Com mais de 17 mil mortes registradas por doenças cardio e cerebrovasculares entre janeiro e maio de 2026, um volume 11,8% maior que entre as mulheres, especialistas explicam como a resistência a consultas e exames preventivos pode contribuir para diagnósticos graves
O
Dia dos Pais é tradicionalmente lembrado como uma data de afeto e cuidado. No
entanto, a população masculina brasileira, culturalmente, não tem zelado muito
pela própria saúde ao buscar menos por atendimento médico e exames. E isso tem
custado vidas: o IBGE¹ demonstrou que os homens vivem, em média, cerca de sete
anos menos do que as mulheres. Informações divulgadas na Tábua de Mortalidade 2022
indicaram que a expectativa do sexo masculino era de 72 anos e, para elas, de
79.
Essa
disparidade reflete diretamente o comportamento em relação à medicina
preventiva. Uma pesquisa da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU)² reforça a
gravidade desse cenário ao revelar que 46% dos homens só procuram ajuda médica
quando já apresentam algum sintoma. O estudo aponta ainda que apenas 32% dos
homens acima de 40 anos afirmam estar realmente atentos ao próprio bem-estar.
“Com
homens procurando menos os serviços de saúde para diagnóstico precoce, é muito
provável que esses pacientes, quando finalmente chegarem ao ambiente
hospitalar, já estejam em estágio crítico. Por isso, é fundamental romper esse
tabu cultural e incentivar a consulta médica regular, a prática de check-ups e
a execução de exames preventivos”, analisa Márcio Nunes, coordenador técnico do
São Marcos Saúde e Medicina, marca Dasa em Minas Gerais.
Doenças cardiovasculares e cerebrovasculares lideram a mortalidade
masculina
A
falta de prevenção entre os homens também fica evidente nos indicadores de
mortalidade no Brasil por doenças cardiovasculares e cerebrovasculares, que
estão entre as principais causas de morte masculina em relação à feminina. Um
levantamento do Datasus³ revelou que, de janeiro a maio deste ano, mais de 17
mil homens faleceram em decorrência de AVCs, infarto, insuficiência cardíaca e
outras condições, configurando uma mortalidade 11,8% maior se comparada com as
mulheres.
O cardiologista Alex Félix, da clínica CDPI, também da Dasa, no Rio de Janeiro, reforça que o diagnóstico precoce de doenças cardiovasculares pode evitar parte desses casos. “O infarto do miocárdio e o AVC podem ser a ponta do iceberg de um processo silencioso de aterosclerose que se desenvolve ao longo de muitos anos, frequentemente associado à hipertensão e a outros fatores de risco detectáveis e controláveis preventivamente.
O check-up cardíaco não se limita a uma consulta com eletrocardiograma básico.
Hoje, dispomos de exames como o teste ergométrico, o escore de cálcio
coronariano, a angiotomografia de artérias coronárias, o Doppler de carótidas e
o ecocardiograma, que permitem visualizar direta e indiretamente a presença de
aterosclerose de forma precoce ou disfunção da contratilidade cardíaca, antes
de complicações potencialmente fatais”, ressalta o especialista.
No
entanto, nem todos os eventos cardiovasculares podem ser explicados pelos
fatores de risco tradicionais ou identificados apenas pelos exames
convencionais. Segundo o cardiologista Marcelo Bittencourt, da Dasa Genômica,
parte dos infartos precoces está relacionada com doenças cardiovasculares
hereditárias que permanecem sem diagnóstico.
“Muitas
pessoas não se enquadram nos critérios tradicionais de risco e, por isso, não
são investigadas de forma aprofundada. Quando existe uma carga genética
importante, o primeiro sinal pode ser justamente um evento grave, como um
infarto precoce”, explica..
Nesses
casos, o Escore de Risco Poligênico para Doença Coronariana surge como uma
ferramenta complementar de prevenção ao analisar milhares de variantes
genéticas associadas ao risco de aterosclerose e eventos coronarianos. “Estudos
mostram que pessoas com escore poligênico elevado podem apresentar um risco
significativamente maior de desenvolver doença coronariana, independentemente
da idade ou do estilo de vida”, afirma Bittencourt.
A
avaliação é especialmente indicada para pessoas com histórico familiar de infarto
precoce, morte súbita ou doença coronariana em parentes de primeiro grau.
“Genética não é sentença, é ferramenta de antecipação. Identificar o risco cedo
pode evitar eventos potencialmente fatais no futuro”, conclui.
Guia de prevenção: check-up masculino por faixa etária
De
acordo com a endocrinologista Maria Helane Gurgel, diretora médica dos
laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa no Rio de Janeiro, a
implantação de uma rotina contínua de exames preventivos dividida por faixas
etárias pode contribuir para a longevidade masculina.
Entre 20 e 30 anos
“A
partir dessa faixa etária, o homem pode realizar avaliações laboratoriais
básicas, incluindo hemograma completo, perfil lipídico (colesterol, HDL, LDL e
triglicerídeos), dosagem de lipoproteína (a), glicemia de jejum, hemoglobina
glicada, TSH, testes de função hepática e renal. Também faz-se importante a
aferição da pressão arterial (ambulatorial ou se necessário através do exame
MAPA), assim como do peso corporal através de índices tradicionais como o IMC
(Índice de Massa Corporal) , mas também através de exames de imagem como a
densitometria de corpo total (DEXA) de grande aplicação na avaliação da “massa
gorda e da massa magra” em paciente que vive com sobrepeso e ou obesidade.”,
revela Helane.
De 35 a 40 anos
O
rastreio cardiológico pode ser importante, em especial em casos de história
familiar de doença cardiovascular precoce ou na presença de fatores de risco
como tabagismo, sedentarismo, diabetes, hipertensão, dislipidemia, doenças
autoimunes e obesidade. Nesse contexto, durante a avaliação médica podem ser
solicitados exames como MAPA, teste ergométrico, teste cardiopulmonar,
ecocardiograma trans torácico, ultrassom doppler de carótidas, tomografia para
avaliar escore de cálcio coronarianos e angio tomografia de coronárias para
mapeamento vascular.
De 45 a 50 anos
Somam-se
ao protocolo a investigação oncológica específica, com a dosagem de PSA total e
livre, associado, quando indicado pelo médico, o exame de toque retal e à ultrassonografia
de próstata, a realização da colonoscopia para detecção precoce do câncer de
cólon e reto e o ultrassom de abdômen total também podem ser considerados.
Referências
¹https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos
²https://portaldaurologia.org.br/novidades/noticias/apenas-um-terco-dos-homens-se-considera-muito-preocupado-com-a-sua-propria-saude
³
https://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sih/cnv/nruf.def
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