terça-feira, 15 de setembro de 2026

Diamantes naturais x sintéticos: novas regras impõem sinalização explícita da origem da pedra

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As novas diretrizes apresentadas no congresso centenário da CIBJO forçam também uma diferenciação no status e valor do diamante; gemóloga Giselly Assis explica como mudanças podem impactar consumidores e o setor de joias. 

 

A diferença entre os diamantes naturais e os produzidos em laboratório ganhou novas definições após a realização do Congresso Centenário da CIBJO, em Vicenza, na Itália. Realizado entre 4 e 7 de setembro, paralelamente à Vicenzaoro, um dos principais eventos internacionais da indústria de joias, o encontro reuniu representantes do setor para discutir questões que vêm transformando o mercado, como nomenclatura, certificação, rastreabilidade, sustentabilidade e a relação entre diamantes naturais e sintéticos. 

Entre as decisões que saíram do congresso está a recomendação de que o termo “synthetic” seja adotado pela CIBJO como descritor técnico para produtos criados que tenham a mesma composição química, propriedades físicas e estrutura de seus equivalentes naturais. A entidade também reconheceu que expressões como “laboratory-grown” e “laboratory-created” continuam sendo utilizadas como termos comerciais em determinados mercados.  

Para a gemóloga Giselly Assis, a discussão mostra que a origem da pedra passou definitivamente a fazer parte da conversa sobre valor no mercado de joias. “Nos últimos anos, os diamantes produzidos em laboratório cresceram muito e passaram a ocupar um espaço importante no mercado. Agora vemos as principais entidades discutindo justamente como essas categorias devem ser identificadas e comunicadas. Isso mostra que não estamos falando apenas de uma diferença comercial, mas de uma mudança que exige mais clareza para o consumidor”, afirma.

 

Um mercado dividido entre natural e sintético

Durante o congresso, o Comitê de Diamantes Produzidos em Laboratório da CIBJO apresentou um dado que ajuda a dimensionar essa transformação: mais da metade dos anéis de noivado comercializados em volume nos Estados Unidos já utiliza diamantes produzidos em laboratório. Ao mesmo tempo, a entidade destacou que a queda dos preços dessas pedras vem pressionando o mercado de diamantes naturais. 

A redução dos preços dos sintéticos tem ampliado a distância entre as duas categorias. Enquanto o diamante produzido em laboratório ganhou espaço como alternativa para consumidores interessados em pedras maiores por valores mais acessíveis, o natural passou a ser cada vez mais associado a atributos como raridade, origem e formação geológica. 

“Existe uma diferença importante entre comparar apenas tamanho e aparência e analisar o que existe por trás de uma pedra. O diamante de laboratório possui as mesmas propriedades físicas e químicas do natural, por isso não é uma imitação. Mas a origem é completamente diferente. Um é produzido por tecnologia e o outro foi formado naturalmente ao longo de milhões de anos”, explica Giselly. 

A própria CIBJO discutiu durante o encontro a necessidade de separar os critérios de avaliação utilizados para os diferentes tipos de diamantes. Em relatório divulgado antes do congresso, a Comissão de Diamantes da entidade defendeu que o sistema dos 4Cs — cor, pureza, lapidação e quilatagem — seja restrito à classificação de diamantes naturais, por ter sido desenvolvido para comunicar a raridade e a singularidade dessas pedras.

 

Valor passa a envolver origem e informação

Para a gemóloga, a discussão sobre nomenclatura acompanha uma transformação no comportamento de quem compra joias. Com o aumento da oferta de diamantes maiores produzidos em laboratório, o consumidor passou a ter mais opções, mas também precisa lidar com uma quantidade maior de informações no momento da escolha. 

“Hoje não basta olhar para o tamanho de uma pedra. O consumidor precisa saber se está diante de um diamante natural ou sintético, qual é a certificação, qual é a origem e como aquela informação foi obtida. A transparência passa a ser uma parte importante do próprio valor da joia”, afirma. 

O movimento também reforça o papel dos laboratórios gemológicos. Antes do congresso, a Comissão de Gemologia da CIBJO já havia destacado a necessidade de harmonizar boas práticas, requisitos técnicos e protocolos de análise para preservar a confiabilidade dos laudos. Durante o encontro, outro debate ganhou espaço: a utilização de inteligência artificial em processos de identificação e avaliação de gemas. 

Para Giselly, a tecnologia tende a fazer parte cada vez mais do trabalho gemológico, mas não elimina a necessidade de conhecimento especializado. “A tecnologia pode ajudar muito na identificação e na análise, mas o mercado precisa saber como essas ferramentas são utilizadas e quais critérios estão por trás dos resultados. Quanto mais tecnologia entra no processo, maior também precisa ser a preocupação com controle, verificação e transparência”, avalia.

 

O futuro dos diamantes naturais

Enquanto os sintéticos avançam em volume, o congresso também discutiu os efeitos da redução da oferta de diamantes brutos sobre o mercado natural.  Na avaliação de Giselly, a tendência não é necessariamente que uma categoria elimine a outra, mas que os dois produtos ocupem espaços cada vez mais distintos dentro do mercado. 

“Os diamantes sintéticos vieram para ficar e representam uma escolha legítima para muitos consumidores. Ao mesmo tempo, o natural tem atributos que não podem ser reproduzidos, como a formação geológica, a raridade e a própria história daquela pedra. O mercado está aprendendo a comunicar essas diferenças de uma maneira mais clara”, afirma. 

O debate deve continuar em 2027. A próxima edição da Vicenzaoro já está marcada para 15 a 19 de janeiro, novamente em Vicenza, mantendo o evento como um dos principais pontos de encontro da cadeia internacional de joias, gemas e relógios. Para Giselly, a tendência é que as discussões iniciadas no congresso centenário avancem para temas cada vez mais ligados à informação e à confiança do consumidor. 

 

 

Giselly Assis - gemóloga, joalheira profissional e fundadora da Make a Wish Jewel. Bacharel em Gemologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, possui a titulação AJP — Accredited Jewelry Professional — pelo Gemological Institute of America, o GIA, uma das instituições mais reconhecidas do setor joalheiro no mundo. Tem 10 anos de experiência em Gemologia e seis anos de atuação no segmento de alta joalheria, com especialidade em identificação, certificação e avaliação de gemas e joias. Também possui expertise na avaliação de esmeraldas brasileiras e já ministrou workshops e treinamentos para profissionais do setor joalheiro.


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