Setor filantrópico
acompanha regulamentação e defende ajustes para evitar aumento de custos e
preservar recursos destinados a projetos sociais
O Brasil registrou, em 2025, o maior volume de
investimentos sociais viabilizados por incentivos fiscais da série histórica:
R$ 7,5 bilhões destinados a projetos nas áreas de saúde, educação, cultura,
esporte e assistência social. Apesar do recorde, o setor projeta uma possível
retração. Mudanças relacionadas à regulamentação da reforma tributária podem
reduzir esses recursos em pelo menos R$ 1,6 bilhão até 2033.
Segundo o levantamento Panorama dos Incentivos
Fiscais 2026, lançado pela Simbi, o impacto está relacionado principalmente à
extinção progressiva do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços
(ICMS) e do Imposto sobre Serviços (ISS) — que servem de base para leis
estaduais e municipais de incentivo fiscal — e à redução dos limites de dedução
do Imposto de Renda para empresas.
Para instituições que atuam na prestação de
serviços essenciais, a reforma tributária altera a estrutura de custos no novo
modelo de créditos e tributação sobre o consumo, com efeito direto sobre a
sustentabilidade de atividades nas áreas de saúde, educação e assistência
social.
“A reforma tributária traz uma mudança estrutural
no sistema de tributação e precisa considerar as particularidades das
instituições filantrópicas. Essas organizações têm uma lógica própria de
atuação, baseada no reinvestimento integral dos recursos em serviços
essenciais. Sem regras claras para o aproveitamento de créditos no novo modelo,
há risco de aumento dos custos operacionais e redução da capacidade de
atendimento à população”, afirma a diretora de Relações Institucionais e
Governamentais do Grupo Marista, Carmem Murara.
Esse cenário tem mobilizado o Fórum Nacional das
Instituições Filantrópicas (Fonif), que articula propostas no Congresso
Nacional para preservar a neutralidade tributária das entidades no novo
sistema. Entre elas estão o Projeto de Lei Complementar nº 26/2026, em
tramitação na Câmara dos Deputados, e o Projeto de Lei Complementar nº 45/2026,
no Senado Federal. As propostas tratam de mecanismos para evitar o aumento
indireto dos custos operacionais e garantir o aproveitamento de créditos
tributários no modelo da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto
sobre Bens e Serviços (IBS).
“A regulamentação da reforma tributária tem reunido
instituições filantrópicas, entidades representativas e parlamentares. O Grupo
Marista acompanha as propostas em tramitação e participa desse debate para
defender a sustentabilidade das instituições filantrópicas e a continuidade dos
serviços em saúde, educação e assistência social”, destaca.
Embora mantenham a imunidade tributária, as
entidades filantrópicas podem enfrentar aumento de custos indiretos no novo
sistema, sobretudo na aquisição de bens e serviços essenciais, caso não sejam
criadas regras específicas para compensação de créditos. Estudo técnico da LCA
Consultoria Econômica, encomendado pelo Fonif, estima um aumento indireto de
custos de 4,2% na educação, 11,2% na assistência social e 1,8% na saúde. Apenas
na compra de equipamentos e dispositivos médicos por hospitais filantrópicos, o
custo adicional anual pode chegar a R$ 172 milhões.
A situação é ainda mais crítica em regiões com
menor cobertura de saúde pública. Levantamento da Fundação Instituto de
Pesquisas Econômicas (Fipe) mostra que 725 municípios brasileiros dependem
exclusivamente de hospitais beneficentes como única alternativa de atendimento
hospitalar. Isso significa que cerca de 20 milhões de pessoas ficariam sem
outra opção caso essas instituições reduzissem sua capacidade operacional.
“Quando os custos operacionais aumentam, a
capacidade de investimento em infraestrutura, tecnologia e ampliação do
atendimento diminui. No fim, são recursos que deixam de ser convertidos em
serviços diretos à população”, aponta Carmem.
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