segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Em São Paulo, quase 8 em cada 10 pacientes com câncer de pulmão chegam ao diagnóstico em estágio avançado

 Pesquisa analisou mais de 16 mil casos no Estado de São Paulo e mostra como diagnóstico tardio, desigualdade socioeconômica e acesso a exames impactam a sobrevida

 

Quando o câncer de pulmão é descoberto em estágio avançado, a perspectiva do tratamento muda. Em muitos casos, a possibilidade de cura dá lugar a estratégias para controlar a doença, estabilizar o quadro e prolongar a vida do paciente. Um estudo com participação do Hospital Alemão Oswaldo Cruz aponta que essa ainda é a realidade de grande parte dos pacientes: 79% dos casos analisados foram diagnosticados em estágios III ou IV da doença. 

Publicado no Journal of Thoracic Disease em julho, o estudo avaliou 16.038 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células atendidos no sistema público de saúde no Estado de São Paulo. Foram incluídos casos diagnosticados entre janeiro de 2000 e dezembro de 2016, com acompanhamento até dezembro de 2022. A pesquisa analisou fatores clínicos e socioeconômicos associados à sobrevida, como estágio da doença no momento do diagnóstico, idade, sexo, Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e disponibilidade de exames de imagem. 

Do total analisado, 49,8% dos pacientes estavam em estágio IV e 29,1% em estágio III no momento do diagnóstico. Apenas 11,6% foram diagnosticados em estágio I e 6,8% em estágio II. 

“O principal ponto do estudo é mostrar que o diagnóstico tardio ainda é uma das grandes barreiras no câncer de pulmão. Quando o paciente chega em estágio avançado, o tratamento muda de perspectiva: deixa de ser uma estratégia com maior chance de erradicar a doença e passa a ser, em muitos casos, uma tentativa de controle da doença pelo maior tempo possível”, explica o Dr. Fernando Conrado Abrão, cirurgião torácico do Centro Especializado em Oncologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e coordenador do estudo. 

A diferença entre os estágios também aparece nos desfechos. Em comparação com pacientes diagnosticados em estágio I, aqueles em estágio III tiveram risco de morte por câncer cerca de quatro vezes maior. No estágio IV, esse risco foi mais de seis vezes maior. 

“A grande questão é que gostaríamos de inverter esse número. O ideal seria que a maioria dos pacientes chegasse ao diagnóstico em estágios iniciais (I e II) , quando ainda conseguimos falar com mais força em chance de cura. Hoje, o que vemos é o contrário: muitos chegam tarde, quando o tratamento já se torna mais complexo”, afirma Abrão.

 

Desigualdade também pesa na jornada do paciente 

Além do estágio da doença, o levantamento observou associação entre condições socioeconômicas e desfechos dos pacientes. No modelo de mortalidade específica por câncer, cada aumento de 0,1 ponto no IDH foi associado a uma redução de 7% no risco de morte pela doença. 

Para o autor, o dado reforça que a sobrevida no câncer de pulmão não depende apenas das características do tumor ou do tratamento em si. Ela também pode ser influenciada por fatores como acesso a serviços especializados, exames diagnósticos, estrutura de saúde e tempo até o início do cuidado adequado. 

“Quando falamos de desigualdade no câncer, não estamos tratando apenas de acesso ao medicamento. O paciente precisa chegar ao serviço de saúde, realizar exames, confirmar o diagnóstico, fazer o estadiamento correto da doença e iniciar o tratamento em tempo adequado. Cada etapa dessa jornada pode representar uma barreira”, diz o médico.

 

Acesso a exames pode atrasar definição do tratamento 

Entre os exames importantes para definir a conduta está o PET-CT, usado para avaliar a extensão do tumor antes do início do tratamento. O exame combina duas tecnologias: medicina nuclear (PET), que ajuda a identificar áreas de maior atividade metabólica no corpo, e a tomografia computadorizada (CT), que mostra imagens detalhadas da anatomia. Na prática, ele permite investigar se o tumor está restrito ao pulmão ou se já há sinais de metástase em outros órgãos. 

“A tomografia avalia o pulmão e a relação do tumor com as estruturas ao redor. Já o PET-CT permite olhar praticamente o corpo inteiro, com exceção do cérebro, e identificar se há metástases. Isso muda completamente a estratégia de tratamento. Se a doença está localizada, o paciente pode ser candidato à cirurgia. Se já há metástase, o tratamento passa a ter outro objetivo”, explica Abrão. 

O estudo mostra que mais da metade dos pacientes (53,8%) vivia em regiões com menos de 10 aparelhos de PET-CT. Enquanto quase 45% também estavam em locais com menor oferta de PET-CT e tomografia. Depois do diagnóstico, o tratamento começou, em geral, após 34 dias; em parte dos casos, esse intervalo ficou entre 12 e 67 dias. 

“Nem todos os serviços têm PET-CT disponível. Muitas vezes, o paciente fica aguardando o exame e o tempo vai passando. E essa é apenas uma etapa da jornada: depois, ainda é preciso passar com o especialista, definir conduta, aguardar cirurgia ou iniciar tratamento oncológico. Cada atraso pode impactar o desfecho”, afirma.

 

Estudo reforça necessidade de diagnóstico mais precoce 

O câncer de pulmão é um dos tumores mais associados à mortalidade no mundo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 35.380 novos casos de câncer de traqueia, brônquios e pulmão por ano no triênio 2026–2028. No Estado de São Paulo, onde foi realizado o estudo, são estimados 8.570 novos casos em 2026. Apesar dos avanços em cirurgia, imunoterapia, terapias-alvo e outras modalidades de tratamento, o diagnóstico precoce continua sendo um dos principais desafios para melhorar os resultados. 

A complexidade do cuidado também exige integração entre diferentes áreas, como cirurgia torácica, oncologia, radiologia, patologia e medicina nuclear. Em instituições de alta complexidade, essa articulação é importante para definir o estágio da doença, discutir a melhor estratégia terapêutica e conduzir casos que exigem avaliação multidisciplinar. 

No caso do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a participação em estudos como esse, pelo seu Centro Internacional de Pesquisa, também destaca a contribuição do corpo clínico para a produção científica e para a discussão sobre barreiras de acesso no cuidado oncológico. 

Os achados do estudo, segundo Dr. Fernando Abrão, reforçam a necessidade de ampliar o acesso a exames, serviços especializados e estratégias de detecção precoce, especialmente em regiões com menor infraestrutura de saúde. O estudo também aponta que investimentos direcionados em tecnologia diagnóstica e centros oncológicos podem ajudar a reduzir desigualdades e atrasos no cuidado. 

“Estudos como esse ajudam a mostrar onde estão as barreiras e podem apoiar gestores na tomada de decisão. Quando conseguimos mensurar desigualdades de acesso e seu impacto na sobrevida, damos um passo importante para pensar em políticas públicas e estratégias de cuidado mais efetivas”, conclui Abrão.

  

Hospital Alemão Oswaldo Cruz


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