Setembro Amarelo reforça discussão sobre saúde mental no trabalho em um momento em que a nova NR-1 amplia o olhar das empresas para fatores psicossociais
Em um ano em que a saúde mental ganhou ainda mais espaço na agenda
das empresas brasileiras, a liderança passa a ter um papel que vai além de
acompanhar metas e resultados. Desde 26 de maio de 2026, a nova redação
da NR-1 passou a incluir expressamente os fatores de riscos
psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais
(GRO). Entre os exemplos estão situações como sobrecarga de trabalho e falta de
suporte.
Quem ocupa posições de gestão também sofre essa pressão. Uma pesquisa da Deloitte, realizada com 3.150 executivos, gestores e trabalhadores em quatro países, mostrou que pelo menos quatro em cada dez profissionais afirmam sentir-se sempre ou frequentemente exaustos ou estressados. O estudo também identificou um descompasso entre liderança e equipes: cerca de 90% dos executivos consideram que suas empresas têm impacto positivo sobre o bem-estar dos trabalhadores, enquanto menos de 60% dos trabalhadores concordam.
Ainda, segundo a Gallup, o índice de gestores engajados caiu de 31% em 2022 para 22% em 2025. Para Cristián Sepúlveda, executivo, conselheiro e cofundador da Silver Hub, os números mostram que a discussão não pode ficar restrita a benefícios ou iniciativas pontuais de bem-estar. “A liderança influencia diretamente a forma como o trabalho é percebido. Como são tratadas as pessoas, desenvolver e criar confiança, o que é tratado como urgente, a maneira de distribuir demandas, os espaços para pedir ajudas e até o comportamento do próprio gestor comunicam para a equipe o que é considerado normal dentro daquela organização”, afirma.
Abaixo, o executivo reúne cinco atitudes para uma liderança que cuida da equipe e de si mesma:
Pare de transformar tudo em urgência
Quando toda demanda é tratada como prioridade, a
equipe perde a capacidade de distinguir o que realmente precisa ser resolvido
naquele momento. Para Cristián, cabe ao líder organizar prioridades e evitar
que a pressão se torne um método permanente de gestão.
Observe a carga de trabalho, não apenas a entrega
Cumprir metas não significa necessariamente que uma operação esteja saudável. “Um resultado excepcional obtido às custas de jornadas excessivas ou de uma equipe constantemente no limite não é necessariamente um bom resultado de gestão”, explica o executivo.
Dê espaço para que a equipe diga que algo não está funcionando
Uma liderança saudável precisa criar canais para que
profissionais possam falar sobre sobrecarga, conflitos, falta de recursos ou
dificuldades sem que isso seja interpretado automaticamente como falta de
comprometimento.
Não confunda disponibilidade com liderança
Responder a qualquer hora, assumir todas as decisões
e estar permanentemente conectado pode transmitir uma ideia de dedicação, mas
também pode estabelecer um padrão difícil de sustentar para toda a equipe. “O
líder também precisa mostrar que limites fazem parte de uma rotina profissional
saudável. Se ele nunca desconecta, a mensagem implícita é de que ninguém
deveria desconectar”, diz Cristián.
Faça conversas de gestão antes que o problema vire afastamento
Acompanhar pessoas não deve acontecer apenas na avaliação anual de desempenho. Conversas frequentes sobre prioridades, expectativas, dificuldades e desenvolvimento permitem identificar mudanças de comportamento e sobrecarga antes que elas se transformem em problemas maiores. Para Cristián, “a melhor hora para perguntar como alguém está conseguindo dar conta do trabalho é antes de a pessoa chegar ao limite”.
A mudança na NR-1 reforça a necessidade de olhar para as causas relacionadas ao trabalho, e não apenas para seus efeitos. A norma não transforma a empresa em responsável pela saúde mental individual de cada trabalhador, mas exige que os fatores de risco relacionados ao trabalho sejam identificados, avaliados e controlados.
Para Cristián, essa mudança também ajuda a tirar a saúde mental do campo das iniciativas isoladas. “A saúde dos colaboradores será um dos principais ativos estratégicos das empresas, transformando o cuidado com as pessoas em uma fonte de produtividade, competitividade e crescimento. Não adianta falar de bem-estar se a forma como o trabalho é organizado produz exatamente o contrário. A liderança precisa entender que cuidar das pessoas também passa por decidir como as demandas são distribuídas, como os erros são tratados, quais comportamentos são reconhecidos e quanto espaço existe para as pessoas trabalharem de forma sustentável”, afirma.
Em um ambiente de trabalho saudável, segundo o executivo, resultado não deveria depender da capacidade das pessoas de suportar pressão indefinidamente. “Liderar bem não é cobrar menos. É criar as condições para que a equipe consiga entregar bem por mais tempo”, conclui.
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