quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Rota do Paraguai: o que atrai e o que desafia as empresas brasileiras

Seduzidas por impostos baixos e encargos trabalhistas menores, empresas do setor têxtil buscam competitividade no país vizinho, mas podem enfrentar gargalos logísticos e escassez de mão de obra qualificada

 

Nos últimos 10 anos, o Paraguai vem se consolidando como um destino atrativo para empresas brasileiras que buscam carga tributária reduzida, menor burocracia, mercado de trabalho menos regulado e ambiente de negócios mais previsível. Não sem razão, estima-se que mais de 200 empresas brasileiras escolheram o país vizinho como o destino ideal para seus negócios.  

Paulo Schoueri, vice-presidente do Sindicato da Indústria de Especialidades Têxteis do Estado de São Paulo e conselheiro da Abit, diz que empresas do setor têxtil lideram a travessia da fronteira para terras paraguaias, devido ao uso intensivo de mão de obra, principalmente.

"O Paraguai oferece um ambiente de negócios mais estável para as empresas maiores e com maior segurança jurídica. Em contrapartida, o Brasil possui um ambiente confuso, sem regras duradouras, além de uma alta carga de impostos, agravada pela perspectiva de uma alíquota de 28% (o IVA Dual) com a reforma tributária”, compara.

A jornada de trabalho semanal de 48 horas no Paraguai e a estabilidade econômica do país, ressalta, pesam muito a favor nessa escolha. Grandes marcas brasileiras, como Lupo, Guararapes (Riachuelo) e Buddemeyer, por exemplo, já transferiram parte ou a totalidade de suas produções para lá.


Os gargalos

Embora as vantagens sejam expressivas, o sucesso da migração exige planejamento, estudos aprofundados e a superação de gargalos logísticos e operacionais que nem sempre aparecem nas propagandas de consultorias especializadas em estruturar operações sob a Lei de Maquila.

Edimar Russi, CEO do Grupo Rovitex, compartilha a experiência prática de estar no Paraguai desde 2020 e aponta algumas das dificuldades reais, como a burocracia aduaneira. "As filas de caminhões chegam a atingir 14 quilômetros na ponte, fazendo com que os veículos fiquem até um mês parados. E, como as cargas de roupas não são prioritárias frente às de alimentos e grãos, nosso lead time é afetado”, revela.

LEIA TAMBÉM: Brasileiro veste cada vez mais importados e indústria migra para o Paraguai

Sediada no município de Luiz Alves, em Santa Catarina, a Rovitex é uma companhia do setor têxtil totalmente verticalizada com 40 anos de história, que detém 11 marcas de confecções. O grupo iniciou buscas por terrenos no Paraguai em 2014, mas efetivou a operação somente em 2020, quando alugou as instalações de duas empresas brasileiras que estavam voltando para o Brasil.

Hoje, o grupo possui cerca de 500 funcionários no país vizinho, onde realiza processos de corte e costura em instalações próprias de 15 mil metros quadrados.

Além da burocracia aduaneira, outro ponto de atenção, segundo ele, é a saturação da mão de obra qualificada, exigindo das empresas investimentos em treinamento de novos funcionários. Embora a disponibilidade de trabalhadores tenha diminuído em relação a anos anteriores, o executivo diz que ainda há maior facilidade de contratação e treinamento de jovens no Paraguai na comparação com o Brasil.

O empresário alerta que consultorias de atração de investimentos costumam distorcer alguns dados. Como exemplo, ele cita que já participou de palestras que “vendem” como uma das vantagens de migrar para o país vizinho o fato de as férias no Paraguai serem de 12 dias, mas omitindo que são de dias úteis - na prática, semelhante ao regime brasileiro – e que o período aumenta de acordo com o tempo de serviço. 

Para o empresário, além das vantagens tributárias e trabalhistas encontradas no Paraguai, a busca por competitividade das empresas também é impulsionada por outros fatores peculiares do mercado brasileiro, como a concorrência com as plataformas estrangeiras, o efeito “bet” na retração de vendas e, mais recentemente, o provável fim da chamada “taxa das blusinhas” e eventual fim da escala 6x1.


Opção pelo Brasil

Apesar do forte apelo fiscal, a migração para o Paraguai não é uma solução para todas as companhias. Robson Parzianello, diretor comercial do grupo Posthaus, dono do marketplace de moda brasileira digital e de marcas como Quintess, Marguerite e Bonprix, explica por que a empresa avaliou a mudança para o país vizinho, mas optou por manter 100% de sua produção no Brasil, concentrada no polo têxtil de Santa Catarina.

O modelo de negócios do grupo é baseado em coleções-cápsula rápidas, lançadas em volumes menores e com alta velocidade de teste de mercado. "Para o nosso modelo, a complexidade operacional de estender a produção para outro país não compensava", afirma Robson.

Ele explica que, enquanto o Paraguai é vantajoso para produtos básicos de alto volume e escala, falta ao país vizinho o know-how técnico e a especialização necessários para produtos de maior valor agregado e complexidade de acabamento.

Na sua visão, a análise de custos precisa ir muito além do valor direto de fabricação. “Quando produzimos perto do nosso mercado consumidor, trabalhamos com parceiros estratégicos, com uma rede de pequenas e médias empresas parceiras e fornecedores de insumos com os quais construímos relações de longo prazo. Isso nos permite responder rapidamente às oscilações de demanda, reduzir os prazos de entrega e exercer um controle rigoroso sobre a qualidade do produto”, afirma.

O diretor comercial do grupo também destaca que as primeiras indústrias que chegaram ao Paraguai absorveram a mão de obra qualificada disponível. Hoje, com a disputa acirrada entre empresas do mesmo setor em cidades pequenas, ele também reforça que há escassez de profissionais técnicos especializados.


Os cuidados

De acordo com Ana Sica, advogada do consultivo tributário do Briganti Advogados, o interesse crescente das empresas brasileiras é motivado por um tripé: carga tributária significativamente inferior à do Brasil, menor burocracia e regimes especiais de incentivo à exportação e ao investimento.

Enquanto o Brasil possui um sistema complexo e atualmente passa por uma transição estrutural com a reforma tributária, o Paraguai, explica, oferece uma estrutura simples e previsível. O Imposto sobre a Renda Empresarial (IRE) possui uma alíquota única de 10%, aplicável a pessoas jurídicas independentemente do tipo societário ou atividade. O Imposto sobre o Valor Agregado (IVA) também tem alíquota geral de 10% (com reduções para 5% em casos específicos, como venda e locação de imóveis e medicamentos).

Guilherme Manier, sócio tributarista no Viseu Advogados, confirma que a demanda no escritório por estudos de migração é crescente, com o Paraguai figurando entre as principais opções ao lado de Uruguai e Estados Unidos.

Manier destaca o "abismo" tributário entre os dois países: enquanto uma média ou grande empresa brasileira sob o regime do Lucro Real sofre um impacto de 34% sobre o resultado operacional (somando IRPJ e CSLL), o teto no Paraguai é de 10%.

Além disso, o advogado aponta a diferença nos encargos trabalhistas. No Brasil, o peso de FGTS, férias, décimo terceiro e encargos sociais quase dobra o custo de um colaborador. No Paraguai, esses encargos giram em torno de 35%. Outro grande atrativo é o Regime de Maquila, que permite a importação temporária de insumos com suspensão de tributos e a aplicação de um imposto único de apenas 1% sobre o valor agregado em solo paraguaio para exportação.


Alertas

Os dois advogados consultados pelo Diário do Comércio alertam que as autoridades fiscais do Paraguai estão atentas e não toleram empresas criadas apenas "no papel" para obter vantagens fiscais. É obrigatório que a estrutura no Paraguai possua instalações físicas, funcionários, ativos e capacidade real de tomada de decisões.

Além disso, Manier lembra que as regras de preços de transferência (transfer pricing) seguem as diretrizes da OCDE no Paraguai. Se a filial paraguaia transacionar com a matriz brasileira, os valores serão auditados para garantir que reflitam os preços de mercado.

Outro ponto crucial é a Certificação de Origem do Mercosul: para que o produto entre no Brasil com alíquota zero de Imposto de Importação, é necessário comprovar um conteúdo regional de 40% a 60%. Operações simples, como mera montagem, pintura, embalagem ou aplicação de etiquetas, desqualificam o benefício fiscal.

 

Silvia Pimentel
https://dcomercio.com.br/publicacao/s/rota-do-paraguai-o-que-atrai-e-o-que-desafia-as-empresas-brasileiras



Nenhum comentário:

Postar um comentário