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| Criança participa do plantio de uma árvore, experiência que amplia o contato com a terra e a compreensão sobre o cuidado com a natureza. Divulgação |
Quintais
com árvores frutíferas, brincadeiras na terra e alimentos colhidos diretamente
do pé já não fazem parte da rotina de muitas crianças. Em cidades tomadas por
prédios, asfalto e espaços fechados, a convivência com a natureza tornou-se
menos frequente.
O
Dia da Árvore, celebrado em 21 de setembro, abre espaço para uma discussão que
vai além da preservação ambiental: como aproximar as novas gerações da terra e
ajudá-las a compreender de onde vêm os alimentos consumidos todos os dias?
O
debate ganhou força neste mês, após a aprovação, pelo Congresso Nacional, do
Projeto de Lei nº 2.225/2024. A proposta estabelece diretrizes para garantir a
crianças e adolescentes o acesso a áreas naturais saudáveis, brincadeiras ao ar
livre e práticas educativas ligadas ao meio ambiente.
Aprovado
pelo Senado em 2 de setembro, o texto seguiu para sanção presidencial. Entre
outros pontos, a proposta reconhece o brincar em contato com a natureza e a
educação baseada no meio ambiente como direitos importantes para o
desenvolvimento infantil.
Dados
do levantamento Retrato da Educação Infantil no Brasil 2025, divulgado pelo
Ministério da Educação, ajudam a dimensionar o desafio. Apenas 17% das creches
e pré-escolas públicas do país reúnem todos os itens de infraestrutura
considerados básicos.
Entre
os elementos avaliados estão parque infantil, área verde, brinquedos
pedagógicos e materiais artísticos. O resultado reforça a necessidade de
garantir espaços adequados para brincar, aprender e conviver com a natureza
desde os primeiros anos de vida.
O quintal que virou
literatura
Foi
no quintal cultivado pela avó, Dona Rosa, que a escritora Carolina Mendonça
construiu algumas de suas principais memórias de infância. Árvores, frutas,
sabores e histórias familiares formaram um repertório que, anos mais tarde,
reapareceria em sua estreia na literatura infantil.
Lançado
no fim de agosto, em Ribeirão Preto, “Pé de Quê?” nasceu dessas lembranças e da
relação dos filhos da autora, Catarina e Luiz Albino Neto, com a terra. A obra
reúne amizade, afetos e descobertas em uma narrativa sobre o que existe antes
de o alimento chegar à mesa.
Com
ilustrações de Nathália Pinheiro e direção artística da própria escritora, o
livro mostra que um fruto não começa na prateleira do supermercado. Antes de
ser colhido, há uma planta, um ciclo de desenvolvimento e o trabalho de quem
cultiva e acompanha esse processo.
A
percepção de que muitas crianças conhecem frutas e outros produtos somente
quando já estão embalados ou expostos nos pontos de venda ajudou a orientar o
projeto. Em vez de explicações técnicas, Carolina recorre a personagens,
imagens e lembranças familiares para aproximar os leitores desse universo.
“‘Pé
de Quê?’ nasceu das lembranças do quintal da minha avó, Dona Rosa, onde aprendi
a observar as árvores, os frutos e o tempo da natureza. Anos depois,
acompanhando meus filhos, percebi que muitas crianças conhecem os alimentos
somente quando eles já estão nas prateleiras”, afirma Carolina.
“O
livro surgiu dessa inquietação e da vontade de aproximá-las da terra por meio
de uma história leve, afetiva e capaz de despertar perguntas”, completa a
escritora.
Natureza também se descobre
pela imaginação
A
literatura não substitui a experiência de subir em uma árvore, tocar a terra ou
acompanhar o crescimento de uma planta. Pode, no entanto, abrir uma primeira
passagem para esse universo, sobretudo entre quem vive em áreas urbanas e
encontra menos oportunidades de frequentar espaços verdes.
Ao
levar árvores, quintais, animais e frutos para as páginas, os livros infantis
ampliam o repertório e despertam o interesse pelos ciclos naturais. A leitura
também pode inspirar experiências fora das histórias, como cultivar uma pequena
horta ou observar as árvores do bairro.
Educação ambiental começa no
cotidiano
A
educação ambiental ganha sentido quando faz parte da rotina e não aparece
somente em datas comemorativas. Observar uma árvore ao longo das estações,
acompanhar a germinação de uma semente e reconhecer frutas em diferentes fases
são práticas que ajudam a compreender os ciclos da terra.
Essa
aproximação não depende de um grande quintal. Vasos, hortas escolares, visitas
a parques, passeios por feiras e conversas sobre o que chega à mesa já oferecem
pontos de partida para unir curiosidade, cuidado e responsabilidade com o
ambiente.
Famílias
e escolas exercem papéis complementares nesse processo. Ao incorporar essas
experiências ao cotidiano, podem criar oportunidades para que meninos e meninas
desenvolvam vínculos com a natureza e entendam a relação entre a terra, os
alimentos e a própria vida.
O
Dia da Árvore convida, portanto, a uma reflexão mais ampla. Reaproximar a
infância da natureza não significa apenas ensinar a preservar árvores, mas
permitir que as crianças compreendam de onde vem o que consomem e reconheçam o
ambiente como parte de sua história.
Carolina Mendonça - nasceu em
São Paulo e encontrou no interior paulista uma nova forma de se relacionar com
a terra e com a origem dos alimentos. Inspirada pelas experiências com os
filhos e pelas memórias do quintal cultivado pela avó, Dona Rosa, passou a
desenvolver projetos literários voltados à infância. Paralelamente, atua como
art advisor, representa artistas de Ribeirão Preto, escreve para a revista Ipê
News e desenvolve projetos culturais ligados às artes visuais.

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