segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Alimentação equilibrada e exercícios nem sempre são suficientes: entenda o risco das doenças cardiometabólicas

 

Ainda assim, algumas pessoas desenvolvem colesterol alto, diabetes ou obesidade mesmo seguindo todas as recomendações. Segundo especialistas, isso acontece porque nem sempre essas condições estão relacionadas apenas ao estilo de vida. Em muitos casos, fatores genéticos podem influenciar o metabolismo, o controle da glicose, o peso corporal e os níveis de colesterol.

Essa visão foi reforçada recentemente pela nova diretriz sobre a Síndrome Cardiovascular-Renal-Metabólica (CKM), publicada pela American Heart Association (AHA) e pelo American College of Cardiology (ACC)¹. O documento destaca que doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes e alterações renais compartilham mecanismos biológicos e fatores de risco comuns, exigindo uma abordagem mais integrada para prevenção e tratamento.

"Durante muito tempo, colesterol alto, obesidade e diabetes foram vistos principalmente como consequência dos hábitos de vida. Hoje sabemos que pacientes com o mesmo diagnóstico podem ter causas completamente diferentes para a doença, incluindo fatores genéticos importantes", explica Marcelo Bittencourt, cardiologista da Dasa Genômica.

Quando desconfiar da genética? 

Histórico familiar de infarto precoce, colesterol elevado em diferentes gerações, diabetes diagnosticado ainda na juventude ou obesidade grave desde a infância são alguns sinais que merecem atenção. "Nesses casos, entender a origem da doença pode fazer diferença não apenas para o paciente, mas também para familiares que compartilham o mesmo risco.

A genética nos ajuda a enxergar além dos sintomas e compreender os mecanismos biológicos envolvidos no desenvolvimento dessas condições", afirma. Um dos exemplos mais conhecidos é a hipercolesterolemia familiar, condição hereditária associada a níveis muito elevados de colesterol LDL e maior risco cardiovascular. Estudo divulgado pela Mayo Clinic² mostrou que a maioria das pessoas afetadas ainda não recebe diagnóstico adequado, apesar do risco aumentado de infarto e outras complicações cardiovasculares.

 Além do colesterol: o que os genes podem revelar Os avanços da medicina de precisão têm permitido investigar formas hereditárias de diferentes doenças cardiometabólicas, ajudando médicos a compreender melhor a origem de quadros que muitas vezes não são explicados apenas pelos hábitos de vida. "No diabetes, por exemplo, existem formas monogênicas que podem se parecer com os tipos mais comuns da doença. Hoje contamos com exames capazes de identificar alterações genéticas associadas a esses casos, permitindo um diagnóstico mais preciso, uma definição terapêutica mais adequada e até a avaliação de familiares que podem compartilhar o mesmo risco. Esse tipo de investigação é especialmente importante em pacientes com suspeita de diabetes de origem hereditária ou lipodistrofias", explica Bittencourt.

A obesidade também pode ter uma forte influência genética, especialmente quando surge precocemente ou apresenta características incomuns. "Já existem testes que investigam variantes genéticas relacionadas ao controle da fome, da saciedade e do gasto energético. Em pacientes com obesidade grave de início precoce ou suspeita de síndromes associadas ao ganho de peso, essa análise pode ajudar a esclarecer a causa da doença e apoiar um acompanhamento mais individualizado", afirma.

As alterações do colesterol também podem ter origem hereditária "Nem todo colesterol alto é consequência da alimentação. Existem formas genéticas conhecidas como dislipidemias familiares, incluindo a hipercolesterolemia familiar, em que alterações hereditárias dificultam a remoção do colesterol da circulação. Identificar essas condições permite orientar melhor o tratamento e investigar familiares que podem estar expostos ao mesmo risco cardiovascular", destaca o cardiologista.

Outra aplicação crescente da genética está na investigação de doenças hepáticas sem causa aparente. "Pacientes com alterações persistentes do fígado, episódios recorrentes de colestase ou histórico familiar de doença hepática podem se beneficiar de uma avaliação genética. Em muitos casos, conseguimos identificar condições hereditárias que explicam o quadro clínico e auxiliam no acompanhamento familiar", acrescenta.

 Uma visão mais completa do risco cardiometabólico A incorporação da genética à prática clínica tem ampliado a capacidade dos médicos de compreender a complexidade dessas doenças. Hoje, a análise integrada de biomarcadores, informações genéticas e dados clínicos permite avaliar diferentes mecanismos envolvidos no desenvolvimento de condições cardiometabólicas.

"Quando combinamos informações genéticas com exames laboratoriais e dados clínicos, conseguimos uma avaliação mais ampla do risco individual. Isso ajuda na estratificação de risco, apoia diagnósticos mais precisos, aumenta a assertividade das decisões clínicas e permite acompanhar a evolução da doença e a resposta ao tratamento de forma mais personalizada", explica Marcelo. Apesar da influência hereditária, os genes não determinam sozinhos o futuro de uma pessoa.

"A genética não é uma sentença. Ela funciona como uma ferramenta para identificar riscos e permitir intervenções mais precoces. Quanto mais conhecemos as características biológicas de cada paciente, maiores são as oportunidades de prevenção, diagnóstico precoce e cuidado personalizado", conclui Marcelo Bittencourt.



Referência

1 American Heart Association (2026 Guideline for Cardiovascular-Kidney-Metabolic Syndrome)

2 Mayo Clinic: "Most people with a genetic condition that causes significantly high cholesterol go undiagnosed" (2025)
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário