Mais de 826 mil casos foram registrados
no Brasil desde o ano 2000. Especialistas esclarecem as diferenças entre os
tipos de hepatite, explicam como essas infecções são diagnosticadas e mostram
que os avanços da Medicina mudaram o prognóstico de muitos pacientes.
Mais de 826 mil casos de hepatites virais foram
registrados no Brasil entre 2000 e 2025, segundo dados do Ministério da Saúde.
Grande parte dessas infecções evolui de forma silenciosa durante anos ou até
décadas, sem provocar sintomas, e pode ser descoberta apenas quando já causou
complicações importantes, como cirrose e câncer de fígado. Apesar disso,
especialistas ressaltam que o diagnóstico precoce permite controlar a doença e,
em muitos casos, alcançar a cura.
A hepatite é o nome dado à inflamação do fígado, que pode ter diferentes causas. Além das infecções provocadas por vírus, ela também pode estar relacionada ao consumo excessivo de álcool, ao uso de determinados medicamentos e a doenças autoimunes. Quando a inflamação é causada por vírus que têm atração especial pelo fígado, recebe o nome de hepatite viral.
O médico hepatologista e gastroenterologista Dr. André Castro Lyra, membro da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG) e da Sociedade Brasileira de Hepatologia (SBH), explica que essas infecções são provocadas por vírus que têm afinidade pelas células do fígado.
“Atualmente, conhecemos cinco vírus principais: os das hepatites A, B, C, D e E. Eles apresentam diferenças importantes quanto à forma de transmissão, à evolução da doença e ao tratamento”, afirma.
Segundo o especialista, que também é professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA), chefe do Serviço de Gastro-Hepatologia do Hospital Universitário Professor Edgard Santos/UFBA e coordenador do Serviço de Gastro-Hepatologia do Hospital São Rafael/Rede D’Or, as hepatites A e E são transmitidas principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados e, na maioria dos casos, provocam infecções agudas que evoluem para cura espontânea.
Já as hepatites B e C podem permanecer no organismo por muitos
anos e se tornar infecções crônicas. A hepatite D, por sua vez, ocorre apenas
em pessoas infectadas pelo vírus da hepatite B e apresenta maior ocorrência na
região amazônica.
Diagnóstico precoce evita complicações - Um dos maiores desafios das hepatites virais B e C é que elas podem permanecer assintomáticas por muitos anos. Em consequência, parte dos pacientes só descobre a infecção durante exames de rotina ou quando surgem complicações relacionadas ao comprometimento do fígado.
“No caso da hepatite C, cerca de 60% a 80% dos adultos permanecem com o vírus após a fase aguda. Essa infecção costuma ser silenciosa durante décadas. Em alguns pacientes, provoca fibrose no fígado e pode evoluir para cirrose, doença em que o órgão passa a apresentar cicatrizes permanentes e perde progressivamente sua capacidade de funcionar”, explica Lyra.
Nos casos agudos, os sintomas mais comuns incluem fadiga, náuseas, vômitos, desconforto abdominal, pele e olhos amarelados (icterícia), urina escura e fezes claras.
O diagnóstico é feito por meio da avaliação clínica associada a exames laboratoriais específicos, capazes de identificar o vírus responsável pela infecção. Em algumas situações, exames de imagem e, mais raramente, a biópsia do fígado podem ser necessários para avaliar o grau de comprometimento do órgão. O material analisado pelo médico patologista, contribuindo para o diagnóstico e a definição da melhor conduta terapêutica.
Segundo o patologista Dr. Venâncio Avancini Ferreira Alves, membro da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP), professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), diretor da Divisão de Anatomia Patológica do Instituto Central do Hospital das Clínicas da FMUSP e do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP), a evolução das hepatites virais crônicas depende de fatores como o tipo de vírus, o estágio da doença e o momento em que o diagnóstico é realizado.
“Nas hepatites virais crônicas ocorre um processo contínuo de inflamação, cicatrização e regeneração do fígado. Ao longo do tempo, isso pode levar à cirrose e aumentar o risco de câncer de fígado. A exceção é a hepatite B, que também pode favorecer o desenvolvimento do câncer por mecanismos próprios do vírus, mesmo antes da cirrose”, diz.
O especialista da SBP reitera que nem todo paciente com hepatite evoluirá para cirrose ou câncer: “É preciso identificar qual vírus está envolvido, avaliar as condições do paciente e em que estágio a doença foi diagnosticada. Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as chances de preservar a saúde do fígado.”
Na presença de sintomas sugestivos ou após situações de risco, como relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas ou outros contatos parenterais com sangue potencialmente contaminado, a recomendação é procurar uma unidade de saúde para avaliação médica e realização dos exames indicados.
A prevenção das hepatites virais varia conforme o tipo de
vírus - Medidas como saneamento
básico, consumo de água tratada e higiene adequada dos alimentos ajudam a
prevenir as hepatites A e E. Já para as hepatites B, C e D, os especialistas
recomendam o uso de preservativos nas relações sexuais, não compartilhar
agulhas, seringas ou objetos perfurocortantes e realizar o pré-natal durante a
gestação.
A vacinação contra a hepatite B também é uma das
principais formas de prevenção e está disponível gratuitamente pelo Sistema
Único de Saúde (SUS). Como a hepatite D só ocorre em pessoas previamente
infectadas pelo vírus da hepatite B, a vacinação contra a hepatite B também
protege indiretamente contra a hepatite D.
Tratamentos mudaram o cenário da doença - O tratamento varia conforme o tipo de hepatite viral e o estágio da doença. Enquanto algumas infecções agudas, como as hepatites A e E, costumam evoluir para cura espontânea, as hepatites B e C exigem acompanhamento médico específico para evitar a progressão da doença e suas complicações.
Os avanços da Medicina transformaram profundamente o tratamento das hepatites virais nas últimas décadas, ressalta Lyra.
“No caso da hepatite C, hoje conseguimos curar praticamente todos os pacientes com antivirais altamente eficazes, em tratamentos que normalmente duram apenas três meses. Já na hepatite B, dispomos de medicamentos capazes de controlar muito bem a multiplicação do vírus, reduzindo significativamente o risco de complicações. Ambos os tratamentos estão disponíveis pelo SUS”.
O
especialista da FBG e da SBH reforça que receber o diagnóstico não deve ser
motivo para desespero: “A grande maioria dos pacientes apresenta boa evolução
quando a doença é diagnosticada e acompanhada adequadamente. O mais importante
é procurar um médico, realizar a avaliação indicada e seguir corretamente o
tratamento e o acompanhamento recomendados.”
As hepatites virais, suas formas de transmissão,
prevenção, diagnóstico e tratamento são tema do novo episódio de O Patologista
em Podcast, produção da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP). Ao longo da
conversa, os especialistas também explicam em quais situações pode ser
necessária a realização de uma biópsia do fígado, como é feito o acompanhamento
dos pacientes que desenvolvem cirrose, quais são as principais opções de
tratamento da cirrose e do câncer de fígado e respondem às dúvidas mais
frequentes da população sobre essas doenças.
Ouça no Spotify:
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Entenda as hepatites virais
Hepatite
A: Transmitida
principalmente por água e alimentos contaminados. Geralmente provoca infecção
aguda e evolui para cura espontânea. Não evolui para hepatite crônica, cirrose
ou câncer de fígado.
Hepatite
B: Transmitida por
relações sexuais desprotegidas, contato com sangue contaminado e da mãe para o
bebê durante a gestação ou o parto. Pode tornar-se crônica e evoluir para
cirrose e câncer de fígado quando não tratada. Existe vacina gratuita
disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Hepatite
C: Transmitida principalmente
pelo contato com sangue contaminado. Pode permanecer sem sintomas durante
muitos anos e evoluir para cirrose e câncer de fígado. Atualmente, apresenta
altas taxas de cura com antivirais.
Hepatite D: Transmitida pelas mesmas vias da hepatite B, especialmente como pelo contato com sangue contaminado por via parenteral, mas podendo ser através de relações sexuais desprotegidas e da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto. Ocorre apenas em pessoas já infectadas pelo vírus da hepatite B, é mais frequente na região amazônica e pode acelerar a evolução para cirrose e aumentar o risco de complicações hepáticas.
Hepatite E: Transmitida principalmente por água e alimentos contaminados. Geralmente provoca infecção aguda e evolui para cura espontânea. Não costuma evoluir para hepatite crônica, cirrose ou câncer de fígado.
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