Ao observar a crescente notificação de casos de determinada doença, o caminho natural seria buscar, na mesma velocidade, opções de procedimentos e tratamentos que viabilizassem pronta resposta àquele mal. Ainda que não seja na agilidade que a urgência determina, é de se ver com bons olhos o recente movimento do Ministério da Saúde ao abrir uma Consulta Pública para avaliar se a cirurgia robótica passa a integrar o rol de procedimentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) a pacientes com câncer de reto.
Para iluminar a importância do tema, é preciso lembrar que o câncer colorretal — que inclui tumores do cólon, reto e ânus - representa o segundo tipo mais incidente entre homens e mulheres no Brasil, excluindo o de pele não melanoma. Segundo a publicação Estimativa 2026–2028: Incidência de Câncer no Brasil, divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), o país deve registrar mais de 53 mil novos casos da doença nesse triênio.
A proposta trazida nessa Consulta Pública é incorporar a ressecção retal assistida por robô como opção de tratamento para paciente com câncer de reto (estágios I a III) dentro do SUS. Caso avance, trata-se de uma evolução absolutamente relevante no que se refere a esse tipo de tumor.
Por se tratar de um tumor que está dentro da pelve, assim como acontece no câncer de próstata, existe uma dificuldade técnica para retirá-los. O procedimento exige margens livres e grande grau de segurança, algo viabilizado por meio da robótica, que dá ao médico uma angulação melhor das pinças, maior destreza e realmente uma visão mais aprimorada para a realização da resecção, que é a retirada do órgão.
A literatura médica tem aprofundado entendimento sobre a questão. Especialmente no decorrer do último ano, vários artigos científicos evidenciaram que o uso da robótica na cirurgia do câncer de reto traz como benefício direto menor taxa de recidiva local, ou seja, da doença voltar naquela região onde o reto estava, além de uma taxa de sobrevida livre de doença maior, ou seja, o paciente tem mais tempo sem a doença depois que realiza o procedimento com a robótica.
Todo esse embasamento somado à crescente preocupação com o avanço de casos do câncer do reto encorajaram o Ministério da Saúde a abrir a Consulta Pública para inserir no rol de procedimentos a robótica, o que pode representar um ganho muito grande para os pacientes portadores desse tipo de câncer, tanto no sentido de cura quanto de recuperação.
Na prática, o uso da robótica pode significar menos dor, menos tempo de internação e recuperação mais rápida do paciente, já que há uma lesão de tecido menor e menos resposta inflamatória, o que representa retorno mais cedo à rotina e à convivência com a família, menor risco de bolsa de colostomia e de novas cirurgias, o que garante menos complicações, além de mais segurança no tratamento oncológico e, claro, mais qualidade de vida.
É muito importante ver que a sociedade civil ganha voz e espaço por meio da Consulta Pública. A esperança é que a iniciativa avance e se concretize em evolução no tratamento do câncer do reto. Contudo, é necessário observar como essa eventual conquista, que têm todo o lado positivo para o paciente, poderá ser implementada pelo sistema de saúde, tanto público como privado.
Toda mudança traz consigo custos para o SUS e para as operadoras de planos de saúde e é preciso acompanhar como conseguirão contemplar o avanço de forma racional, quais serão os critérios específicos determinados, enfim, como serão regulamentados sem que se transforme em um problema administrativo tanto no privado quanto no público. É sabido que também na saúde, quando se onera numa ponta, quem paga é a ponta final, onde está o cidadão, o beneficiário do plano.
Independentemente do quesito financeiro, quem já viveu essa jornada ou conhece alguém que viveu, ou simplesmente acredita que todo paciente do SUS merece acesso à tecnologia mais avançada, essa é uma oportunidade de fazer valer a voz e de transformar política pública, com o avanço rumo ao futuro do tratamento do câncer de reto no país.
A ciência,
mais uma vez, mostra o caminho que a medicina moderna pode e deve seguir em
prol de tratamentos melhores, mais efetivos e mais assertivos. A saúde
agradece!
Fernando
Bray - médico, especialista em gastroenterologia cirúrgica e coloproctologia em
São Paulo. Doutor e Mestre em Ciências da Saúde
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