Pesquisa mostra que a forma como tutores interpretam as emoções dos cães influencia a maneira como reagem a comportamentos desafiadores; especialista alerta para excesso de humanização, falta de limites e rotina desequilibrada
No Dia Mundial do
Cachorro, celebrado em 26 de agosto, cresce a reflexão
sobre a profundidade da relação entre cães e tutores. Os cães fazem parte da
rotina emocional das famílias e respondem de forma sensível ao ambiente e ao
comportamento de seus tutores. Uma pesquisa publicada pela revista Frontiers
in Psychology analisou 194 pessoas e mostrou que a forma como
os humanos interpretam as emoções de cães e gatos influencia as decisões
tomadas diante de comportamentos considerados desafiadores. O estudo constatou
que, quanto mais intenso era o comportamento apresentado, maior era a percepção
de emoções como medo e raiva e também a probabilidade de os participantes
adotarem alguma forma de intervenção.
Dar carinho o
tempo todo, permitir que o cão faça tudo o que quiser, mantê-lo constantemente
ao lado do tutor ou acreditar que qualquer comportamento é apenas uma
demonstração de afeto são atitudes comuns na rotina de quem considera o
cachorro um membro da família. O problema é que, em alguns casos, aquilo que
parece cuidado pode não atender às necessidades comportamentais do animal.
Para Cleber
Santos, Cleber Santos, especialista em comportamento animal e CEO da Comportpet, esse vínculo precisa ser acompanhado de uma rotina
adequada e de limites claros. Alguns hábitos feitos pelos tutores na tentativa
de agradar o animal podem, na prática, gerar insegurança e comportamentos
indesejados.
A seguir, o
especialista aponta alguns dos erros mais comuns cometidos pelos tutores nesse
processo:
Quando carinho vira falta de limites
Um dos principais
erros apontados pelo especialista é confundir afeto com ausência de regras. A
proximidade entre tutor e pet é positiva, mas não elimina a necessidade de
estabelecer uma rotina clara e uma comunicação consistente.
“O comportamento é
resultado direto da forma como esse animal foi criado, conduzido e socializado.
Qualquer cão, independentemente da raça, pode morder diante de situações de
medo, dor, estresse ou insegurança. A mordida, afinal, é seu principal
mecanismo de defesa. Muitos tutores confundem afeto com ausência de limites”,
diz Cleber.
Falta de previsibilidade também afeta o cão
Mudanças
constantes ou a ausência de horários definidos podem contribuir para um
ambiente menos previsível para o animal.
“O comportamento é
uma resposta ao ambiente, à rotina e à forma como o animal é conduzido. Quando
não há previsibilidade e segurança, o pet entra em estado de alerta, o que pode
evoluir para quadros de ansiedade. A previsibilidade é o que traz estabilidade
emocional. Sem isso, o pet vive em alerta constante”, afirma.
Excesso de estímulos pode ter o efeito contrário
A ideia de que
quanto mais atividades, pessoas e estímulos, melhor pode não funcionar para
todos os cães. Ambientes muito movimentados ou mudanças bruscas também podem
afetar o comportamento.
“Reuniões com
muitos amigos e familiares, casas cheias e movimentação fora do comum afetam
diretamente o emocional dos pets. Animais que vivem em ambientes tranquilos
podem se sentir acuados, inseguros ou reagir de forma defensiva ao tentar
proteger o território”, explica Cleber.
Não basta agradar: é preciso estimular corretamente
Outro erro comum é acreditar que manter o cão sempre confortável significa evitar atividades que exijam esforço físico ou mental. A falta de direcionamento da energia também aparece no comportamento.
“Muitas vezes, o
tutor enxerga destruição ou latidos como desobediência, mas o que existe é uma
rotina desequilibrada. O problema não está no comportamento, mas na falta de
direcionamento dessa energia”, reforça.
Ignorar sinais de desconforto pode piorar o problema
O estudo mostrou
que a percepção que o humano tem sobre medo e raiva influencia diretamente a
resposta escolhida diante de um comportamento desafiador.
“Bocejos
frequentes, lambedura excessiva do focinho, respiração acelerada, inquietação,
destruição de objetos, latidos excessivos, isolamento e necessidade constante
de atenção podem indicar desconforto emocional. Muitas pessoas esperam sinais
mais explícitos, como latidos e rosnados, mas a agressividade começa de forma
muito mais silenciosa”, explica.
Humanizar não significa tratar o cão como humano
A humanização dos
pets aproximou os animais das famílias e fortaleceu os vínculos afetivos, mas
também pode levar os tutores a interpretar as necessidades do cão a partir
exclusivamente de referências humanas.
“O maior erro
ainda é esperar o problema aparecer para agir. Com orientação correta, é
possível prevenir a maioria dos comportamentos indesejados e construir uma
convivência muito mais leve”, afirma.
O equilíbrio está
em combinar vínculo afetivo com estrutura. “Cães equilibrados são resultado de
ambientes previsíveis, estímulos adequados e tutores que sabem ler e respeitar
seus limites. Quando isso não acontece, o comportamento acaba sendo a forma que
o animal encontra para se expressar”, conclui.
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