terça-feira, 18 de agosto de 2026

Com 24 casos em 2026 e avanço em SP, sarampo e queda na vacinação voltam a acender alerta de infectologistas

Aumento de registros nos grandes centros, ameaça ao certificado de erradicação da OPAS e o fenômeno da “amnésia imunológica” reforçam a urgência da imunização em bebês e adultos

A reemergência de casos confirmados de sarampo nos principais centros urbanos do país colocou as autoridades sanitárias em estado de vigilância contínua. Após fechar o ano de 2025 com 38 casos confirmados e mais de 3.500 notificações suspeitas, o Brasil chegou a 24 infecções confirmadas nos primeiros meses de 2026, com 23 casos somente no Estado de São Paulo. O cenário ameaça a recertificação obtida pelo país junto à Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e acende um sinal vermelho para a queda contínua na cobertura vacinal.

Dra. Rebecca Saad, médica infectologista e coordenadora do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, alerta que a baixa adesão às campanhas de vacinação cria bolsões de suscetibilidade ideais para a circulação contínua do vírus, impondo riscos graves tanto a bebês quanto a adultos com doenças crônicas.


Contágio por aerossóis: o vírus que flutua no ar

Com um número básico de reprodução (R) entre 12 e 18, o que significa que um único infectado pode transmitir a doença para até 18 pessoas não imunizadas, o Morbillivirus é um dos agentes patogênicos mais transmissíveis conhecidos pela medicina. 

Diferente de vírus que exigem contato próximo, o sarampo se espalha por aerossóis (microgotículas expelidas ao falar, tossir ou espirrar) capazes de permanecer suspensos e infectantes no ar de ambientes fechados por até duas horas após a passagem da pessoa com a doença. Transporte público, salas de aula e escritórios figuram como os principais vetores de disseminação em metrópoles.

Segundo a Dra. Rebecca, o tempo prolongado sem grandes surtos gerou uma perigosa percepção de baixa gravidade na sociedade. “Existe uma falsa sensação de que o sarampo é uma doença do passado ou apenas uma infecção infantil benigna. Trata-se de uma patologia sistêmica grave e potencialmente fatal, cuja única barreira eficaz é a vacinação”, pontua a médica.


Amnésia imunológica e riscos em populações vulneráveis

O impacto da infecção varia conforme a resposta imune do paciente, apresentando gravidade destacada em dois extremos populacionais:
 

Bebês menores de 1 ano: com o sistema imunológico ainda imaturo e sem a cobertura completa do calendário vacinal, o vírus progride rapidamente para complicações respiratórias (pneumonia bacteriana secundária) e otites médias, que podem resultar em perda auditiva permanente. Para conter a transmissão comunitária nesses focos, o Ministério da Saúde mantém a indicação da “dose zero” da tríplice viral para crianças de 6 a 11 meses.


Adultos imunocomprometidos: em pessoas com diabetes, hipertensão arterial descompensada ou cardiopatias, bem como pacientes oncológicos e em uso de imunossupressores, o sarampo manifesta-se com maior severidade. Além do risco de encefalite (inflamação cerebral com sequelas neurológicas irreversíveis), a infecção causa o fenômeno conhecido como amnésia imunológica: o vírus destrói temporariamente as células de memória do sistema imune, apagando a proteção adquirida contra outros patógenos e deixando o organismo vulnerável a infecções graves por meses após a recuperação
 

Diagnóstico precoce e o papel da imunidade coletiva

Os sintomas iniciais antecedem as clássicas manchas avermelhadas na pele (exantema) e incluem febre alta, tosse seca, coriza e conjuntivite com fotofobia. É justamente durante essa fase prodrômica (quando muitos confundem o sarampo com uma gripe comum) que ocorre a maior taxa de transmissão do vírus. 

“Manter a carteirinha de vacinação atualizada em adultos de até 59 anos é uma medida de responsabilidade coletiva. Ao se imunizar, o adulto impede que o vírus chegue às crianças que ainda não têm idade para receber o esquema vacinal completo”, reforça a infectologista. 

A vacina tríplice viral (proteção contra sarampo, caxumba e rubéola) está disponível gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde geridas pelo CEJAM e em toda a rede do Sistema Único de Saúde (SUS) para a população de 6 meses a 59 anos.
 

CEJAM - Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”
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