Para falar sobre o futuro de um jovem, é necessário falar também
sobre as oportunidades que ele encontrou ao longo do caminho. Nenhuma escolha
começa apenas no momento da inscrição em uma faculdade. Ela é construída desde
os primeiros anos de escola, a partir da qualidade do ensino, do acesso à
cultura, das referências profissionais, do apoio da família e da possibilidade
de dedicar tempo aos estudos.
Nas periferias, esse percurso costuma exigir mais persistência,
pois existem jovens que enfrentam escolas com poucos recursos, longos
deslocamentos, falta de acesso e necessidade de conciliar os estudos com o
trabalho e as responsabilidades em casa. Nada disso reduz sua capacidade ou seu
potencial. Mas são condições que influenciam diretamente as oportunidades que
estarão disponíveis no futuro.
É por isso que a pergunta “faculdade ainda vale a pena?” não pode
ser respondida da mesma forma para todos. Para alguns jovens, fazer ou não uma
graduação é uma decisão tomada entre diferentes possibilidades. Para outros, a
faculdade permanece distante não por falta de interesse ou de talento, mas
porque o caminho até ela ainda é marcado por obstáculos que começam muito antes
do vestibular. E reconhecer essa desigualdade não significa afirmar que a
universidade é o único caminho possível. Então, sim, a faculdade ainda vale a
pena. Mas ela precisa ser uma escolha verdadeira, e não um privilégio reservado
a quem teve mais oportunidades desde a infância. Há trajetórias transformadoras
construídas por meio do ensino técnico, da formação profissionalizante, do
empreendedorismo, da arte, da cultura e dos conhecimentos adquiridos dentro e
fora da escola. O que não podemos aceitar é que a origem de um jovem determine
quais dessas possibilidades estarão ou não ao seu alcance.
Os dados reforçam ainda mais essa distância. Segundo o IBGE, em
2025, o Brasil tinha 46,6 milhões de jovens entre 15 e 29 anos e desse total,
17,5%, o equivalente a 8,2 milhões de pessoas, não trabalhavam, não estudavam
no ensino regular e não frequentavam cursos de qualificação profissional.
Embora o percentual tenha caído em relação a 2019, quando chegava a 22,4%, o
número ainda revela a quantidade de jovens que permanecem afastados de
oportunidades de formação e de inserção profissional.
Esses números não falam sobre a capacidade dos jovens. Falam sobre
as condições oferecidas a cada um deles. Quando a preparação, os recursos e as
oportunidades são diferentes, a liberdade de escolha também é. Por isso, a
educação não deve ser vista apenas como um meio de conquistar um diploma ou
conseguir um emprego. Ela amplia repertórios, aproxima o jovem da ciência, da
arte e da cultura, fortalece sua autonomia e permite que ele reconheça
possibilidades que talvez ainda não soubesse que existiam. Educar é mostrar
caminhos e oferecer ferramentas para cada pessoa poder decidir qual deles
deseja seguir.
Talvez a pergunta não deva ser apenas se a faculdade ainda vale a
pena. A pergunta mais importante é: o que estamos fazendo para que cada jovem
tenha informação, preparação e condições reais de decidir o próprio futuro?
Enquanto houver um jovem cujo futuro é decidido pela falta de oportunidade, e
não pela própria vontade, ainda teremos trabalhos a fazer. A resposta não está
em cobrar escolhas de quem nunca teve todas as opções à mesa. Está em garantir
que cada jovem chegue ao momento de decidir com informação, preparo e caminhos
reais diante de si. Esse é o compromisso que precisa ser de todos nós, pois
como sempre digo: Educar é um ato de amor.
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