sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Hidrogênio feito com luz solar e resíduos acelera descarbonização da indústria

Tecnologia pode colocar o Brasil na corrida por uma produção mais barata e sustentável de hidrogênio

 

A luz do sol e resíduos da produção de biodiesel, dois grandes ativos do Brasil, poderão gerar hidrogênio de baixo carbono de forma mais sustentável e barata. É o que demonstra uma tecnologia desenvolvida com apoio da Embrapii (Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial). Intitulado de H2Genio, a solução transforma o glicerol, resíduo industrial que hoje tem baixo valor comercial, em hidrogênio por meio de um processo químico ativado pela luz do sol. O sistema ainda utiliza inteligência artificial e monitoramento remoto para aumentar a eficiência da produção e reduzir custos, abrindo caminho para aplicações na indústria, transporte e geração de energia. 

O H2Genio, desenvolvido pela Unidade Embrapii Instituto Federal do Ceará (IFCE) em parceria com a empresa THV, surge em um momento em que o hidrogênio verde se tornou uma das apostas globais para descarbonizar indústrias de alta emissão, como siderurgia, fertilizantes, mobilidade e geração de energia. Hoje, cerca de 95% do hidrogênio produzido no mundo ainda depende de fontes fósseis, principalmente gás natural e carvão, processos que geram elevadas emissões de gás carbônico (CO). 

Diferente da eletrólise, principal rota atualmente utilizada para produção de hidrogênio, o sistema desenvolvido dispensa grandes estruturas eletrolíticas e aproveita diretamente a radiação solar para ativar catalisadores responsáveis pela reação química. Isso reduz a necessidade de equipamentos complexos e de alto consumo energético. 

Nesse cenário, a fotocatálise aparece como uma alternativa complementar para reduzir barreiras econômicas e ampliar o acesso ao hidrogênio verde em regiões com alta incidência solar e menor infraestrutura energética. O modelo também permite sistemas descentralizados, facilitando a instalação em áreas distantes de grandes hubs industriais. 

“O diferencial da tecnologia é aproveitar diretamente a luz solar e um resíduo industrial que hoje possui baixo valor agregado. Isso cria um ciclo mais sustentável e economicamente interessante para diferentes setores industriais”, destaca o coordenador do projeto da Unidade Embrapii IFCE, Igor Valente. 

A proposta não é substituir tecnologias já consolidadas, como a eletrólise, mas sim contribuir para a diversificação das rotas de produção de hidrogênio de baixo carbono. “O mercado de hidrogênio será composto por diferentes rotas tecnológicas coexistindo de forma complementar. Nesse sentido, investir em fotocatálise representa também ampliar as possibilidades de produção sustentável de hidrogênio”, disse o diretor-fundador da THV, Thiago Vieira. 

Além do hidrogênio, o processo gera compostos químicos de alto valor agregado, como di-hidroxiacetona, gliceraldeído e ácido fórmico, ampliando o potencial econômico da solução para a cadeia do biodiesel e da indústria química. 

“Cerca de 10% do volume total do biodiesel produzido resulta em glicerol residual. resíduo do processo. Levando-se em conta os incentivos à transição energética e as perspectivas de aumento da produção de biodiesel, tecnologias que permitam converter o glicerol residual desse processo em hidrogênio e compostos de alto valor agregado são de grande interesse da cadeia de valor do biodiesel”, analisa Valente. 

O sistema também incorpora sensores embarcados, monitoramento remoto em nuvem e inteligência artificial para ajustar automaticamente variáveis como vazão, temperatura e pH, aumentando a eficiência operacional da produção.
 

Aplicações 

A solução pode atender diferentes setores industriais. Entre as aplicações previstas estão a produção de matéria-prima (amônia verde) para fertilizantes, uso em siderúrgicas para substituição parcial de combustíveis fósseis, abastecimento de células a combustível para mobilidade e geração elétrica, além do uso como insumo na indústria química.  

“Existe uma tendência cada vez maior de valorização de tecnologias que promovam economia circular e reaproveitamento de resíduos. Investir agora nesse tipo de solução significa antecipar tendências de mercado”, observa o diretor-fundador da THV. 

Outro ponto considerado estratégico é o potencial brasileiro para liderar tecnologias ligadas ao hidrogênio verde. A combinação entre alta incidência solar, ampla produção de biocombustíveis e disponibilidade territorial cria condições favoráveis para o avanço de soluções de baixo carbono no país, especialmente no Nordeste. 

O projeto está atualmente em fase de validação em laboratório e deve avançar para testes em ambiente relevante. Os resultados já indicam viabilidade de escalonamento da tecnologia e renderam publicações científicas e reconhecimento internacional, incluindo premiação no XXIX Congresso Ibero-Americano de Catálise, realizado em Bilbao, na Espanha.
 

Parceria estratégica

De acordo com a empresa, a parceria com a Unidade Embrapii IFCE foi fundamental para viabilizar o desenvolvimento do projeto H2Genio. A colaboração permitiu acesso à infraestrutura laboratorial, equipe técnica qualificada e conhecimento científico especializado, fatores essenciais para acelerar as etapas de pesquisa, validação e desenvolvimento tecnológico. “Além disso, o modelo Embrapii contribuiu para reduzir riscos inerentes ao processo de inovação, compartilhando esforços entre academia e empresa e possibilitando maior segurança no desenvolvimento de uma tecnologia ainda em estágio de consolidação no mercado”, avalia o diretor da TVH.


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