteligência artificial para questões de saúde mental, e 21% fazem isso com regularidade. A AXA descreve a ferramenta como uma faca de dois gumes. Ela derruba as quatro principais barreiras ao cuidado, por ser gratuita, disponível o tempo todo, imediata e impessoal, o que reduz o medo do julgamento. Ao mesmo tempo, 45% dos usuários se dizem insatisfeitos com os conselhos recebidos das plataformas, 38% confiam mais na inteligência artificial do que em profissionais de saúde mental para receber orientação, 42% afirmam que quase sempre aplicam as recomendações da IA sobre sua saúde, e 28% admitem que o uso dessas ferramentas os levou a comportamentos prejudiciais. 

Para Flávia, a diferença entre uma conversa e um processo terapêutico está justamente no que a máquina não faz. “Quando alguém procura a inteligência artificial, mantém uma conversa, fala sobre questões, mas não tem ali um ser humano que confronta, que mexe na ferida. A IA responde, mas não existe interação humana, o olho no olho, que é fundamental para que o tratamento aconteça”, explica a psicanalista.

 

INTERFERÊNCIA NO DIA A DIA

Há ainda um efeito que atravessa todo o levantamento. As pessoas passam em média 5,1 horas por dia em telas para atividades pessoais, o equivalente a aproximadamente 55 dias por ano, e 75% afirmam que esse tempo afeta negativamente a vida cotidiana, ao menos de forma moderada. Entre os menores de 34 anos, a média sobe para 6 horas diárias, e esse grupo tem o dobro de chance de experimentar solidão em comparação aos maiores de 55 anos, que passam 4 horas em telas. Ao todo, 40% relataram ter se sentido sozinhos ao menos parte do tempo nas últimas duas semanas que antecederam a pesquisa.

 

GERAÇÃO MAIS ATINGIDA

No estudo, Claudio Gienal, Chief Transformation Officer da AXA Europe & Health, resume o paradoxo no próprio relatório ao afirmar que a hiperconectividade não curou a solidão, mas a aprofundou, particularmente entre os jovens, que aparecem como o grupo mais atingido. Entre 18 e 24 anos, 59% estão definhando emocionalmente ou em sofrimento psicológico, treze pontos acima da média da população geral. Adultos com menos de 35 anos têm 2,3 vezes mais chance de receber um diagnóstico severo de depressão, ansiedade ou estresse. E 92% dos jovens afirmam que o excesso de tempo de tela impacta negativamente o dia a dia. O estudo aponta, no entanto, um sinal encorajador entre os mais jovens. Esse é o grupo que se mostra mais aberto a falar sobre as próprias dificuldades emocionais e a procurar ajuda.

 

NO AMBIENTE DE TRABALHO

A mesma contradição aparece no ambiente corporativo. Segundo o levantamento, 48% das pessoas não discutiriam questões de saúde mental no ambiente profissional, mas 84% participariam de programas de apoio emocional se fossem oferecidos pela empresa. O impacto do trabalho na saúde mental é expressivo. Entre a população economicamente ativa, 56% relatam estresse moderado a severo na vida profissional nos últimos doze meses, e 24% já se afastaram por questões relacionadas à saúde mental. A perda global de produtividade decorrente de transtornos mentais é estimada em cerca de um trilhão de dólares por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde.

 

PANORAMA INTERNO

No Brasil, o cenário acompanha essa tendência. O país registrou 59,8 pontos no Mind Health Index, abaixo da média global de 61,8, na faixa classificada como definhamento emocional. No índice, quanto maior a pontuação, melhor o estado de saúde mental da população. Entre os dezoito países pesquisados, apenas três registraram desempenho pior que o brasileiro, Japão, com 58,1, Coreia do Sul, com 58,5, e Reino Unido, com 59,5. Diante desse quadro, a forma como cada pessoa busca cuidado ganha peso. 

"É através do olhar do outro, do profissional que está ali para apoiar e para tirar da zona de conforto, que a análise se estabelece. Ao longo do processo vêm à tona coisas boas, mas também lembranças difíceis de acessar. E a transformação acontece justamente aí, quando existe a possibilidade de dar nome ao que se sente e falar sobre o que causou dor. É um caminho único, capaz de trazer ressignificação para a vida", conclui Flávia Anjos.


Sow Saúde Integral

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário