sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Da limitação ao controle: como as novas terapias estão redefinindo o tratamento da enxaqueca

 

Por muito tempo, seria inimaginável pensar em alguém com enxaqueca desempenhando atividades que exigem alta exposição, grande responsabilidade ou intensa pressão emocional. Situações que envolvem ansiedade, estresse, ambientes barulhentos, iluminação intensa ou longos períodos de concentração costumam reunir diversos gatilhos capazes de desencadear crises em quem convive com a enxaqueca. Em muitos casos, isso significava abrir mão de compromissos profissionais, eventos sociais e experiências importantes para evitar o risco de uma crise de dor. 

Nas últimas décadas, porém, a Medicina avançou significativamente também na área da Neurologia, substituindo tratamentos de abordagem ampla por terapias direcionadas aos mecanismos envolvidos na enxaqueca. Afinal, a enxaqueca não é apenas uma dor de cabeça intensa, mas uma doença neurológica complexa, incapacitante e, muitas vezes, invisível. Estudos sugerem que, para cada brasileiro que sabe ter a condição, há pelo menos outro que enfrenta os sintomas sem receber o diagnóstico e, consequentemente, sem acesso ao acompanhamento e ao tratamento adequados. 

Hoje, os pacientes contam com opções inovadoras, como a toxina botulínica, cuja aplicação para a prevenção da enxaqueca crônica é diferente do uso estético. Administrada em pontos específicos da cabeça, ela atua bloqueando a liberação de substâncias relacionadas à transmissão da dor e da inflamação, reduzindo a sensibilização do sistema nervoso e, consequentemente, a frequência e a intensidade das crises. 

Outro recurso são os anticorpos monoclonais, medicamentos de última geração que bloqueiam a ação do neuropeptídeo CGRC, um dos principais mediadores envolvidos nas crises, tanto para a prevenção quanto para o tratamento da doença. 

De origem hereditária, a enxaqueca não tem cura. No entanto, os avanços terapêuticos citados anteriormente, aliados a uma abordagem multidisciplinar e integrada, que inclui mudanças na rotina, nos hábitos e no estilo de vida, permitem controlar a doença, reduzir a frequência e a intensidade das crises e promover uma melhora significativa na qualidade de vida. 

Os protocolos do Tratamento 360º propõem uma abordagem individualizada, que respeita as particularidades de cada pessoa e trata os inúmeros sintomas que a doença faz acontecer. Além da dor de cabeça, a enxaqueca também pode provocar fotofobia (sensibilidade extrema à luz, especialmente as brilhantes); fonofobia (sensibilidade ao som, particularmente altos); osmofobia (sensibilidade a odores); aura (alterações na visão); dormência; formigamento; fraqueza de um lado do corpo; dores no pescoço e ombros; sensação de tontura ou vertigem; zumbidos no ouvido; náusea com ou sem vômitos; pálpebras inchadas e olhos lacrimejantes; obstrução nasal ou nariz escorrendo; dor facial; bruxismo; taquicardia; pressão alta ou baixa; mal estar e cansaço; dificuldade de concentração e memória; alterações no sono e no humor. 

Apesar dos avanços na Medicina, o passo mais importante ainda é reconhecer que a enxaqueca não é apenas um incômodo passageiro. Trata-se de uma condição neurológica que pode impactar profundamente a capacidade de produzir, decidir e criar, sobretudo quando é subestimada ou ignorada.



Thais Villa - médica neurologista especialista no diagnóstico e tratamento da enxaqueca. Fundadora do Headache Center Brasil, clínica pioneira no tratamento integrado da enxaqueca no Brasil que, este ano, completou 10 anos de atendimentos. 


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