terça-feira, 8 de setembro de 2026

Automedicação com canetas expõe saúde da mulher a riscos silenciosos, alerta médico

Perda de massa muscular, queda de cabelo, alterações no ciclo menstrual e gestações não planejadas estão entre as consequências do uso de análogos de GLP-1 sem acompanhamento profissional 

 

As mulheres dominam a procura pelas canetas emagrecedoras no ambiente online. Levantamento da Serasa Experian sobre o primeiro semestre de 2026 mostra que elas responderam por 602,8 mil pedidos de medicamentos associados ao GLP-1, volume 75,2% maior que o registrado entre os homens, movimentando mais de R$ 1 bilhão em um mercado que cresceu 149,3% no período. 

Parte desse público usa os análogos de GLP-1 sem indicação clínica e sem qualquer supervisão profissional, um cenário que o cirurgião bariátrico César De Fazzio, diretor do ICD (Instituto de Cirurgia Digestiva), em Brasília, vê com preocupação. “Uma parcela grande das mulheres que usam caneta não está tratando a obesidade. Está buscando resultado estético, sem indicação clínica e sem acompanhamento. Quando ela chega a mim, geralmente já é depois que alguma coisa deu errado”, afirma. 

Segundo o médico, o risco mais silencioso desse uso desassistido é a perda de massa muscular, que não aparece na balança. A medicação reduz o apetite, e o primeiro alimento abandonado costuma ser a proteína, que gera maior saciedade. Com a ingestão proteica em queda dentro de um déficit calórico, o organismo passa a consumir o próprio músculo. 

Os dados da literatura dimensionam o problema: nas análises de composição corporal dos estudos com semaglutida, cerca de 40% de todo o peso perdido correspondia a massa magra, proporção que gira em torno de 25% nos estudos com tirzepatida. 

Para o organismo feminino, as consequências tendem a ser mais pesadas, sobretudo na faixa etária que concentra o consumo. Ainda segundo a pesquisa da Serasa Experian, a faixa de 36 a 50 anos lidera em volume, com 481,6 mil pedidos no semestre, seguida pela de 51 a 70 anos, com 336,1 mil e o segundo maior crescimento entre todas as idades, de 229% sobre o ano anterior. 

“A mulher parte com menos massa muscular e menor densidade óssea que o homem e, nessa fase da vida, frequentemente já atravessa a perimenopausa ou a menopausa com queda de estrogênio, o que por si só acelera a perda de músculo e de osso. É exatamente o perfil que menos pode emagrecer rápido e sem suporte nutricional”, explica De Fazzio. 

O músculo também participa da captação de glicose e sustenta o metabolismo basal, por isso sua redução favorece a piora da sensibilidade à insulina e um reganho de peso mais rápido quando o tratamento é interrompido. O consenso publicado em julho na revista The Lancet Diabetes & Endocrinology por três entidades europeias dedicadas à obesidade recomenda, entre outros cuidados, aporte proteico acima de 1,2 grama por quilo de peso ao dia e treino de força estruturado durante o uso dessas medicações. 

Além disso, na fase de perda rápida de peso, o ciclo menstrual pode se tornar irregular temporariamente, quadro que tende a se normalizar com a estabilização. No médio prazo, a melhora da sensibilidade à insulina costuma beneficiar mulheres com condições metabólicas que comprometem a ovulação. Com isso, a fertilidade pode retornar antes mesmo de a menstruação regularizar. “A paciente que tinha dificuldade de engravidar e relaxou na contracepção pode engravidar sem planejar, em um momento inadequado para a gestação”, ressalta o cirurgião. 

A recomendação é interromper o análogo de GLP-1 pelo menos dois meses antes de tentar engravidar, já que não há dados de segurança do uso em gestantes. O médico lembra ainda que estudos de absorção apontaram redução de cerca de 20% nos níveis hormonais do anticoncepcional oral após o início da tirzepatida, motivo pelo qual o fabricante orienta método contraceptivo não oral nas primeiras semanas de uso da caneta ou de aumento de dose. 

Outra queixa frequente entre mulheres que emagrecem rapidamente sem suporte é a queda acentuada de cabelo, o chamado eflúvio telógeno. Como o fio é essencialmente proteína, a carência de nutrientes leva o organismo a desligar os folículos, e a queda costuma aparecer entre dois e três meses após o início da perda acelerada de peso. Ferro, zinco, vitamina B12, ácido fólico e vitamina D estão entre os nutrientes mais envolvidos, e reservas baixas de ferro podem passar despercebidas em exames de rotina. 

A prevenção desses problemas, segundo o médico, passa pelo acompanhamento que a automedicação não possibilita ao paciente: nutricionista monitorando o aporte proteico, médico acompanhando o painel laboratorial, educador físico estruturando o treino de força e psicólogo cuidando da relação com a comida e com a imagem corporal. É uma assistência que o consenso do Lancet reforça como parte integrante do tratamento, não como cuidado adicional.
 

Impacto emocional do reganho é maior para elas 

Quando o tratamento é interrompido, a repercussão da retomada de peso costuma ser mais intensa nas mulheres, observa o médico. “O reganho não é vivido como um evento fisiológico. É vivido como um veredito. A paciente perdeu quinze quilos, ouviu elogio de todo mundo, foi tratada de forma diferente no trabalho, na família, na loja de roupa. Quando o peso volta, ela não sente que um tratamento foi interrompido. Ela sente que ela falhou”, descreve De Fazzio. 

Na visão do cirurgião, essa vulnerabilidade está atrelada à cobrança estética mais dura sobre a mulher, que começa mais cedo e não diminui com a idade. “Ninguém acha que o paciente falhou moralmente quando a pressão sobe depois que ele para o anti-hipertensivo. Com a obesidade, a culpa vai toda para a pessoa, e precisamos mudar isso. O problema não é a paciente, é fazer sozinha um tratamento que requer acompanhamento especializado”, conclui.



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