Especialista explica como a alimentação
pode contribuir para a prevenção e a qualidade de vida no tratamento e
esclarece mitos sobre dietas e câncer
iStock (Aamulya)
A relação entre alimentação e câncer é tema de dúvidas frequentes entre pacientes e familiares. Embora nenhum alimento isoladamente seja capaz de prevenir ou tratar a doença, a ciência já demonstra que hábitos alimentares, composição corporal e estilo de vida estão relacionados ao risco de desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Durante o tratamento, por sua vez, o acompanhamento nutricional pode contribuir para a manutenção do estado nutricional, da massa muscular e da qualidade de vida.
Segundo Suzana Cristina de Toledo Camacho Lima, coordenadora pedagógica dos cursos de pós-graduação em Nutrição Clínica e Nutrição e Gastronomia do Senac EAD, compreender essa relação exige olhar para o organismo de forma integrada. “O excesso de gordura corporal está associado a alterações metabólicas e a um estado inflamatório crônico que podem favorecer o desenvolvimento de alguns tipos de câncer. Por isso, a prevenção não depende de um alimento específico, mas de um conjunto de hábitos, como manter uma alimentação equilibrada, um peso saudável e praticar atividade física regularmente”, explica.
Nesse contexto, padrões alimentares com maior presença de frutas, verduras, legumes, leguminosas e alimentos ricos em fibras estão associados a benefícios para a saúde e à redução do risco de alguns tipos de câncer. Em contrapartida, o consumo frequente de alimentos ultraprocessados, bebidas açucaradas, carnes processadas e outros alimentos com alta densidade energética pode contribuir para o ganho de peso e para condições relacionadas ao maior risco de doenças crônicas, incluindo alguns tipos de câncer.
A relação entre metabolismo e câncer também ajuda a explicar por que o tema exige cada vez mais conhecimento especializado. As células tumorais apresentam alterações metabólicas que permitem sustentar seu crescimento e sua multiplicação. No entanto, isso não significa que estratégias como retirar completamente carboidratos ou açúcar da alimentação sejam capazes de “matar” o câncer.
“Um dos principais mitos é acreditar que uma dieta restritiva ou milagrosa pode substituir o tratamento oncológico. Dietas cetogênicas, alcalinas, jejuns prolongados ou a exclusão completa de determinados grupos alimentares não devem ser adotados por conta própria. Em pacientes que já apresentam perda de peso ou risco de desnutrição, restrições sem indicação podem ser ainda mais prejudiciais”, alerta Suzana.
Durante o tratamento, as necessidades nutricionais também podem mudar de acordo com o diagnóstico, a terapia utilizada e as condições clínicas de cada paciente. Cirurgias, quimioterapia, radioterapia e outros tratamentos podem provocar sintomas como náuseas, vômitos, alterações do paladar, boca seca, mucosite e diarreia, dificultando a alimentação.
Nesses casos, o acompanhamento nutricional individualizado torna-se fundamental. A atuação do nutricionista pode contribuir para adaptar a alimentação, controlar sintomas e garantir o aporte adequado de energia e nutrientes, além de ajudar a preservar a massa muscular e a capacidade funcional. A avaliação precoce também é importante para identificar riscos nutricionais e evitar que a perda de peso e de massa muscular comprometam a recuperação.
“O paciente oncológico passa por diferentes fases e, por isso, não existe uma única estratégia nutricional que sirva para todos. Antes de uma cirurgia, por exemplo, pode ser necessário melhorar o estado nutricional. Durante a quimioterapia ou radioterapia, o foco pode estar no controle dos sintomas e na manutenção da ingestão alimentar. Em outras fases, o objetivo pode ser recuperar a força e retomar uma rotina saudável”, destaca a especialista.
Outro ponto importante é que o cuidado oncológico não depende de uma única área. A complexidade do câncer exige a integração entre médicos, nutricionistas, enfermeiros, fisioterapeutas, educadores físicos, psicólogos, fonoaudiólogos e outros profissionais, de acordo com as necessidades de cada paciente.
Enquanto a equipe médica conduz o tratamento oncológico, o nutricionista atua na avaliação e no suporte nutricional, e profissionais ligados à atividade física e à reabilitação podem contribuir para preservar a força, a mobilidade e a funcionalidade. Já áreas como psicologia, fonoaudiologia e cuidados paliativos podem atuar sobre aspectos emocionais, funcionais e relacionados à qualidade de vida.
Para Suzana, essa integração representa uma mudança importante na forma de cuidar. “O paciente não deve ser visto apenas pelo tumor. É preciso considerar alimentação, força muscular, mobilidade, saúde emocional, contexto social e qualidade de vida. Quando diferentes profissionais trabalham de maneira integrada, o cuidado se torna mais completo e centrado na pessoa”, afirma.
Os avanços da pesquisa também vêm transformando a atuação dos profissionais que trabalham com oncologia. O desenvolvimento de novas terapias, como imunoterapia e terapias-alvo, além do avanço do conhecimento sobre metabolismo tumoral, exige atualização constante e capacidade de interpretar evidências científicas para aplicá-las de forma individualizada.
A humanização também ganha espaço nesse cenário. Estratégias como a gastronomia hospitalar e a valorização das preferências alimentares do paciente podem contribuir para recuperar o prazer de comer e tornar o cuidado mais acolhedor. “A alimentação também tem uma dimensão afetiva e cultural. Respeitar a história, as preferências e a autonomia do paciente é parte importante de um atendimento humanizado”, explica Suzana.
Diante desse cenário, a qualificação profissional se torna um diferencial para quem deseja atuar na área. Entre os conhecimentos considerados importantes estão avaliação nutricional específica para pacientes oncológicos, alterações metabólicas relacionadas ao câncer, manejo de sintomas, interação entre medicamentos e nutrientes, imunonutrição, suplementação e atuação em equipes multiprofissionais.
Para atender a essa demanda, o Senac EAD oferece os cursos de extensão Metabolismo, Alimentação e Relação com o Câncer e Interfaces da Oncologia na Nutrição: Gestação, Esporte, Cuidados Paliativos e Vegetarianismo. As formações ampliam a visão dos profissionais sobre as diferentes interfaces entre nutrição e oncologia, acompanhando os avanços científicos e as novas demandas do cuidado em saúde.
As especializações permitem aprofundar conhecimentos relacionados
ao metabolismo, à alimentação e às diferentes situações que podem fazer parte
da jornada do paciente oncológico, contribuindo para uma atuação mais
integrada, humanizada e baseada em evidências.
Senac EAD
Nenhum comentário:
Postar um comentário