quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Florestas tropicais abrigam até US$ 1,2 trilhão em potencial inexplorado para descoberta de novos medicamentos, aponta estudo

 Levantamento estima em US$ 214,7 bilhões o potencial farmacêutico da Bacia Amazônica; desmatamento já pode ter comprometido até US$ 36 bilhões desse valor

 

Proteger as florestas tropicais representa uma oportunidade de até US$ 1,2 trilhão para a indústria farmacêutica e de US$ 7 trilhões para melhorar a saúde da sociedade, segundo uma nova análise do grupo de pesquisa Zero Carbon Analytics, que identifica a "biblioteca genética da natureza" como um dos pilares das descobertas de medicamentos capazes de salvar vidas. O valor farmacêutico ainda não descoberto das florestas tropicais equivale a quase cinco vezes o custo da resposta global à pandemia de Covid-19 (US$ 246,2 bilhões). 

A pilocarpina, usada no tratamento do glaucoma e da boca seca após radioterapia, é extraída do jaborandi, planta nativa das florestas tropicais brasileiras. O estudo cita o medicamento como exemplo do potencial terapêutico da biodiversidade. 

O relatório conclui que US$ 86 bilhões (intervalo entre US$ 46 bilhões e US$ 142 bilhões) em valor comercial e US$ 860 bilhões em valor social para a saúde podem ter sido perdidos devido ao desmatamento tropical desde 2001, porque as informações químicas contidas nas plantas deixaram de estar disponíveis para o mercado. 

Segundo os autores, a indústria farmacêutica depende amplamente de plantas, fungos e microrganismos encontrados em florestas tropicais para a obtenção de produtos naturais e de informações de sequências digitais (DSI), especialmente em países de baixa renda, onde se concentra a maior parte da biodiversidade mundial. , mas investe pouco na conservação desses ecossistemas. Apesar dessa dependência — e de um mercado global avaliado em US$ 1,7 trilhão em 2025 —, a análise mostra que a maioria das empresas farmacêuticas não investe na conservação da natureza. 

Entre as 15 maiores empresas farmacêuticas do mundo, apenas AstraZeneca e Novo Nordisk Foundation anunciaram aportes financeiros específicos voltados à biodiversidade (US$ 400 milhões e entre US$ 25 milhões e US$ 30 milhões, respectivamente). As demais fazem declarações genéricas sobre financiamento da natureza, sem compromissos financeiros concretos. 

"O desenvolvimento farmacêutico depende há décadas dos recursos genéticos das florestas tropicais, mas houve muito pouco investimento correspondente para conservar a biodiversidade da qual essas descobertas dependem", disse Jo Bentley-McKune, principal autora do estudo. "As florestas tropicais são fábricas bioquímicas extraordinariamente diversas, e sua destruição pode impedir a descoberta de futuros medicamentos antes mesmo que esses compostos sejam identificados". 

O relatório estima que as florestas tropicais concentram ainda cerca de US$ 7 trilhões em benefícios sociais associados à saúde, considerando os impactos que futuros medicamentos poderiam gerar para pacientes e sistemas de saúde. 

A Bacia Amazônica aparece entre as regiões de maior potencial farmacêutico do planeta, com cerca de US$ 214,7 bilhões em valor associado à descoberta de novos medicamentos. Desse total, aproximadamente 10% — entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões, segundo o intervalo adotado pelo estudo — já podem ter sido comprometidos pelo desmatamento desde 2001. 

Além da Amazônia, o levantamento identifica o Sudeste Asiático e a Bacia do Congo como as regiões onde a perda de florestas coloca em risco a maior parcela desse patrimônio biológico. 

Os pesquisadores ressaltam que a estimativa considera apenas compostos presentes em plantas de florestas tropicais. O potencial associado a organismos marinhos, ecossistemas de água doce e outros ambientes terrestres não foi incluído e pode elevar significativamente esse valor.

 

O alto custo da inação

Segundo a análise, investir para interromper a perda de florestas não é apenas uma questão ambiental, mas também uma oportunidade economicamente vantajosa para que as empresas construam cadeias de suprimento mais resilientes e transformem a vida de bilhões de pessoas que convivem com problemas de saúde crônicos e potencialmente fatais. 

Manter as atuais taxas de desmatamento poderá resultar na perda de até US$ 145 bilhões até 2050 (intervalo entre US$ 47 bilhões e US$ 145 bilhões) — uma perda de receitas para a indústria farmacêutica que poderá aumentar caso o desmatamento continue avançando. 

Por outro lado, interromper a perda de florestas até 2030 preservaria aproximadamente dez vezes mais do valor futuro que poderá ser perdido caso as tendências atuais se mantenham. A meta foi assumida por mais de 140 países durante a COP26 da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), realizada em Glasgow. 

Agir agora para interromper a perda de florestas até 2030 poderia limitar as perdas comerciais adicionais a US$ 9 bilhões (intervalo entre US$ 5 bilhões e US$ 15 bilhões), preservando US$ 79 bilhões (entre US$ 42 bilhões e US$ 130 bilhões) em valor comercial privado e US$ 800 bilhões em valor social para a saúde até 2050. 

“A natureza é fundamental para a inovação farmacêutica. Os investidores se beneficiam quando as empresas mitigam esses riscos", destacou Peter Elwin, diretor de Engajamento e Pesquisa da Finance for Biodiversity Foundation. “Investir na natureza ajuda a proteger a inovação futura, fortalece a resiliência das cadeias de suprimento e cria valor de longo prazo para os acionistas." 

O relatório expõe uma desigualdade na produção de medicamentos e vacinas. Enquanto o Sul Global concentra a maior parte do valor baseado na natureza — preservado por Povos Indígenas e comunidades locais —, a riqueza comercial permanece concentrada no Norte Global, onde estão sediadas todas as 15 maiores empresas farmacêuticas do mundo. 

Mais da metade do valor comercial estimado (54%) está concentrada em três regiões, onde o desmatamento tropical entre 2001 e 2024 colocou dezenas de bilhões de dólares em risco:

  • Sudeste Asiático: até US$ 40 bilhões em valor farmacêutico comercial colocados em risco desde 2001, o equivalente a cerca de um quarto de todo o potencial da região.
  • Bacia Amazônica: entre US$ 12 bilhões e US$ 36 bilhões em risco.
  • Bacia do Congo: até US$ 6 bilhões em risco.

Uma observação dos pesquisadores é de que esta análise se limita ao valor farmacêutico das plantas das florestas tropicais, representando apenas uma parte da biblioteca biológica mais ampla da Terra. O valor potencial total e os riscos associados — incluindo compostos provenientes de ecossistemas marinhos, de água doce e de outros ambientes terrestres — permanecem amplamente não quantificados e devem ser substancialmente maiores.

 

Negociações da Convenção sobre Diversidade Biológica

A análise é divulgada uma semana antes da SBI-7, principal reunião preparatória para a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), que será realizada entre 4 e 12 de agosto, em Nairóbi (Quênia). Entre os principais temas em discussão estão o financiamento da conservação da biodiversidade e a repartição dos benefícios gerados pelo uso de informações de sequências digitais (DSI).

Com os avanços tecnológicos, empresas farmacêuticas e de biotecnologia passaram a acessar informações genéticas por meio de bancos de dados digitais públicos, sem a necessidade de coletar material biológico diretamente nos ecossistemas. Segundo a análise da Zero Carbon Analytics, isso criou uma assimetria: enquanto as empresas se beneficiam desse modelo — em um mercado global de sequenciamento de DNA projetado para alcançar US$ 21,3 bilhões até 2031 —, os custos da conservação da biodiversidade que gera essas informações continuam sendo arcados principalmente por países e Povos Indígenas do Sul Global.

Criado durante a COP16 da CBD, o Fundo Cali é o primeiro mecanismo financeiro global destinado a garantir a repartição justa e equitativa dos benefícios gerados pelo uso de DSI. Até o momento, porém, apenas US$ 1.000 foram comprometidos para o fundo.

A implementação do Fundo Cali será um dos principais temas da SBI-7. Questões técnicas, como as taxas de contribuição das empresas e a definição de DSI, deverão ser negociadas e encaminhadas para deliberação durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica, que será realizada em outubro, na Armênia.

 

>> Lista das 15 maiores empresas farmacêuticas e seus países-sede

  • Bayer (Alemanha)
  • Novo Nordisk (Dinamarca)
  • Novartis (Suíça)
  • Sanofi (França)
  • GSK (Reino Unido)
  • Johnson & Johnson (Estados Unidos)
  • Merck (Alemanha)
  • AstraZeneca (Reino Unido)
  • Roche (Suíça)
  • Takeda (Japão)
  • AbbVie (Estados Unidos)
  • Bristol Myers Squibb (Estados Unidos)
  • Amgen (Estados Unidos)
  • Pfizer (Estados Unidos)
  • Eli Lilly (Estados Unidos)

>> Medicamentos transformadores com ingredientes de origem vegetal

  • Paclitaxel (Taxol): originalmente isolado do teixo-do-Pacífico (Taxus brevifolia). É um dos medicamentos contra o câncer derivados de plantas de maior sucesso comercial já desenvolvidos, tendo tratado mais de um milhão de pacientes. Somente em 2025, registrou vendas de US$ 1,7 bilhão e a projeção é de que alcance US$ 20,4 bilhões até 2034.
  • Kadcyla: medicamento quimioterápico e anticancerígeno desenvolvido a partir de um derivado estrutural de um composto inicialmente isolado de um arbusto do leste da África (Maytenus serrata). Ensaios clínicos demonstraram que o Kadcyla reduziu o risco de morte em mais de um terço, em comparação com o tratamento padrão, em pacientes com câncer de mama HER2-positivo. As vendas atingiram US$ 2,5 bilhões em 2025.
  • Vincristina e vimblastina, derivadas da vinca-de-Madagascar (Catharanthus roseus): isolados de uma planta nativa das florestas tropicais de Madagascar, esses alcalóides continuam sendo fundamentais para a quimioterapia da leucemia infantil e do linfoma de Hodgkin. O mercado deve alcançar US$ 4,6 bilhões até 2034.
  • Enhertu, derivado da camptotecina, encontrada na "árvore-da-felicidade" chinesa (Camptotheca acuminata): em vez de utilizar diretamente o composto, o desenho molecular do Enhertu deriva da estrutura da camptotecina. Trata-se de um medicamento oncológico moderno de grande sucesso comercial, desenvolvido a partir de uma sequência proveniente de uma árvore nativa do sul da China e do Tibete.
  • Quinina, derivada da casca da quina (Cinchona spp.): obtida da casca de árvores do gênero Cinchona, nativas das florestas nubladas dos Andes (Peru, Bolívia e Equador), a quinina foi o primeiro tratamento eficaz contra a malária e permaneceu como o principal antimalárico durante séculos. Sua estrutura química também serviu de base para o desenvolvimento de antimaláricos sintéticos posteriores.
  • Pilocarpina, derivada do jaborandi (Pilocarpus spp.): extraída das folhas de arbustos de jaborandi, nativos das florestas tropicais brasileiras, a pilocarpina é utilizada no tratamento do glaucoma e da xerostomia (boca seca), condição frequentemente observada em pacientes submetidos à radioterapia.
  • Reserpina, derivada da raiz-de-cobra-indiana (Rauvolfia serpentina): nativa das florestas tropicais do Sul e Sudeste Asiático, a reserpina foi um dos primeiros medicamentos eficazes para o tratamento da hipertensão e um dos primeiros antipsicóticos. Também contribuiu para estabelecer a base farmacológica de medicamentos posteriores voltados à regulação de neurotransmissores.

>> Metodologia

Para estimar o valor das florestas tropicais e subtropicais como fonte de futuros medicamentos, a ZCA utilizou uma estimativa consolidada do número de medicamentos que essas florestas podem abrigar e atribuiu um valor a cada um deles utilizando o método padrão empregado pela indústria farmacêutica para avaliar um medicamento em desenvolvimento (valor presente líquido ajustado ao risco), que considera os custos necessários para levar um medicamento ao mercado.

Os pesquisadores distribuíram esse valor em um mapa das regiões tropicais de acordo com as áreas de maior diversidade de plantas e, em seguida, sobrepuseram dados de satélite sobre as áreas onde houve desmatamento, para estimar quanto desse valor potencial já foi perdido e quanto permanece em risco sob diferentes cenários futuros até 2050.

Para considerar a faixa de valores plausíveis de cada parâmetro utilizado no cálculo, a análise foi executada diversas vezes, variando cada parâmetro dentro de um intervalo plausível. O relatório apresenta a estimativa central, juntamente com a faixa dentro da qual os autores têm 90% de confiança de que se encontra o valor real.

Os valores comerciais apresentados são conservadores, pois contabilizam apenas o valor econômico gerado por um medicamento durante o período de proteção por patente, e não as décadas de benefícios contínuos proporcionados posteriormente aos pacientes e à sociedade. A ZCA estima esses benefícios mais amplos separadamente, convertendo o valor comercial em uma estimativa de valor social.

Como em avaliações anteriores desse tipo, os cálculos partem do pressuposto de que cada composto é insubstituível: uma vez desmatada a área de floresta onde ele ocorre, esse composto é considerado perdido, sem considerar a possibilidade de que ele possa existir em outras áreas florestais.

 

Sobre o Fundo Cali e a SBI-7, no Quênia

O Fundo Cali, criado durante a COP16 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), é o primeiro mecanismo financeiro global concebido para garantir a repartição justa e equitativa dos benefícios decorrentes do uso de informações de sequências digitais (DSI). A proposta é que empresas que comercializam DSI contribuam com 1% de seus lucros globais ou 0,1% de sua receita para o fundo, sendo 50% dos recursos destinados aos Povos Indígenas e às comunidades locais.

A sétima reunião do Órgão Subsidiário de Implementação (SBI) da Convenção sobre Diversidade Biológica será realizada entre 4 e 12 de agosto de 2026, em Nairóbi, no Quênia.

 

Sobre a Zero Carbon Analytics
A Zero Carbon Analytics (ZCA) é um grupo internacional de pesquisa que produz análises e informações sobre mudanças climáticas, natureza e transição energética.


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