terça-feira, 8 de setembro de 2026

Endometriose não afeta apenas a saúde reprodutiva e pode estar ligada ao risco de diabetes

Pesquisa com quase 3 milhões de mulheres identificou risco 46% maior entre aquelas com endometriose e associação mais forte em mulheres sem obesidade; especialista do Grupo Santa Joana explica possíveis mecanismos e os cuidados que merecem atenção

 

A endometriose costuma ser associada principalmente à dor pélvica, alterações menstruais e infertilidade. Mas um novo estudo publicado na revista científica Diabetologia chama atenção para uma possível relação que vai além do sistema reprodutivo: mulheres com endometriose apresentaram 46% mais risco de desenvolver diabetes tipo 2 do que aquelas sem a doença. O resultado ganha ainda mais relevância porque a associação entre diabetes e endometriose foi mais forte entre mulheres sem obesidade (IMC < 30), o que demonstra que os mecanismos envolvidos no desenvolvimento do diabetes são diferentes dos tradicionais riscos metabólicos já conhecidos.  

A pesquisa faz parte do estudo ARCHES e analisou dados de 2.939.364 mulheres acompanhadas a partir de registros populacionais de Utah, nos Estados Unidos, entre 1996 e 2021. Durante um acompanhamento médio de 10,8 anos, quase 100 mil participantes receberam diagnóstico de endometriose. Houve uma forte associação entre a endometriose e o desenvolvimento de diabetes tipo 2, mesmo após os dados estatísticos terem sido ajustados entre os grupos para idade, raça/etnia, menopausa, histórico de diabetes gestacional e índice de massa corporal.  

“O resultado é interessante porque amplia a forma como enxergamos a endometriose. Estamos falando de uma doença inflamatória crônica que não deve ser acompanhada apenas pelos sintomas ginecológicos. Ainda precisamos entender melhor os mecanismos dessa associação, mas o estudo reforça a importância de olhar para a saúde metabólica dessas mulheres de forma individualizada”, explica Dra. Maira Brandão, endocrinologista do Grupo Santa Joana.  

O resultado não significa que a endometriose provoque diabetes nem que toda mulher com a doença tenha alto risco de desenvolver a condição. O próprio estudo ressalta a possibilidade de fatores de confusão residuais e viés de detecção, além da necessidade de novas pesquisas para esclarecer os mecanismos envolvidos. 

 

Uma possível conexão entre inflamação e metabolismo  

A endometriose é uma condição inflamatória e envolve alterações imunológicas e hormonais. É justamente essa característica que levanta uma das hipóteses para explicar a associação encontrada no estudo. Processos inflamatórios persistentes podem influenciar diferentes vias metabólicas, mas ainda não está estabelecido se essa é a explicação direta para o aumento observado no risco de diabetes.  

“Não podemos dizer que uma doença causa a outra a partir desses dados. O que o trabalho mostra é uma associação robusta que merece ser investigada. A inflamação crônica é uma das hipóteses, mas existem provavelmente outros fatores envolvidos e ainda precisamos de mais evidências para compreender essa relação”, ressalta Dra. Maira.  

O estudo também mostrou que o risco não se comportou da mesma maneira em todas as mulheres. A associação entre endometriose e diabetes foi mais forte entre aquelas que ainda não haviam chegado à menopausa: nesse grupo, o risco de diabetes tipo 2 foi 55% maior entre as mulheres com endometriose. Entre as mulheres pós-menopáusicas, a associação foi muito mais fraca.  

Os pesquisadores também identificaram que a localização da endometriose tinha impacto sobre o risco de diabetes. Mulheres que tinham endometriose superficial apresentaram risco de 67% de desenvolver diabetes tipo 2, enquanto a endometriose ovariana esteve associada a aumento de 61% e a endometriose profunda a 45%.  

Outra surpresa foi o fato de que, no grupo das mulheres com endometriose, aquelas com histórico de diabetes gestacional não tiveram uma maior associação com o risco de desenvolver diabetes tipo 2.  

Os pesquisadores sugerem que, pelo fato de a associação entre a endometriose e o diabetes ocorrer de forma independente da menopausa, do histórico de diabetes gestacional e da obesidade, exista um papel mais importante do processo inflamatório crônico gerado pela endometriose, que parece agir por mecanismos diferentes da resistência insulínica tradicional para causar o diabetes.  

Para a endocrinologista, o principal impacto do estudo não é transformar a endometriose em um marcador automático de diabetes, mas incentivar uma avaliação mais ampla da paciente.  

“O estudo pode servir de incentivo para que mulheres com endometriose passem a ser investigadas e avaliadas em relação ao metabolismo glicêmico com mais cuidado. O acompanhamento deve considerar também outros fatores, como histórico familiar, pressão arterial, alimentação, atividade física, alterações prévias de glicemia e histórico de diabetes gestacional”, explica a médica. 

 

O que muda para quem tem endometriose?  

Na prática, o estudo abre espaço para uma abordagem mais integrada da saúde feminina. Mulheres com endometriose já costumam ter acompanhamento ginecológico regular por causa dos sintomas, da evolução da doença e, em alguns casos, de questões relacionadas à fertilidade. Essa rotina pode ser uma oportunidade para identificar outros fatores de risco que poderiam passar despercebidos.  

A avaliação é especialmente importante porque o diabetes tipo 2 pode permanecer assintomático por bastante tempo. Alterações de glicemia podem existir antes do aparecimento de sintomas perceptíveis, e a identificação precoce permite adotar estratégias de prevenção e tratamento. 

“Precisamos evitar dois extremos: ignorar o resultado do estudo ou transformá-lo em motivo de alarde. O mais adequado é entender que ele traz uma nova pergunta para a medicina. Se existe uma associação entre endometriose e diabetes, precisamos descobrir quais os mecanismos envolvidos e se uma abordagem preventiva mais precoce pode fazer diferença”, afirma Dra. Maira.  

Por enquanto, a mensagem para as mulheres com endometriose é de atenção, não de preocupação. Manter consultas regulares, conhecer os próprios fatores de risco e conversar com o médico sobre a necessidade de acompanhamento metabólico são medidas que fazem parte de um cuidado integral.  

A principal contribuição da pesquisa está justamente em ampliar essa conversa: a endometriose pode exigir um olhar que vá além da dor, da menstruação e da fertilidade. E compreender como uma doença ginecológica pode se relacionar com a saúde metabólica pode abrir novos caminhos para prevenção, diagnóstico precoce e cuidado personalizado da mulher. 



Grupo Santa Joana
www.santajoana.com.br
www.promatre.com.br
www.maternidadesantamaria.com.br Link

 

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