sábado, 8 de agosto de 2026

IA e Telas na Infância: uso precoce atrofia pensamento crítico e criatividade de crianças e adolescentes

Pedagoga alerta que a substituição de experiências reais por estímulos digitais e respostas automatizadas de IAs prejudica o desenvolvimento de funções cognitivas cruciais, como a autorregulação e o pensamento divergente

 

Com o avanço acelerado da tecnologia e a popularização de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) no cotidiano, pais, educadores e especialistas enfrentam um dos maiores desafios contemporâneos: qual é o limite saudável para o uso de dispositivos digitais na infância e na adolescência? Para Mariana Ruske, pedagoga, especialista em neurociência e idealizadora da Senses Montessori School, a introdução precoce e indiscriminada de telas e IAs está provocando uma verdadeira erosão no desenvolvimento cognitivo e emocional das novas gerações.

Enquanto adultos utilizam a inteligência artificial para otimizar rotinas e economizar tempo, o cenário muda drasticamente quando aplicada a cérebros em desenvolvimento. De acordo com a especialista, crianças que delegam suas pesquisas, dúvidas e resoluções de problemas para os chatbots perdem a oportunidade de construir o que define como a "musculatura da dúvida e da investigação".

"Para nós, adultos, a IA é uma ferramenta excelente de economia de tempo e trabalho, mas para as crianças é um recurso que rouba a oportunidade de desenvolver justamente funções e competências fundamentais. Se introduzida no momento errado, de forma precoce, a IA deixa de ser uma ferramenta e se torna uma muleta, privando o cérebro da oportunidade de trabalhar e crescer. É como um animal selvagem domesticado que nunca aprende a caçar, pois a comida lhe é dada na boca desde cedo; se um dia volta para a natureza, já não tem chances de viver livremente", destaca Mariana Ruske.

Pesquisas com neuroimagem reforçam o alerta, demonstrando que o uso excessivo de telas altera áreas fundamentais do cérebro em desenvolvimento, como o córtex pré-frontal, responsável pelo planejamento e autocontrole, e o lobo temporal, ligado à linguagem e à memória. Além disso, a substituição do tempo ocioso e das interações analógicas por conteúdos hiperestimulantes impacta diretamente o pensamento divergente, base da criatividade.


Desafios emocionais e comportamentais

Outro ponto crítico levantado pela especialista é a terceirização de sentimentos. O hábito comum de entregar o celular para conter birras ou acalmar a criança impede que ela desenvolva resiliência diante da frustração. "Muitos pais entregam o celular quando a criança chora ou não quer comer. Parece inofensivo, mas ensina que diante do desconforto existe sempre um recurso externo que alivia. Assim, a criança não aprende a lidar com frustração nem a se acalmar sozinha, correndo o risco de se tornar um adulto que não suporta o tédio, não tolera o silêncio e não sabe administrar a tristeza ou a ansiedade", pontua a pedagoga.


Caminhos para uma infância sem dependência digital

A especialista defende que o objetivo não é banir a tecnologia para sempre, mas recolocá-la em seu devido lugar: como ferramenta de trabalho ou estudo, e nunca como substituta do afeto, do tédio criativo ou da mediação humana. Entre as orientações práticas para famílias estão:


Adiar a introdução de telas: Nos primeiros mil dias de vida, o cérebro forma trilhões de conexões a partir de experiências sensoriais e sociais concretas.

Valorizar experiências analógicas: A manipulação de objetos e o contato com a natureza criam mapas mentais essenciais para o pensamento abstrato.

Evitar telas como prêmio ou calmante: Essa prática cria associações nocivas entre a regulação emocional e o consumo digital.

Resgatar o tempo ocioso: Momentos sem estímulos externos são indispensáveis para a imaginação, a concentração e a reorganização mental.

 

Mariana Ruske - Pedagoga da Senses Montessori School; especializada no método Montessori e fundadora da Senses Montessori School, referência em bilinguismo e educação Montessori no Brasil. Mãe de dois meninos, sua trajetória inclui formações em engenharia e astrofísica antes de encontrar sua vocação na pedagogia, impulsionada pela paixão pelo cérebro humano e seu desenvolvimento. Palestrante e ativista, dedica-se a disseminar informações sobre a proteção infantil contra abuso e violência. Defende que a educação infantil é a base do futuro e vê na Pedagogia Científica de Maria Montessori a ferramenta ideal para um desenvolvimento integral.


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