Todos os anos, a chegada do inverno vem acompanhada
de uma percepção quase automática: basta a temperatura cair para surgirem
tosses, espirros e congestionamentos. Em 2026, no entanto, o cenário ganhou uma
dimensão maior. Dados do Instituto Todos pela Saúde mostram que os casos de
Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada por influenza quase dobraram
no país no primeiro trimestre do ano, passando de 1.838 registros em 2025 para
3.584 no mesmo período deste ano.
O aumento não é resultado de um único fator. O frio
altera mecanismos naturais de defesa do organismo, favorece a circulação de
vírus e modifica hábitos da população, que passa mais tempo em ambientes
fechados e pouco ventilados.
Para ajudar a separar fatos de crenças populares,
Dra. Claudia Friedrich, médica radiologista especialista em imagem abdominal e
torácica da Fundação Instituto de Diagnóstico por Imagem - FIDI, explica alguns
mitos e verdades sobre o assunto.
Mito: o frio, sozinho, causa gripe
Não exatamente. A gripe é causada por vírus, e não
pela baixa temperatura. O que acontece é que o inverno cria condições
favoráveis para a transmissão desses agentes infecciosos.
Pesquisas publicadas no Journal of Allergy and
Clinical Immunology indicam que a queda da temperatura na cavidade
nasal reduz a capacidade de defesa local do organismo. O resfriamento da mucosa
diminui a liberação de vesículas extracelulares, estruturas produzidas pelas
células do nariz que ajudam a capturar e neutralizar vírus antes que eles
invadam o organismo. Além disso, o ar frio e seco compromete o funcionamento
dos cílios respiratórios, responsáveis por remover partículas, secreções e microrganismos
das vias aéreas. Há ainda um fator comportamental importante: as pessoas passam
mais tempo em ambientes fechados, com menor circulação de ar, o que facilita a
transmissão viral.
Verdade: pessoas com doenças respiratórias sofrem mais no inverno
Sim. Pacientes com asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), bronquite e fibrose pulmonar costumam apresentar maior sensibilidade às mudanças de temperatura. O ar frio pode desencadear irritação das vias aéreas e agravar sintomas como falta de ar, chiado e tosse persistente. Em muitos casos, infecções virais também funcionam como gatilho para crises respiratórias.
Mito: só idosos precisam se preocupar
Não. Embora os idosos estejam entre os grupos mais
vulneráveis, crianças pequenas, gestantes, imunossuprimidos e pessoas com
doenças crônicas também apresentam maior risco de complicações.
A pandemia também deixou um legado nos consultórios
e serviços de diagnóstico, como o aumento da procura por exames destinados à
investigação de sintomas respiratórios persistentes e possíveis sequelas
pulmonares após infecções virais. O movimento reflete uma maior conscientização
da população sobre a importância do acompanhamento da saúde pulmonar.
Verdade: abrir as janelas ajuda a prevenir infecções
Sim. Mesmo nos dias mais frios, manter ambientes
ventilados continua sendo uma das medidas mais eficazes para reduzir a
concentração de vírus no ar. A circulação diminui a exposição a partículas
respiratórias potencialmente contaminadas e reduz o risco de transmissão,
especialmente em escritórios, escolas, transporte coletivo e residências com
muitas pessoas.
Mito: exames de imagem só são necessários em casos graves
Não necessariamente. Radiografias e tomografias não
são indicadas para qualquer resfriado ou quadro gripal simples. No entanto,
eles desempenham papel importante quando os sintomas persistem, quando existe
suspeita de complicações ou quando o paciente pertence a grupos de risco.
Os exames de imagem deixaram de atuar apenas na
confirmação de doenças e passaram a integrar decisões clínicas desde os
primeiros sinais de alteração pulmonar. Atualmente, a tomografia
computadorizada de alta resolução é uma das principais ferramentas para
investigar doenças pulmonares.
Verdade: sintomas que duram semanas merecem atenção
Sim. Tosse persistente, cansaço, chiado no peito e
falta de ar costumam ser atribuídos a gripes mal curadas ou aos efeitos do
clima seco. Mas, quando permanecem por mais de três semanas, merecem avaliação
médica. Isso porque os mesmos sintomas podem estar associados a condições muito
diferentes, desde infecções prolongadas até doenças inflamatórias, fibroses
pulmonares e tumores em estágio inicial.
O que realmente ajuda a
proteger os pulmões no inverno?
A lista continua relativamente simples:
- Manter
a vacinação em dia;
- Evitar
ambientes fechados e sem ventilação por longos períodos;
- Higienizar
as mãos com frequência;
- Hidratar-se
adequadamente;
- Controlar
doenças respiratórias já diagnosticadas;
- Procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes.
Em um contexto de aumento das doenças respiratórias
e envelhecimento da população, identificar problemas precocemente pode
significar tratamentos mais simples, menos complicações e melhor qualidade de
vida.
Dra. Claudia Friedrich
Médica radiologista especialista em imagem
abdominal e torácica, com mais de 13 anos de experiência em diagnóstico por
imagem. Formada em Medicina em 2003, realizou residência em Cirurgia Geral
entre 2005 e 2007 e residência em Radiologia entre 2008 e 2011, além de
fellowship em imagem abdominal e torácica em 2012. Atualmente, atua como médica
assistente em hospital estadual de São Paulo e integra o corpo clínico da FIDI.
FIDI - Fundação privada sem fins lucrativos que reinveste
100% de seus recursos em assistência médica à população brasileira, por meio do
desenvolvimento de soluções de diagnóstico por imagem, realização de atividades
de ensino, pesquisa e extensão médico-científica, ações sociais e
filantrópicas.
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