No Dia Mundial do Alzheimer (21/09),
neurologista alerta para os sinais de esgotamento e reforça a importância de
dividir responsabilidades 
Freepix
O diagnóstico de Alzheimer muda a vida de toda a
família. Além de acompanhar a progressão da doença, familiares e cuidadores
assumem novas responsabilidades e, muitas vezes, precisam conciliar o cuidado
com o trabalho, a família e a vida pessoal. No Dia Mundial do Alzheimer,
celebrado em 21 de setembro, o alerta se estende a quem acompanha o paciente: o
cuidador também precisa de atenção e apoio.
O tema aparece na sexta temporada de Sessão de Terapia, exibida
neste ano pelo Globoplay. Morena, personagem interpretada por Alice Carvalho,
enfrenta a sobrecarga provocada pelo diagnóstico de Alzheimer do pai. Além das
responsabilidades financeiras e emocionais, ela precisa lidar com o impacto da
doença na própria rotina, com sentimentos como culpa e medo e com o dilema de
decidir se deve ou não interná-lo.
A situação retratada na série faz parte da realidade de muitas
famílias. Um levantamento da Federação Brasileira das Associações de Alzheimer
(Febraz), realizado com 109 cuidadores no Brasil, mostrou que 26% dos
entrevistados apresentavam sintomas leves de depressão e ansiedade, 25% tinham
sintomas moderados e outros 25%, sintomas graves. A pesquisa também apontou que
78% mudaram suas atividades profissionais por causa do cuidado, 30% reduziram a
jornada de trabalho e 18% deixaram o emprego.
A sobrecarga física e emocional tende a crescer à medida que a
doença avança e exige mais horas de dedicação. A rotina pode incluir auxílio no
banho, na alimentação, na troca de roupas e em outras atividades cotidianas,
além de supervisão constante. Mudanças de comportamento, dificuldades de
comunicação e perda progressiva de autonomia também podem aumentar as demandas
sobre quem acompanha o paciente.
Doença neurodegenerativa progressiva, o Alzheimer é a forma mais
comum de demência e responde por 60% a 70% dos casos no mundo, segundo a
Organização Mundial da Saúde (OMS). A condição pode comprometer a memória, a
linguagem, a orientação, o raciocínio e a capacidade de realizar atividades
cotidianas. Com isso, a rede de apoio passa gradualmente a assumir novas
funções.
Para o neurologista e coordenador da Neurologia do Vera Cruz
Hospital, em Campinas (SP), Leonardo de Deus, é preciso reconhecer quando o
cuidado começa a ultrapassar os limites de quem assumiu essa responsabilidade.
“O cuidador muitas vezes entra nesse papel por amor e pela necessidade de
ajudar, mas pode acabar deixando a própria vida em segundo plano. Quando isso
acontece por muito tempo, o desgaste físico e emocional pode se acumular. É
importante entender que cuidar de alguém não significa deixar de cuidar de si”,
alerta o especialista.
Exaustão constante, alterações no sono, irritabilidade,
isolamento social, abandono da própria saúde e sentimentos frequentes de culpa,
angústia, tristeza ou desesperança estão entre os principais sinais de
sobrecarga. Essas manifestações não devem ser tratadas como uma consequência
inevitável da rotina de cuidado. “Quando o cuidador deixa de dormir bem, começa
a se irritar com frequência, abandona consultas ou atividades que antes faziam
parte da sua vida e passa a se sentir constantemente culpado ou sem esperança,
é hora de olhar para essa situação com atenção. Esses sinais mostram que aquela
pessoa também precisa de cuidado e, muitas vezes, de ajuda profissional”,
explica Leonardo de Deus.
Os dados da Febraz mostram a dimensão dessa necessidade: entre
os cuidadores entrevistados, 93% apontaram precisar de apoio emocional e 92%,
de ajuda prática no dia a dia. As mulheres representavam 80% da amostra. A
predominância feminina no cuidado também aparece nos dados da OMS. As mulheres
são responsáveis por aproximadamente 70% das horas dedicadas a pessoas que
vivem com demência. Em todo o mundo, familiares e outras pessoas próximas
oferecem, em média, cinco horas diárias de cuidado e supervisão.
Uma das formas de reduzir essa sobrecarga, segundo o
neurologista, é descentralizar o cuidado, distribuindo tarefas entre familiares
e outras pessoas da rede de apoio. “Ninguém consegue, nem deve, carregar o peso
do Alzheimer sozinho. É fundamental descentralizar o cuidado. Isso significa
envolver outros membros da família para dividir tarefas, sejam elas
financeiras, burocráticas ou relacionadas ao acompanhamento direto. Quando
possível, também é importante buscar cuidadores profissionais e grupos de
apoio. Pedir e aceitar ajuda não é sinal de falha, mas de responsabilidade com
a segurança de todos”, pontua o neurologista do Vera Cruz Hospital.
Reservar tempo para o descanso, manter atividades pessoais,
acompanhar a própria saúde e buscar apoio psicológico quando necessário também
devem fazer parte dessa rotina. “O autocuidado não é egoísmo; é uma
necessidade. O cuidador precisa preservar a própria identidade para além desse
papel, ter momentos de descanso e cuidar da saúde física e mental. A lógica é
semelhante à orientação de segurança de um avião: primeiro coloque a máscara de
oxigênio em você para depois conseguir ajudar o outro. Um cuidador adoecido
também terá mais dificuldade para oferecer um cuidado seguro e afetuoso”,
afirma.
Leonardo de Deus reforça que a atenção à saúde do cuidador deve
ser incorporada à estratégia de acompanhamento do paciente. “Quando falamos de
Alzheimer, não podemos olhar apenas para o paciente. Existe uma família que
também precisa ser orientada, acolhida e preparada para as mudanças que podem
acontecer. Cuidar de quem cuida também faz parte do tratamento e contribui para
que esse processo seja mais seguro e saudável para todos”, conclui.
Vera Cruz Hospital
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