Foodtech alerta para a importância de
estratégias que garantam um destino aos alimentos excedentes
Alcione Pereira, fundadora da Connecting Food
Crédito imagem Luciano Alves
Grandes eventos esportivos concentram milhões de pessoas em um
período curto, provocando picos de consumo e dificultando a precisão sob a
demanda por alimentos. De acordo com uma projeção publicada no blog da Repax,
empresa dinamarquesa que desenvolve softwares voltados à gestão de dados sobre
resíduos, a Copa do Mundo de 2026 pode ter gerado cerca de 10,6 mil toneladas
de resíduos em estádios e festivais de torcedores. A empresa calcula ainda que
alimentos e materiais orgânicos correspondem a cerca de 40% da composição
típica dos resíduos produzidos nesses ambientes. Embora os números não
representem uma auditoria oficial do torneio, eles evidenciam a necessidade de
planejar antecipadamente compras, cardápios, porções, armazenamento e
destinação dos excedentes.
A Connecting Food,
foodtech especializada em inteligência de
redistribuição de alimentos, acompanha de perto esse cenário. A startup nasceu
para ajudar empresas a reduzir o desperdício de alimentos, conectando quem tem
excedente — indústrias, redes de varejo, distribuidores — a organizações
sociais que podem usar esse alimento antes que ele estrague. Em períodos de
grande movimentação, como festivais, eventos corporativos, feiras e competições
esportivas, quando a demanda oscila rapidamente e o planejamento se torna mais
complexo, esse trabalho ganha ainda mais relevância.
Para Alcione Pereira, fundadora da Connecting Food, esses grandes
eventos apenas evidenciam um problema estrutural da cadeia de alimentos.
“Quando o consumo não acontece como o esperado, surgem excedentes que, muitas
vezes, ainda estão próprios para consumo, mas acabam sendo descartados por
falta de uma operação ágil para redirecioná-los. Os grandes eventos não criam
esse problema, apenas tornam mais visível uma realidade que acontece
diariamente em toda a cadeia de alimentos”, explica.
No México, por exemplo, o aumento do desperdício de alimentos foi
apontado como um dos possíveis impactos da competição. De acordo com a Mexico
Business News, com base em projeções da plataforma de resgate de alimentos
Cheaf, o volume desperdiçado no país poderia crescer até 50% durante o torneio.
Além do maior movimento em restaurantes, hotéis, supermercados e serviços de
alimentação, eventos dessa escala podem estimular a produção acima da demanda
real. Para evitar esse cenário, estabelecimentos podem acompanhar estoques e
vendas em tempo real, ajustar diariamente a quantidade produzida e estabelecer
previamente parcerias para a redistribuição segura dos excedentes.
Outra iniciativa desenvolvida no contexto do mundial foi a
campanha Leftover Lineup, criada pela organização ambiental WRAP, por
meio do programa Love Food Hate Waste. Inspirada nas culturas
alimentares dos países-sede — Canadá, Estados Unidos e México —, a campanha
reuniu receitas, dicas e materiais educativos para incentivar torcedores a
reaproveitar sobras e transformá-las em novas refeições durante encontros para assistir
aos jogos. A ação mostra como o alcance do futebol pode ser utilizado para
promover mudanças de comportamento também dentro das residências, onde o
aumento das compras e do preparo de alimentos em dias de partidas costuma
elevar o risco de desperdício.
Nas cidades-sede, diferentes iniciativas também buscaram reduzir o
impacto ambiental do evento. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio
Ambiente (PNUMA), Toronto implantou um sistema de separação de resíduos em três
categorias, ampliou o uso de utensílios reutilizáveis em áreas dos festivais de
torcedores e estruturou programas para direcionar alimentos excedentes a
organizações comunitárias. Já Seattle reforçou ações de reciclagem, compostagem
e redução do envio de resíduos para aterros, enquanto a Cidade do México
integrou suas iniciativas à política local de economia circular e à campanha Gol
por el Ambiente, voltada à reciclagem, à mobilização de voluntários e à
redução de plásticos de uso único. Em comum, essas experiências demonstram que
combater o desperdício exige planejamento, infraestrutura adequada, engajamento
da população e estratégias bem definidas para dar o destino correto aos
excedentes.
Para Alcione, acompanhar experiências internacionais é uma forma de identificar soluções que possam ser adaptadas a diferentes realidades. "Quando grandes eventos incorporam a prevenção do desperdício em seu planejamento, eles deixam um legado que vai além da competição. Essas iniciativas ajudam a conscientizar consumidores, empresas e gestores públicos de que os alimentos próprios para consumo devem ter como prioridade o consumo humano e, quando isso não for possível, a redistribuição, antes de qualquer outra destinação", afirma.
Connecting Food
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