Levantamento do Instituto Casagrande Social
ouviu 5.247 docentes das cinco regiões do país e mostra avanço do desgaste
emocional, da sobrecarga e da perda de perspectiva na profissão; Paraná aparece
entre os estados com indicadores superiores à média nacionalA volta às aulas em todo o País, na próxima semana,
começa com um alerta que vai além da preparação das escolas, da chegada do
material didático ou da organização do calendário letivo. Uma pesquisa nacional
realizada pelo Instituto
Casagrande Social, com 5.247
professores da Educação Básica de todas as regiões do Brasil,
revela um cenário de desgaste emocional, sobrecarga e desânimo entre
profissionais que serão responsáveis por receber milhões de estudantes nos
próximos dias.
Os resultados dialogam com uma série de levantamentos
nacionais e internacionais publicados nos últimos anos, entre eles a pesquisa TALIS 2024, da Organização para
a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), estudos da Universidade
Federal de São Paulo (Unifesp) e dados da Fundacentro, que apontam o
crescimento do estresse, do adoecimento mental e da intenção de abandonar a
carreira docente.
Na pesquisa do Instituto Casagrande Social, 66,4% dos professores brasileiros afirmam
terminar frequentemente ou sempre a jornada emocionalmente esgotados.
Quase metade (48,3%) relata
já ter pensado seriamente em deixar a profissão no último ano, enquanto 76,5% dizem trabalhar
regularmente além da jornada prevista e 68,9%
afirmam ter dificuldade para se desligar mentalmente do trabalho mesmo depois
de deixar a escola.
O levantamento ouviu professores da Educação Infantil ao
Ensino Médio, das redes pública e privada, distribuídos pelas cinco regiões do
país. Entre os participantes, 71%
atuam em redes públicas municipais ou estaduais, o que permite
um retrato abrangente da realidade vivida atualmente pelos profissionais da
Educação Básica.
"O professor não está simplesmente trabalhando mais.
Ele está sendo chamado a responder por um número cada vez maior de problemas. A
profissão se expandiu, as responsabilidades se multiplicaram e as estruturas de
apoio não cresceram na mesma velocidade. O problema do professor contemporâneo
não é apenas excesso de trabalho. É excesso de complexidade", afirma Renato Casagrande, presidente
do Instituto Casagrande Social e organizador da pesquisa.
Muito além da sala de aula
Os dados mostram que o desafio enfrentado pelos
professores vai muito além do ensino dos conteúdos. Entre os entrevistados, 72,8% afirmam que manter a
atenção e o interesse dos estudantes se tornou uma das maiores dificuldades da
profissão. Outros 69,7%
apontam a indisciplina como um problema recorrente e 67,9% destacam o crescimento
das demandas emocionais e sociais trazidas pelos alunos para dentro da escola.
O cenário acompanha outras pesquisas recentes. Segundo a
TALIS 2024, 21% dos professores
brasileiros relatam níveis elevados de estresse no trabalho,
contra 14% registrados em 2018. Já um estudo da Unifesp identificou burnout em 32,75% dos docentes
pesquisados, percentual que supera 55% quando analisada a dimensão do burnout
pessoal.
"Nunca se exigiu tanto do professor em tantas
dimensões diferentes ao mesmo tempo. Ele precisa ensinar, incluir, manter a
atenção, administrar comportamentos, acolher demandas emocionais, dialogar com
as famílias, responder pelos resultados e cumprir uma quantidade crescente de
exigências institucionais", diz Renato Casagrande.
Paraná apresenta indicadores acima da média
nacional
Embora o levantamento tenha abrangência nacional, o
recorte estadual chama atenção para o Paraná, que apresentou índices superiores
aos observados no conjunto do país em praticamente todos os principais
indicadores.
Entre os professores paranaenses participantes, 69,1% relatam esgotamento
emocional frequente, acima da média nacional de 66,4%. Também são maiores os percentuais dos que
afirmam trabalhar além da jornada (78,1%),
sentir que possuem mais responsabilidades do que conseguem cumprir (73,8%) e pensar seriamente em
deixar a profissão (51,6%,
contra 48,3% no
Brasil). Além disso, 77,3%
acreditam que a autoridade do professor diminuiu nos últimos anos e 61,5% relatam episódios
recorrentes de desrespeito por parte de estudantes.
"Os dados do Paraná apontam, de forma muito
consistente, para o mesmo fenômeno observado nacionalmente e, em vários
indicadores, os percentuais registrados entre os participantes do estado são
superiores aos observados no conjunto nacional. Existe um problema sistêmico
que precisa entrar na agenda das redes de ensino", observa o pesquisador.
A realidade por trás dos números
Além da etapa quantitativa, a pesquisa reuniu relatos de
professores de diferentes regiões do Brasil. Para preservar os participantes de
eventuais represálias no ambiente profissional, todas as identidades foram
mantidas em sigilo.
Uma professora da Educação Infantil resume o impacto
emocional da profissão: "Eu saio da escola, mas a escola não sai de
mim."
Outra docente, do Ensino Médio, descreve o esgotamento
permanente: "Eu não dizia que estava doente. Eu dizia que estava cansada.
Só que eu estava cansada todos os dias, inclusive depois de dormir e depois do
fim de semana."
O medo também aparece entre os relatos.
"Hoje você pensa duas vezes antes de chamar a
atenção de um aluno. Você não sabe como ele vai reagir, se a família vai
reclamar ou se alguém vai filmar e colocar aquilo nas redes sociais."
Já uma professora dos anos finais do Ensino Fundamental
resume o sentimento de quem continua acreditando na educação, mas já não sabe
por quanto tempo conseguirá permanecer na profissão. "Eu não quero deixar
de ser professora. Eu quero deixar de viver desse jeito."
Um alerta para além da volta às aulas
Para Renato Casagrande, os resultados reforçam que a
discussão sobre qualidade da educação passa necessariamente pelas condições de
trabalho dos professores.
"Não haverá educação de qualidade de forma
sustentável com professores permanentemente esgotados, desprotegidos e
desvalorizados. Cuidar do professor não é apenas cuidar de uma categoria
profissional. É cuidar do futuro da própria educação", conclui.
Metodologia
A pesquisa O Estado do Professor Brasileiro 2026, realizada pelo Instituto Casagrande Social, ouviu 5.247 professores das 27 unidades da Federação, entre maio e junho de 2026. Participaram docentes da Educação Infantil ao Ensino Médio, das redes públicas municipais, estaduais e federal, além de instituições privadas, comunitárias e/ou confessionais. Do total, 39,7% eram da Região Sudeste, 27,2% do Nordeste, 18,3% do Sul, 8,2% do Centro-Oeste e 6,6% do Norte. Entre os participantes, 41% atuavam em redes públicas municipais, 30% em redes estaduais, 21% em instituições privadas e 8% em redes federais, comunitárias e/ou confessionais. A pesquisa também contou com uma etapa qualitativa, composta por entrevistas presenciais com professores de diferentes regiões do país, cujas identidades foram preservadas para evitar qualquer possibilidade de represálias no ambiente profissional.
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