quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Conhecer o próprio organismo virou estratégia de saúde

Genética, microbiota intestinal, metabolismo e hábitos começam a ser analisados em conjunto para compreender riscos individuais e orientar cuidados antes do aparecimento de sintomas 

 

Celebrado em 5 de agosto, o Dia Nacional da Saúde chega em meio a uma mudança na forma de pensar a prevenção: além de acompanhar fatores de risco conhecidos, cresce o interesse por estratégias capazes de considerar como cada organismo responde à alimentação, ao ambiente e aos hábitos. A discussão ganha peso diante das doenças crônicas não transmissíveis, responsáveis por pelo menos 43 milhões de mortes no mundo em 2021, ou 75% dos óbitos globais não relacionados à pandemia, segundo atualização da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicada em 2025. 

Para Bruna Makluf, nutricionista e diretora de nutrição da WeFit, healthtech brasileira especializada em saúde personalizada e nutrição de precisão, a evolução está justamente em acrescentar a individualidade biológica às medidas tradicionais de prevenção. “Durante muito tempo, as orientações partiram principalmente de referências populacionais. Elas continuam fundamentais, mas hoje temos ferramentas para entender por que duas pessoas com hábitos semelhantes podem apresentar respostas metabólicas diferentes. Quando cruzamos genética, microbiota intestinal, exames e estilo de vida, conseguimos reconhecer pontos que merecem atenção e individualizar o acompanhamento”, afirma. A especialista atua com saúde metabólica, emagrecimento e longevidade. 

A mudança já aparece na literatura científica. Uma revisão publicada em 2025 descreve a nutrição de precisão como uma área baseada justamente na variabilidade da resposta individual aos nutrientes e na combinação de características biológicas para orientar intervenções voltadas à promoção da saúde, prevenção e manejo de doenças. Estudos mais recentes também investigam a integração de genômica, metabolismo, microbioma e ferramentas digitais para compreender diferenças individuais que recomendações populacionais, sozinhas, não conseguem explicar.

  

O que muda quando a prevenção olha para o indivíduo 

A genética é uma dessas camadas. Variantes presentes no DNA podem estar associadas a características metabólicas e predisposições, mas não funcionam como sentença sobre o futuro da saúde. Alimentação, atividade física, sono, ambiente e outros fatores continuam interferindo no risco de adoecimento. Por isso, a interpretação ganha sentido quando essas informações são analisadas em conjunto, e não isoladamente.

“O teste genético não diz que uma pessoa necessariamente desenvolverá uma doença. Ele pode mostrar predisposições e características que, quando avaliadas junto aos exames, ao histórico e à rotina, ajudam a direcionar a atenção para determinados fatores. A prevenção passa a ser menos baseada em tentativa e erro e mais orientada pelas características daquele organismo”, explica Bruna. 

A microbiota intestinal acrescenta outra variável que diferentemente do DNA, sua composição pode sofrer alterações relacionadas à alimentação, medicamentos e estilo de vida. Pesquisas recentes vêm investigando justamente a relação entre microbiota, metabolismo e respostas individuais à dieta, embora parte das aplicações da nutrição de precisão ainda esteja em desenvolvimento e não substitua condutas clínicas estabelecidas. 

Essa individualização não significa abandonar recomendações universais. Praticar atividade física, manter alimentação adequada, não fumar e reduzir o consumo nocivo de álcool continuam entre as principais medidas de prevenção das doenças crônicas. A diferença está em acrescentar informações capazes de mostrar quais aspectos podem exigir maior atenção em cada pessoa.

 

 

Da informação para a rotina 

O desafio seguinte é transformar esse volume de dados em decisões compreensíveis e aplicáveis. Na WeFit, a estratégia adotada é integrar testes genéticos e análise da microbiota intestinal ao histórico, aos hábitos e ao acompanhamento nutricional remoto. A empresa também utiliza inteligência artificial e monitoramento de indicadores de rotina para reunir informações que auxiliam os profissionais na avaliação da evolução e nos ajustes do plano individual. 

Para a especialista, a tecnologia tem utilidade quando ajuda a conectar o que acontece entre uma avaliação e outra. “Não basta descobrir uma predisposição e entregar um resultado ao paciente. É preciso entender como aquela informação conversa com alimentação, sono, atividade física, exames e comportamento. O acompanhamento permite observar a resposta do organismo e adaptar a estratégia conforme essa pessoa evolui”, diz. 

No Brasil, o próprio monitoramento da saúde pública reforça a importância de reconhecer diferentes fatores associados ao adoecimento. O Ministério da Saúde iniciou em maio o Vigitel 2026, que deverá ouvir mais de 100 mil pessoas até dezembro e acompanha aspectos como obesidade, alimentação, sedentarismo, atividade física, tabagismo, consumo de álcool, diabetes e hipertensão. Nesta edição, a pesquisa também ampliou temas investigados e sua cobertura para além das capitais. 

Para Bruna Makluf, a tendência é de convivência entre as duas abordagens: recomendações de saúde válidas para a população e estratégias que aprofundam a análise individual quando há indicação. “A medicina preventiva não deixa de olhar para aquilo que funciona para todos. O que muda é a possibilidade de conhecer melhor as particularidades de cada organismo e agir sobre fatores modificáveis antes que eles se transformem em um problema maior. Quanto mais cedo conseguimos transformar informação em cuidado, maior é o espaço para a prevenção”, conclui. 

 



Bruna Makluf - nutricionista, diretora de Nutrição da WeFit e especialista em emagrecimento, saúde metabólica, composição corporal, saúde intestinal, doenças crônicas e longevidade. Graduada em Nutrição pela Universidade Federal de Alfenas (Unifal) em 2008, possui especializações em Nutrição Clínica, Fitoterapia e Nutrição Comportamental, formação em Saúde Intestinal e mestrado em Saúde pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Com mais de 15 anos de experiência, atuou por nove anos na saúde pública, onde participou da implantação de equipes e políticas públicas voltadas à assistência nutricional. Posteriormente, integrou por seis anos a Clínica Seven, exercendo as funções de nutricionista e gestora da equipe de nutrição. Atualmente, lidera a área de Nutrição da WeFit, sendo responsável pelo desenvolvimento dos protocolos nutricionais personalizados da empresa. Sua atuação é baseada na individualização do cuidado, integrando evidências científicas, genética, saúde intestinal, exames laboratoriais e hábitos de vida para construir estratégias nutricionais adaptadas às necessidades de cada paciente. É fonte para temas relacionados ao emagrecimento, saúde intestinal, prevenção e tratamento de doenças cardiovasculares, saúde metabólica e longevidade.
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Fontes de Pesquisa:

https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/noncommunicable-diseases

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42336239/

https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/svsa/inqueritos-de-saude/vigitel


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