Com base na neurociência, professor da Unesp explica como a emoção pode despertar a curiosidade dos alunos e facilitar o aprendizado das Ciências Exatas
A separação cartesiana entre razão e emoção foi uma
das ilusões mais custosas da história do pensamento. E seu efeito colateral
ainda impacta o ensino brasileiro, alimentando a crença de que a Matemática e
as Ciências Exatas são domínios puramente racionais e frios. Historicamente
compreendidas como o ápice da lógica, essas disciplinas acabaram convertidas em
territórios de intimidação. Mas a neurociência contemporânea e a psicologia do
desenvolvimento apontam para outra direção: emoção e cognição não são processos
isolados.
Como bem demonstrou o psicólogo e filósofo
Henri Wallon, afeto e inteligência são indissociáveis na construção do
conhecimento e da psique. A emoção, portanto, não é um elemento periférico da
aprendizagem, mas parte fundamental de sua própria base. Nas Exatas, o
processamento de abstrações no córtex pré-frontal depende diretamente da
valoração límbica: diante de um problema, a amígdala avalia o contexto antes da
consolidação racional. Se o ambiente evoca ameaça, por exemplo, a resposta de
estresse sequestra a memória de trabalho e inviabiliza o raciocínio. Esse
quadro ganha contornos dramáticos hoje, em meio ao aumento dos transtornos de
ansiedade e depressão entre os jovens. Em mentes emocionalmente fragilizadas, o
erro ressoa como uma confirmação de incapacidade intelectual, gerando esquiva e
bloqueio.
É no resgate do caráter afetivo da cognição,
segundo Wallon, que reside a virada pedagógica: o aprendizado nasce da ação e
da emoção que ela desperta. O antídoto para a paralisia do medo não é o discurso
abstrato, mas o resgate de atividades experimentais simples, de baixo custo e
alta densidade conceitual. A manipulação concreta de fenômenos e a observação
de padrões matemáticos na vida real desarmam a defensiva neurobiológica. Mas o
experimento pelo experimento é insuficiente. Ele precisa vir acompanhado de
perguntas verdadeiramente inquietantes, provocações que desestabilizem certezas
sem ameaçar a identidade do estudante.
O filósofo Baruch Spinoza também dizia que uma
ideia só se impõe sobre a mente quando se transforma ela própria em afeto.
Nesse sentido, uma pergunta bem formulada desloca o eixo emotivo: substitui o
medo que o aluno sente de falhar pelo arrebatamento da curiosidade. O erro,
assim, perde seu peso punitivo e converte-se no motor da heurística, um degrau
natural da investigação. Sob a ótica de Wallon, a emoção deixa de ser o gatilho
da frustração desorganizadora para se tornar o tônico que mobiliza a atenção e
o desejo de saber.
Integrar a emoção ao ensino científico não é uma
concessão romântica, mas um imperativo ético e neurocientífico. Cultivar
ambientes psicologicamente seguros a partir da experimentação investigativa é
uma via concreta para transformar a ansiedade contemporânea dos estudantes em
curiosidade genuína, devolvendo às Ciências o seu poder de fascínio e
emancipação.

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