sexta-feira, 4 de setembro de 2026

IMS Paulista apresenta exposição com cerca de 400 obras do artista luso-brasileiro Fernando Lemos, no ano de seu centenário

 

Procura ardente (Nora Mitrani), Lisboa, Portugal, 1949-1952.
 Fotografia impressa em papel de gelatina e prata em 2026.
Arquivo Fernando Lemos/Acervo Instituto Moreira Salles.
Com abertura em 19 de setembro, a mostra revê 70 anos da produção de Fernando Lemos (1926-2019) e apresenta desenhos, fotografias, ilustrações, pinturas, design gráfico e poesia. As obras fazem parte dos acervos do artista sob guarda do IMS e da família.


Memórias n. 7, 1984. Tinta offset sobre chapa de alumínio,
impressa em 2018.
 Coleção Beatrix Overmeer

O IMS Paulista abre, no dia 19 de setembro, a exposição Quanto mais desejo, mais invento o que vejo, dedicada à trajetória do artista luso-brasileiro Fernando Lemos. O artista integrou o movimento surrealista português no final dos anos 1940 e, em 1953, emigrou para o Brasil, onde viveu até 2019, ano de sua morte. “O Brasil deu-me tudo que me foi roubado e não me devolveram”, afirmou em entrevista ao jornal português Expresso.

 Em celebração ao centenário de nascimento de Fernando Lemos, a mostra percorre mais de 70 anos de sua produção e apresenta ao público o arquivo do artista, sob a guarda do IMS desde 2019, somado ao material conservado com a família. São cerca de 400 itens, entre fotografias, desenhos, projetos e documentos — muitos inéditos —, que permitem acompanhar a trajetória de Lemos e a maneira como desdobrou as ideias surrealistas ao longo da vida. "Sempre procurei criar imagens que trouxessem à superfície minha reflexão sobre a desocultação. [...] Só me interessei pelo surrealismo porque o sonho era exatamente o único território em que não havia nada oculto. O sonho era para revelar, para despertar, não para esconder. A fotografia é uma desocultação. Toda a nossa ação na arte é desocultamento, ou seja, a procura daquilo que não existe, que está invisível, sob a forma de palimpsesto", resumiu. 

A abertura acontece no dia 19 de setembro, às 10h, e contará com uma conversa com o curador e convidados, além do lançamento do catálogo da exposição. 

Com curadoria de Thyago Nogueira, a mostra revê a obra do artista a partir da ideia de “desocultação”, conceito-chave para unir sua produção em fotografia, desenho e poesia. "Lemos pensou a desocultação surrealista como uma forma de acessar os mistérios da alma humana, mas também de driblar a arte burguesa e a repressão portuguesa de Salazar. O estudo de seu arquivo mostrou que, ao longo da vida, ele desdobrou essa ideia numa forma de ética e de prática artística, a fim de dar clareza às linguagens, expondo suas estruturas sintáticas ou aproximando elementos semelhantes e contrastantes a fim de construir novos sentidos”, avalia o curador. “Essa prática uniu sua fotografia, seu desenho e sua poesia de uma forma ainda pouco estudada”, conclui.
 

O título da exposição é uma estrofe do poema "Quanto mais desejo”, de Fernando Lemos, que fez da poesia uma forma de narrar a própria vida. O poema trata da importância do desejo na criação artística e em sua relação com o mundo e é um exemplo legível de como Lemos manipulou elementos simples de cada linguagem em busca de ampliar os sentidos.
 
Lemos fez da arte uma prática cotidiana, trabalhando em projetos independentes e comissionados. “Recolhia objetos na rua, pintava guardanapos e expunha ideias como quem desenha no espaço. Produziu uma quantidade imensa de desenhos e esboços, que guardou consigo. Apresentar essa dimensão íntima e informal da arte é também um dos desafios deste projeto”, afirma o curador. A expografia da exposição, toda feita em vitrines, foi pensada para expor a variedade de objetos e realçar a diversidade material das obras que integram o acervo do artista, além de sugerir a ideia de um ateliê de trabalho. 

Ao longo da vida, Lemos atravessou duas ditaduras: uma em Portugal, outra no Brasil. O medo da repressão, que o obrigou a fugir de Portugal, fez nascer uma personalidade combativa, que lutava por direitos e se manifestava diante de injustiças. Além do trabalho de ateliê, Lemos integrou organizações de resistência, participou de campanhas políticas e atuou em instituições culturais para ampliar o acesso à arte e à cultura como passos fundamentais no fortalecimento das democracias.
 


Núcleos expositivos

A lavagem cerebral (Alexandre O’Neill), Lisboa, Portugal, 1949-1952.
 Fotografia impressa em papel de gelatina e prata em 2026.
 Arquivo Fernando Lemos/Acervo Instituto Moreira Salles.

As mais de 400 obras da exposição estão agrupadas em diferentes núcleos, que se cruzam e se complementam. Em “Desocultações”, estão reunidas as fotografias da juventude de Lemos, realizadas entre 1949 e 1952, ainda em Lisboa. Nesse período, o artista se aproximou do Partido Comunista e do movimento surrealista, integrando um grupo de jovens que promovia ações de oposição ao conservadorismo crescente da arte burguesa e à repressão do Estado Novo, instaurado em 1933. 

Desde jovem, Fernando Lemos encontrou no surrealismo francês um campo fértil para sua arte, interessando-se pelas imagens do inconsciente, pela escrita automática e pelos princípios de ocultação e desocultação. Desdobrou essas ideias em dezenas de retratos de múltipla exposição, em preto e branco e médio formato, registrando uma geração de artistas e pensadores que tentavam resistir ao avanço da ditadura portuguesa. “Quando fotografamos uma pessoa, não estamos fotografando uma coisa fixa, uma máscara. Afinal, numa fração de segundo, tudo muda. Mudamos nossa expressão a todo instante, subitamente, várias vezes. Então o retrato deve ser múltiplo para dar mais vida à imagem. Nós não somos uma máscara”, declarou em entrevista à revista ZUM (disponível no site). 

Exilado no Brasil a partir de 1953, Lemos ainda fotografou as escritoras Hilda Hilst e Lygia Fagundes Telles e os artistas Wyllis de Castro e Hércules Barsotti, mas aos poucos se afastou da fotografia. As imagens surrealistas foram retomadas apenas nos anos 1990, depois de uma grande exposição na Fundação Calouste Gulbenkian em Paris e Lisboa. "Os retratos que fiz tornaram-se uma galeria de figuras importantes que àquela altura não podiam fazer nada. Não era só arte, era uma luta antifascista, antissalazarista, que custou a vida de muitos", relembrou.

Sem título, 1954. Nanquim sobre papel.
Coleção Beatrix Overmeer.

Sem título, 1955. Aquarela sobre papel.
Arquivo Fernando Lemos
Acervo Instituto Moreira Salles.


A produção de desenhos é um dos destaques da exposição e aparece em núcleos como “Coreografias”, “Ritmos & melodias” e Caligrafias”. Ao longo dos anos 1950 e 1960, Lemos se inseriu na cena artística brasileira graças a participações em salões e bienais. Sua atuação se desdobrou em diferentes linguagens, como a pintura, a moda e o design, mas foram o desenho e a poesia que ocuparam lugar central em sua vida.

 No núcleo “Coreografias”, destaca-se um conjunto de desenhos que explora o corpo e o retrato. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em 1953, Lemos retomou o interesse pela figuração e produziu um conjunto notável, chamado Desenhos inocentes, em que examina a anatomia humana em cenas repletas de humor e sensualidade. 

“Ritmos & melodias”, também centrado no desenho, reúne trabalhos que se afastam da figuração para construir modulações rítmicas e melódicas a partir de traços e pinceladas. O interesse pela construção modular e sintética também se desdobrou em trabalhos de design gráfico e estamparia, incluindo logotipos, como o do Memorial da América Latina, e tecidos para a Rhodia.
 

Em “Caligrafias”, Lemos se debruça sobre a fronteira que separa a escrita e o desenho, explorando elementos sígnicos que sugerem alfabetos misteriosos e cifrados. O interesse pela autonomia do desenho deu origem a uma de suas séries mais importantes, conhecida como Memórias (1984). Impressa em chapas de alumínio, a série é uma autobiografia gráfica, que reúne fragmentos do alfabeto visual de Lemos em uma composição com temas militares, orientais, eróticos e musicais.

Em um conjunto conhecido como Desenhos deficientes (s/d), Lemos desmonta o símbolo internacional de deficiência para inseri-lo em ações e atividades. Por trás do exercício despretensioso, surge um estudo crítico e provocador sobre a experiência do cadeirante a partir de sua própria vivência, tratando de sexo e morte, medo e delírio, vigilância e perseguição, sem qualquer dose de moralismo, condescendência ou autocomiseração. 

Caricatura de António de Oliveira Salazar para
 o jornal
Portugal Democrático.
 Nanquim sobre papel, ano III, n. 27, ago. 1959.
Arquivo Fernando Lemos
Acervo Instituto Moreira Salles.

O núcleo “Arte no front” apresenta a atuação política e social do artista. Desde sua chegada ao Brasil, Lemos conciliou a produção individual com uma intensa participação em projetos coletivos. 

Nos anos 1950, Lemos trabalhou na exposição do Quarto Centenário de São Paulo (1954) e colaborou com ilustrações em revistas como Manchete e jornais como O Estado de S. Paulo. 

Em 1956, integrou a equipe do jornal Portugal Democrático, editado por exilados políticos portugueses radicados no Brasil. Lemos produziu caricaturas e charges para a publicação, que foi um órgão fundamental na resistência à ditadura e às ocupações coloniais portuguesas. 

A atuação de Lemos também se estendeu à produção editorial e à educação infantil. Com o escritor Sidónio Muralha, fundou a editora Giroflé, que se dedicou à publicação de livros para crianças, elaborados por grandes artistas e escritores, como Cecília Meirelles e Maria Bonomi. Lemos defendia a alfabetização visual das crianças e a produção de material didático que estimulasse o interesse por desenho. O projeto pioneiro contava com apoio de empresários e intelectuais, como Max Feffer, Fanny Abramovich e Darcy Ribeiro, mas foi encerrado em 1964, logo após o golpe militar que instalou a ditadura no Brasil. 

O próprio Lemos ilustrou diversos livros infantis, entre eles Sexo e educação é natural, escrito por Sabá Gervásio e destinado a crianças de 4 a 8 anos. O livro foi publicado em 1969, logo após a promulgação do AI-5. A atenção do artista ao universo infantil é destaque da exposição, revelando uma parte menos conhecida de seu trabalho e o interesse em aproximar a arte das novas gerações.

Nos anos 1960, Lemos dirigiu o estúdio de criação Maitiry e codirigiu a fotografia do filme Compasso de espera (1969/1973), de Antunes Filho, marco da luta antirracista. Com o avanço da luta democrática, sua atuação se tornou ainda mais engajada. Em 1978, produziu um cartaz em favor da anistia de presos políticos. Em 1985, juntou-se a artistas na campanha de Fernando Henrique Cardoso para a prefeitura de São Paulo, na primeira eleição municipal direta no período pós-ditadura. Ao lado de artistas e intelectuais, estruturou as pesquisas do Idart e dirigiu o Centro Cultural São Paulo (1983). 

Mais tarde, colaborou com a campanha para a sensibilização sobre a aids, promovida pelo Sesc São Paulo (1995); com a exposição 50 anos de Hiroshima, organizada pelo Greenpeace no Sesc Pompeia, para homenagear as vítimas da bomba atômica lançada pelos Estados Unidos contra o Japão (1995); e, em 1997, criou o slogan “Por amor a ti, Timor amordaçado” para o Movimento 25 de Abril pela Libertação do Timor-Leste, mobilizando políticos, artistas e intelectuais pelo fim da ocupação da Indonésia na ex-colônia portuguesa, entre muitas outras iniciativas. 

A exposição termina com o núcleo “Sonhos e pesadelos”, em que Lemos retoma o interesse surrealista por manchas opacas e formas difusas para enfrentar medos e desejos, além de lidar com os limites físicos e o avanço da idade. O conjunto reúne aquarelas, desenhos e pinturas, além da conhecida série Ex-fotos (2001-2009), em que o artista intervém com tintas e arranhões sobre cópias fotográficas rejeitadas por amigos e desconhecidos para tratar dos jogos de aparência e das veleidades narcisísticas. 

“A exposição se baseia no arquivo íntimo do artista, o material que estava com ele quando partiu. É uma rara oportunidade de entender a gênese de seu pensamento através do trânsito fértil que une esboços e obras prontas, sem a necessidade de estabelecer fronteiras precisas”, afirma o curador. 

A exposição Quanto mais desejo, mais invento o que vejo faz parte das comemorações do centenário de nascimento de Fernando Lemos no Brasil e em Portugal, um projeto de parceria entre a Fundação Cupertino Miranda (Porto), a Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa) e o Instituto Moreira Salles. 

A exposição conta com assistência curatorial de Laura Sapucaia, pesquisa adicional de Ângelo Manjabosco e Carolina Natividade da Cruz, consultoria do acervo da família por Rosely Nakagawa e depoimentos inéditos de Ana Maria Belluzzo, Chico Homem de Melo, Rui Moreira Leite e Beatrix Overmeer.


Sobre o artista

Eu, poeta (Fernando Lemos), Lisboa, Portugal, 1949-1952.
Fotografia impressa em papel de gelatina e prata em 2026.
Arquivo Fernando Lemos/Acervo Instituto Moreira Salles.
Fernando Lemos nasceu em Lisboa, em 1926. Emigrou para o Brasil em 1953 e naturalizou-se brasileiro em 1960. Morou a maior parte da vida em São Paulo, onde faleceu, em 2019. Pertenceu à terceira geração de modernistas portugueses e desenvolveu uma multifacetada prática artística, destacando-se na fotografia, na pintura, no desenho e na poesia, entre outras atividades.

 

Filho de pai marinheiro e marceneiro e de mãe rendeira e trabalhadora doméstica, contraiu meningite e poliomielite na infância, experiência que marcou sua vida e arte. Nos anos 1940, vivendo em Lisboa, frequentou cursos de litografia, desenho gráfico e aquarela, aproximando-se da fotografia e da pintura. 

Autoexilado no Brasil em razão da ditadura salazarista, Lemos construiu uma carreira extensa, com projetos individuais e coletivos. No Brasil, atravessou outra ditadura, que enfrentou com resistência na busca de fortalecer a arte, a produção e a pesquisa. 

Integrou a equipe inaugural do Idart, dirigiu o Centro Cultural São Paulo e participou da construção do Memorial da América Latina, entre outras atividades.


Sobre o catálogo

A exposição é acompanhada de um catálogo, com lançamento previsto para 19 de setembro. O catálogo reúne mais de 300 obras do artista e inclui textos de André Pitol, Maria do Carmo Serén, Tereza Siza, Vera Beatriz Siqueira, Rosely Nakagawa, Thyago Nogueira, Ângelo Manjabosco, Laura Sapucaia e Carolina Natividade da Cruz. A publicação estará à venda nas livrarias e na Loja online do IMS.
 

Serviço

Quanto mais desejo, mais invento o que vejo

Curadoria de Thyago Nogueira / IMS

Visitação: de 19 de setembro a 7 de fevereiro de 2027

Entrada gratuita
 

Abertura da exposição + conversa com curador e convidados

IMS Paulista

Avenida Paulista, 2424. São Paulo - 8º andar

Tel.: 11 2842-9120

Horário de funcionamento: Terça a domingo e feriados (exceto segundas), das 10h às 20h.

 

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