domingo, 23 de agosto de 2026

Ela realmente sabe que é uma arara? A ciência explica por que essas aves parecem conversar com humanos

Com alta capacidade de aprendizagem, memória e associação,
 araras podem relacionar palavras a pessoas, objetos e situações
Com alta capacidade de aprendizagem, memória e associação, araras podem relacionar palavras a pessoas, objetos e situações — mas isso significa que elas entendem o que estão dizendo?

 

Quem já viu uma arara “respondendo” a uma pessoa provavelmente ficou com a impressão de que a ave entende exatamente o que está sendo dito. Mas será que esses animais realmente compreendem as palavras da mesma maneira que os seres humanos? A resposta é mais complexa — e revela o quanto a inteligência das aves pode surpreender. 

Segundo a bióloga e mestre em Botânica Joana Corbellini, não é possível afirmar que uma arara tenha consciência de sua própria identidade da mesma forma que uma pessoa. Quando uma ave parece corrigir alguém que a chama de “papagaio”, por exemplo, o comportamento pode estar relacionado à sua capacidade de aprender e associar determinadas palavras a situações específicas. 

Araras, papagaios, periquitos e cacatuas fazem parte do grupo dos psitacídeos, conhecido pela elevada capacidade de aprendizagem, memória e associação. Algumas dessas aves conseguem estabelecer associações referenciais, relacionando vocalizações a objetos, cores, formas, quantidades ou situações. Um dos exemplos mais conhecidos na ciência é o papagaio-cinzento-africano Alex, estudado pela pesquisadora Irene Pepperberg, que demonstrou experimentalmente a utilização de palavras em contextos específicos.

 

Como uma arara consegue imitar a voz humana? - Ao contrário dos seres humanos, que produzem a voz principalmente por meio das pregas vocais, as aves utilizam uma estrutura chamada siringe, localizada na região inferior da traqueia. Nos psitacídeos, o controle preciso da língua, do bico e do trato vocal permite modificar os sons e reproduzir padrões bastante semelhantes à fala humana, inclusive ritmo e entonação. 

Mas não significa que a ave tenha uma “voz humana”. Ela utiliza um sistema anatômico completamente diferente para produzir sons que apresentam características acústicas semelhantes às nossas palavras.

 

Por que algumas parecem “conversar” com seus tutores? - A explicação também passa pela vida social desses animais. Na natureza, araras e papagaios utilizam vocalizações para manter contato e interagir com outros indivíduos. Quando vivem em ambientes domésticos, os seres humanos passam a fazer parte desse grupo social. 

Assim, a ave pode aprender que determinadas vocalizações provocam respostas, como atenção, interação ou alimento. Isso ajuda a explicar comportamentos como dizer “oi” quando alguém chega, chamar uma determinada pessoa ou repetir sons que provocam alguma reação.

 

O problema é que inteligência não significa domesticação - A capacidade de aprender e interagir com humanos pode tornar as araras fascinantes, mas também é justamente um dos motivos pelos quais elas não são animais adequados para a maioria das residências. 

Araras são animais silvestres, altamente sociais, inteligentes e ativos. Precisam de espaço para movimentação e voo, interação social, enriquecimento ambiental, estímulos cognitivos e alimentação específica. Além disso, possuem vocalização naturalmente intensa, bico muito potente e podem viver várias décadas. 

Quando mantidas em ambientes pouco estimulantes, submetidas a confinamento prolongado ou sem interação adequada, podem apresentar alterações comportamentais, como agressividade e vocalização excessiva. Também podem desenvolver comportamentos como arrancar as próprias penas, situação que pode ter diferentes causas e requer avaliação veterinária.

 

E de onde veio essa arara? - A origem do animal também é um ponto fundamental. No Brasil, animais silvestres não devem ser retirados diretamente da natureza para serem mantidos como animais de estimação. Quando houver aquisição legal, é necessário verificar a procedência e a documentação, evitando contribuir com o comércio ilegal e o tráfico de fauna. 

Para Joana, conhecer melhor a inteligência e a complexidade comportamental das araras também aumentam a responsabilidade sobre a forma como esses animais são tratados.

A capacidade de imitar a fala humana pode ser fascinante, mas representa apenas uma pequena parte da biologia desses animais. Antes de querer uma arara em casa, é preciso compreender que se trata de uma ave silvestre altamente social, longeva e cognitivamente complexa, cujas necessidades dificilmente são atendidas adequadamente em uma residência convencional.


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