quarta-feira, 29 de julho de 2026

Volta às aulas começa com professores emocionalmente esgotados e quase metade pensando em abandonar a carreira, revela pesquisa nacional


Levantamento do Instituto Casagrande Social ouviu 5.247 docentes das cinco regiões do país e mostra avanço do desgaste emocional, da sobrecarga e da perda de perspectiva na profissão; Paraná aparece entre os estados com indicadores superiores à média nacional


A volta às aulas em todo o País, na próxima semana, começa com um alerta que vai além da preparação das escolas, da chegada do material didático ou da organização do calendário letivo. Uma pesquisa nacional realizada pelo Instituto Casagrande Social, com 5.247 professores da Educação Básica de todas as regiões do Brasil, revela um cenário de desgaste emocional, sobrecarga e desânimo entre profissionais que serão responsáveis por receber milhões de estudantes nos próximos dias.

Os resultados dialogam com uma série de levantamentos nacionais e internacionais publicados nos últimos anos, entre eles a pesquisa TALIS 2024, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estudos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e dados da Fundacentro, que apontam o crescimento do estresse, do adoecimento mental e da intenção de abandonar a carreira docente.

Na pesquisa do Instituto Casagrande Social, 66,4% dos professores brasileiros afirmam terminar frequentemente ou sempre a jornada emocionalmente esgotados. Quase metade (48,3%) relata já ter pensado seriamente em deixar a profissão no último ano, enquanto 76,5% dizem trabalhar regularmente além da jornada prevista e 68,9% afirmam ter dificuldade para se desligar mentalmente do trabalho mesmo depois de deixar a escola.

O levantamento ouviu professores da Educação Infantil ao Ensino Médio, das redes pública e privada, distribuídos pelas cinco regiões do país. Entre os participantes, 71% atuam em redes públicas municipais ou estaduais, o que permite um retrato abrangente da realidade vivida atualmente pelos profissionais da Educação Básica.

"O professor não está simplesmente trabalhando mais. Ele está sendo chamado a responder por um número cada vez maior de problemas. A profissão se expandiu, as responsabilidades se multiplicaram e as estruturas de apoio não cresceram na mesma velocidade. O problema do professor contemporâneo não é apenas excesso de trabalho. É excesso de complexidade", afirma Renato Casagrande, presidente do Instituto Casagrande Social e organizador da pesquisa.


Muito além da sala de aula

Os dados mostram que o desafio enfrentado pelos professores vai muito além do ensino dos conteúdos. Entre os entrevistados, 72,8% afirmam que manter a atenção e o interesse dos estudantes se tornou uma das maiores dificuldades da profissão. Outros 69,7% apontam a indisciplina como um problema recorrente e 67,9% destacam o crescimento das demandas emocionais e sociais trazidas pelos alunos para dentro da escola.

O cenário acompanha outras pesquisas recentes. Segundo a TALIS 2024, 21% dos professores brasileiros relatam níveis elevados de estresse no trabalho, contra 14% registrados em 2018. Já um estudo da Unifesp identificou burnout em 32,75% dos docentes pesquisados, percentual que supera 55% quando analisada a dimensão do burnout pessoal.

"Nunca se exigiu tanto do professor em tantas dimensões diferentes ao mesmo tempo. Ele precisa ensinar, incluir, manter a atenção, administrar comportamentos, acolher demandas emocionais, dialogar com as famílias, responder pelos resultados e cumprir uma quantidade crescente de exigências institucionais", diz Renato Casagrande.


Paraná apresenta indicadores acima da média nacional

Embora o levantamento tenha abrangência nacional, o recorte estadual chama atenção para o Paraná, que apresentou índices superiores aos observados no conjunto do país em praticamente todos os principais indicadores.

Entre os professores paranaenses participantes, 69,1% relatam esgotamento emocional frequente, acima da média nacional de 66,4%. Também são maiores os percentuais dos que afirmam trabalhar além da jornada (78,1%), sentir que possuem mais responsabilidades do que conseguem cumprir (73,8%) e pensar seriamente em deixar a profissão (51,6%, contra 48,3% no Brasil). Além disso, 77,3% acreditam que a autoridade do professor diminuiu nos últimos anos e 61,5% relatam episódios recorrentes de desrespeito por parte de estudantes.

"Os dados do Paraná apontam, de forma muito consistente, para o mesmo fenômeno observado nacionalmente e, em vários indicadores, os percentuais registrados entre os participantes do estado são superiores aos observados no conjunto nacional. Existe um problema sistêmico que precisa entrar na agenda das redes de ensino", observa o pesquisador.

 

A realidade por trás dos números

Além da etapa quantitativa, a pesquisa reuniu relatos de professores de diferentes regiões do Brasil. Para preservar os participantes de eventuais represálias no ambiente profissional, todas as identidades foram mantidas em sigilo.

Uma professora da Educação Infantil resume o impacto emocional da profissão: "Eu saio da escola, mas a escola não sai de mim."

Outra docente, do Ensino Médio, descreve o esgotamento permanente: "Eu não dizia que estava doente. Eu dizia que estava cansada. Só que eu estava cansada todos os dias, inclusive depois de dormir e depois do fim de semana."

O medo também aparece entre os relatos.

"Hoje você pensa duas vezes antes de chamar a atenção de um aluno. Você não sabe como ele vai reagir, se a família vai reclamar ou se alguém vai filmar e colocar aquilo nas redes sociais."

Já uma professora dos anos finais do Ensino Fundamental resume o sentimento de quem continua acreditando na educação, mas já não sabe por quanto tempo conseguirá permanecer na profissão. "Eu não quero deixar de ser professora. Eu quero deixar de viver desse jeito."


Um alerta para além da volta às aulas

Para Renato Casagrande, os resultados reforçam que a discussão sobre qualidade da educação passa necessariamente pelas condições de trabalho dos professores.

"Não haverá educação de qualidade de forma sustentável com professores permanentemente esgotados, desprotegidos e desvalorizados. Cuidar do professor não é apenas cuidar de uma categoria profissional. É cuidar do futuro da própria educação", conclui.


Metodologia

A pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, realizada pelo Instituto Casagrande Social, ouviu 5.247 professores das 27 unidades da Federação, entre maio e junho de 2026. Participaram docentes da Educação Infantil ao Ensino Médio, das redes públicas municipais, estaduais e federal, além de instituições privadas, comunitárias e/ou confessionais. Do total, 39,7% eram da Região Sudeste, 27,2% do Nordeste, 18,3% do Sul, 8,2% do Centro-Oeste e 6,6% do Norte. Entre os participantes, 41% atuavam em redes públicas municipais, 30% em redes estaduais, 21% em instituições privadas e 8% em redes federais, comunitárias e/ou confessionais. A pesquisa também contou com uma etapa qualitativa, composta por entrevistas presenciais com professores de diferentes regiões do país, cujas identidades foram preservadas para evitar qualquer possibilidade de represálias no ambiente profissional. 

 

Renato Casagrande - educador, pesquisador, escritor e presidente do Instituto Casagrande Social. Com mais de 30 anos de experiência na educação, atuou como professor, diretor escolar, gestor público, consultor e líder de instituições de ensino. Mestre em Administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV), doutor em Educação pela Universidade de Aveiro (Portugal) e especialista em Liderança Educacional pela Penn State University (EUA), dedica sua carreira ao desenvolvimento de pesquisas, à formação de educadores e ao fortalecimento da gestão educacional. É autor de livros e palestrante, sendo referência em temas como liderança, inovação, formação docente e os desafios da educação brasileira.


 

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