Neurocientista explica por que padrões se repetem mesmo quando sabemos que fazem mal
Medo
de rejeição, dificuldade de dizer não, necessidade de controle e relações que
parecem seguir o mesmo roteiro pode estar ligado a estratégias de proteção
aprendidas ao longo da vida
Você sabe que deveria dizer não, mas acaba dizendo sim. Promete não repetir determinado tipo de relacionamento, mas percebe depois que a história parece familiar. Sabe que não precisa controlar tudo, mas não consegue relaxar. Para a neurocientista e analista emocional especialista em traumas Telma Abrahão, esses comportamentos podem estar relacionados ao chamado “mapa do trauma”, formado pelas experiências que influenciam a maneira como o cérebro interpreta situações e busca proteção.
“Muitas pessoas passam anos tentando mudar o comportamento sem compreender o que mantém aquele comportamento funcionando. É como tentar mudar a rota sem conhecer o mapa”, explica Telma.
Segundo a especialista, alguns padrões que hoje geram
sofrimento podem ter começado como estratégias de adaptação. A pessoa que tem
dificuldade de dizer não pode ter aprendido que agradar evitava conflitos. Quem
precisa controlar tudo pode ter associado antecipação à sensação de segurança.
Já quem evita pedir ajuda pode ter aprendido, em algum momento, que depender
dos outros trazia frustração. “O cérebro aprende com as experiências. Uma
estratégia que foi útil em determinado momento pode continuar sendo acionada
mesmo quando o contexto mudou e ela deixou de ser necessária”, afirma.
O presente pode ativar experiências do passado
Uma crítica profissional pode ser sentida como rejeição. Uma mensagem sem resposta pode despertar medo de abandono. Uma conversa difícil pode gerar vontade de fugir. Para Telma, isso acontece porque o cérebro não observa apenas o que está acontecendo, mas também compara a situação atual com experiências anteriores. “Às vezes, a intensidade da reação não pertence apenas ao presente. O presente pode ter ativado uma previsão construída a partir de experiências anteriores”, explica.
A especialista ressalta que nem toda reação emocional é
resultado de trauma e que os comportamentos não podem ser atribuídos
exclusivamente à infância. Ainda assim, compreender experiências anteriores
pode ajudar a identificar a origem de determinados padrões.
Antes do comportamento existe uma sequência
Para entender por que uma pessoa explode, foge, se cala
ou tenta agradar compulsivamente, é preciso observar o que acontece antes da
reação.
Gatilho → interpretação → emoção → resposta do sistema nervoso → estratégia de proteção → comportamento.
“Quando uma pessoa começa a observar essa cadeia, deixa de perguntar apenas ‘por que eu faço isso?’ e passa a investigar ‘o que acontece dentro de mim antes de eu fazer isso?’. Essa segunda pergunta costuma revelar muito mais”, diz Telma.
Essas estratégias podem aparecer de formas diferentes na
vida adulta. A fuga pode virar dificuldade de enfrentar conversas
desconfortáveis. A paralisação pode aparecer como procrastinação. A adaptação
pode se transformar em dificuldade de impor limites. O enfrentamento pode
surgir como necessidade excessiva de controle. “O problema não é ter uma
estratégia de proteção. O problema começa quando ela se torna rígida e passa a
comandar situações em que já não é necessária”, afirma.
“Eu sempre fui assim”
Para Telma, a frase “eu sempre fui assim” também merece
atenção. Algumas características fazem parte da personalidade, mas determinadas
respostas podem ter sido fortalecidas pelas experiências. “Nem tudo que
repetimos é necessariamente quem somos. Algumas coisas são quem aprendemos que
precisávamos ser”, destaca.
Olhar para a infância, entretanto, não significa procurar
culpados.
Conhecer a origem de um padrão não faz com que ele
desapareça automaticamente, mas pode mudar a maneira como a pessoa passa a
lidar com ele. Novas experiências, relações mais seguras e respostas diferentes
diante de situações conhecidas podem ampliar esse repertório. “A mudança não
acontece quando apagamos nossa história. Acontece quando o presente começa a
oferecer ao cérebro experiências suficientemente diferentes para que ele não
precise continuar respondendo como se ainda estivesse no passado".
“O objetivo de compreender a própria história não é viver
olhando para trás. É descobrir quanto do passado ainda está escolhendo pelo
presente”, conclui Telma Abrahão.
Nenhum comentário:
Postar um comentário