A reforma tributária em
implementação no Brasil representa uma das mais profundas mudanças no sistema
fiscal das últimas décadas. A simplificação prometida — com a substituição de
ICMS, ISS, PIS e Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo
Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), instituídos pela Lei Complementar nº
214/2025 — pode gerar ganhos de eficiência para a economia. Para o terceiro
setor, contudo, especialmente para instituições filantrópicas que atuam em saúde
e educação, o novo modelo exige atenção imediata.
O alerta não está na
perda das imunidades constitucionais, que permanecem asseguradas. O risco está
na lógica de funcionamento do novo sistema tributário sobre o consumo. O modelo
de IBS e CBS foi estruturado com base na não cumulatividade plena e na geração
de créditos financeiros ao longo da cadeia produtiva. Em tese, esse mecanismo
evita a tributação em cascata. Na prática, porém, cria dificuldades para
organizações que não conseguem aproveitar plenamente esses créditos. Embora
muitas instituições filantrópicas permaneçam isentas, seus fornecedores não
estão na mesma situação — e parte deste custo tende a ser incorporada ao preço
final de insumos e serviços essenciais.
Um estudo técnico da LCA
Consultoria Econômica, encomendado pelo Fórum Nacional das Instituições
Filantrópicas (Fonif), aponta que a reforma tributária poderá elevar a carga
indireta das instituições filantrópicas em diferentes áreas de atuação. O
impacto estimado é de 4,2% na educação, 11,2% na assistência social e 1,8% na
saúde.
O impacto pode ser
particularmente sensível à saúde. Segundo a Confederação das Santas Casas e
Hospitais Filantrópicos (CMB), essas instituições respondem por cerca de 61%
das internações de alta complexidade do SUS. O país possui aproximadamente 1,8
mil hospitais filantrópicos, que oferecem 184 mil leitos, dos quais mais de 129
mil atendem ao sistema público. Em cerca de 900 municípios, esses hospitais são
os únicos prestadores hospitalares existentes. A rede filantrópica realiza
anualmente cerca de 5 milhões de internações, 1,7 milhão de cirurgias e mais de
220 milhões de atendimentos ambulatoriais.
Esse sistema, porém, já
opera sob forte pressão financeira. A própria CMB estima que a defasagem média
da tabela SUS chega a cerca de 60% em relação ao custo real dos procedimentos.
O setor também acumula aproximadamente R$ 15 bilhões em dívidas. Estudos
citados por entidades hospitalares indicam que a mudança no modelo tributário
pode elevar os custos das instituições filantrópicas de saúde em até 27%, caso
não haja mecanismos adequados de compensação. Se isso ocorrer, o impacto não
será apenas institucional. Ele poderá afetar diretamente a capacidade de
atendimento do próprio sistema público.
Outro equívoco recorrente
é tratar a reforma tributária apenas como um tema contábil. Na realidade,
trata-se de uma transformação estrutural na forma como os custos são gerados e
distribuídos ao longo da cadeia econômica. O novo modelo exige rastreabilidade
das operações, integração entre as áreas fiscal, financeira e de compras e
maior sofisticação nos sistemas de gestão.
Por isso, a resposta do
terceiro setor não pode ser passiva. Instituições filantrópicas precisam
revisar contratos com fornecedores, mapear riscos ao longo da cadeia de
suprimentos, integrar áreas estratégicas e atualizar seus sistemas de controle.
Também será essencial incorporar simulações de impacto tributário ao
planejamento financeiro de médio prazo.
A reforma tributária não é apenas uma mudança na legislação fiscal. Ela representa uma transformação na forma de gerir operações. Para organizações que sustentam parte significativa da saúde e da educação no país, a antecipação, o planejamento e a governança serão decisivos para preservar sua sustentabilidade. Sem preparação adequada, uma reforma concebida para simplificar o sistema pode acabar agravando a fragilidade financeira de instituições que prestam serviços indispensáveis a milhões de brasileiros.
Carmem Murara - diretora de Relações Institucionais e Governamentais do Grupo Marista, onde é responsável pelas áreas de Comunicação Corporativa e ESG. Também é diretora de Comunicação do Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas (Fonif).
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