quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Novo funcionário tem prazo de validade

Você já reparou que em muitas padarias, restaurantes ou bares a equipe muda o tempo todo? O proprietário treina um atendente, um dia ele está no balcão, no outro já não está mais lá. A sensação é que o funcionário tem prazo de validade.

Todo mês visito um cliente em Jacarei para fazer uma sessão de fotos e sempre paramos numa padaria ao lado para tomar café. E, toda vez, a equipe é diferente. Os donos continuam os mesmos, batalhando. Mas os funcionários vão e vêm. A cada três meses, 100% da equipe já mudou.

E a conversa com outros donos de comércio confirma que não é só ali. É um problema geral.

Por que isso está aco

ntecendo?

Acho que a gente precisa olhar pra duas gerações diferentes. Tenho 40 anos, sou da Geração Y. Fui criado com a ideia de que trabalho é prioridade, que carreira é orgulho, que a gente cresce na empresa com o tempo. Aprendi isso com meus pais, que aprenderam com meus avós. E era assim que o mundo funcionava.

Hoje, a nova geração chegou com outros valores: qualidade de vida, lazer e tempo livre. Não que isso seja errado – eu também aprendi a gostar disso. A diferença é que, pra mim, trabalho e vida sempre andaram juntos. Pra eles, parecem ser coisas distintas.

E isso não é só achismo. Pesquisas recentes mostram que a Geração Z fica, em média, 2,8 anos na mesma empresa. No primeiro emprego, esse número cai pra apenas 11 meses.


O que explica isso?

Muitos jovens têm objetivos bem específicos: pagar uma conta, comprar um tênis, juntar dinheiro para viajar no carnaval. Quando o objetivo é cumprido, o trabalho perde o sentido. Eles pedem demissão e partem para o próximo.

Além disso, boa parte ainda mora com os pais e não tem as mesmas despesas de alguém que sustenta uma casa. Não vê a compra de um carro ou imóvel como prioridade, afinal, o Uber resolve o transporte e a casa dos pais ainda é um porto seguro. O trabalho, para eles, é uma transação. Não uma construção de futuro.

Outro fator que muita gente esquece são os reflexos pós-pandemia. Os jovens que hoje têm entre 18 e 22 anos passaram parte da adolescência trancados em casa. Perderam anos de convívio social, de aprendizado prático e de construção de relações profissionais e pessoais. Isso gerou uma geração que, em muitos casos, tem mais dificuldade de lidar com frustrações e com o contato direto com o cliente.


E a solução? Pagar mais?

Não resolve. Já testamos. O problema não é só o dinheiro, é o propósito. Se o jovem não vê sentido no que faz, ele vai embora, mesmo ganhando bem.

Para tentar superar essa situação sugiro algumas ações que podem ajudar os empresários, principalmente do setor de alimentação:

  • Automatizar o que for possível. Painéis, sistemas, reduzir a dependência de mão de obra pra tarefas repetitivas.
  • Contratar com mais critério. Identificar quem realmente busca crescimento na área.
  • Dar espaço para profissionais mais maduros, que buscam recolocação e têm uma visão a longo prazo.
  • Treinar sempre, mesmo sabendo que a rotatividade vai continuar.

O desafio é grande. Não tem resposta fácil. Mas reconhecer que o problema existe – e que não é culpa de ninguém – já é o primeiro passo para se preparar.


E você, já percebeu isso no seu negócio? 


Luiz Fernando Pereira dos Santos - profissional de comunicação digital com mais de 15 anos de experiência. Já atuou como trade marketing em indústrias, trabalhou em agências e hoje é sócio da The Ocean Blue, empresa especializada em marketing e produção de conteúdo. É formado em Administração, com 3 MBAs pela ESPM (Gestão de Mercado, Ciências do Consumo e Marketing Digital) e Master em Marketing – também pela ESPM. Especialista em estratégia, fotografia de alimentos e inteligência de mercado, auxilia padarias, restaurantes e indústrias a se comunicarem melhor e a construírem marcas sólidas.



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