A mudança para os Estados Unidos tem impacto positivo na vida dos empreendedores brasileiros, mas a experiência de construir uma empresa em um novo país também exige adaptação. É o que mostra um levantamento da Endeavor, rede global de apoio a empreendedores de alto impacto, em parceria com a Jumpstart, que intermedia os vistos e green cards para founders internacionais. Entre cerca de 60 brasileiros entrevistados, a mudança recebeu nota média de 4,2 em uma escala de 1 a 5 para o impacto na vida pessoal.
O resultado aparece também na distribuição das respostas. Oito em
cada dez empreendedores deram notas 4 ou 5 para o impacto da mudança na vida
pessoal, e nenhum avaliou a experiência com a menor nota. Ao mesmo tempo, a
adaptação envolve uma dimensão emocional importante: apenas 28% disseram não
ter sentido um peso emocional significativo durante a realocação. Os dados
mostram, portanto, que uma experiência percebida como positiva pode vir
acompanhada de desafios próprios de quem constrói uma nova vida e um negócio em
outro país.
A construção de uma nova vida nos Estados Unidos envolve também um
período de adaptação. A incerteza relacionada ao visto foi citada por 36% dos
participantes, enquanto saudade do Brasil e pressão financeira apareceram para
28% cada. Nesse cenário, a saúde mental recebeu nota média de 3,8, e 12%
disseram que ela piorou com a mudança.
Os números ajudam a entender uma característica da trajetória de
empreendedores imigrantes: a internacionalização acontece em duas frentes ao
mesmo tempo. De um lado, há a oportunidade de acessar um mercado maior, ampliar
conexões e construir uma empresa em um dos principais ecossistemas de inovação
do mundo. De outro, o fundador precisa estabelecer novas relações
profissionais, adaptar-se culturalmente e reconstruir parte da estrutura
pessoal que tinha no Brasil.
Essa trajetória ganha outra dimensão quando observada sob a ótica
do financiamento. Segundo o estudo Brazil Tech Diaspora in the USA, também
realizado pela Endeavor, empresas fundadas por brasileiros têm presença
relevante nas etapas iniciais do mercado americano, respondendo por 32,9% das
captações em pre-seed e seed e 24,2% em Series A. A participação cai para 14,4%
em Series B e chega a 4,3% em Series C.
A amostra do novo levantamento está concentrada justamente no
início dessa trajetória. Quarenta e três por cento das empresas estão em fase
de MVP ou early stage, enquanto 29% estão em tração ou seed. O cenário reforça
o espaço que os brasileiros já conquistaram nas primeiras etapas do ecossistema
americano e, ao mesmo tempo, coloca em evidência a importância de criar
condições para que esses negócios avancem para fases mais maduras.
Nesse processo, a rede de apoio pode ser tão importante quanto o
capital. A maioria dos empreendedores chega sem uma estrutura pessoal
consolidada e acaba recorrendo principalmente a outros brasileiros que já
passaram pela mesma experiência. É uma rede construída informalmente, que ajuda
a resolver problemas práticos e a acelerar a adaptação de quem está começando
uma nova etapa nos Estados Unidos.
Para Daniella Mello, CMO
da Endeavor Brasil, essa dimensão costuma ficar
fora das conversas sobre internacionalização. "Empreender já é solitário
no Brasil, mas fazer isso em outro país, sem a rede que você levou anos para construir,
pesa ainda mais. Quem já passou por isso sabe que tem responsabilidade de
facilitar o caminho de quem vem depois", afirma.
A própria decisão de mudar também mostra que a internacionalização pode acontecer por diferentes caminhos. Apenas 36% dos entrevistados saíram no prazo que haviam previsto, enquanto 24% sequer pretendiam se mudar inicialmente. MBA, uma oportunidade profissional, um contrato que exigia presença nos Estados Unidos ou uma decisão familiar aparecem entre os gatilhos que aceleram a mudança.
É justamente aí que o visto deixa de ser o fim do processo de imigração e passa a ser apenas o começo de uma nova etapa. "O visto é só a porta de entrada. Quando a papelada sai, começa o que ninguém vê: montar vida, time e reputação ao mesmo tempo, longe de casa", afirma Bianca Junqueira, CRO da Jumpstart.
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