Há exatos 30 anos, perdi meu filho
Ricardo Viveiros de Paula Filho e minha neta Mariana, de apenas sete meses,
vítimas de um motorista que avançou um sinal vermelho na região central de São
Paulo. O responsável fugiu sem prestar socorro. Testemunhas afirmaram que
estava alcoolizado. Meu filho tinha 26 anos, era ilustrador, cartunista, marido
e pai de três crianças.
Passei quase duas décadas buscando Justiça. Quando
finalmente veio a condenação, ela chegou tardia e insuficiente. O réu recorreu,
reduziu sua pena e permaneceu em liberdade. Desde então, uma pergunta me
acompanha: qual é, na prática, a diferença entre matar alguém conscientemente
pelo uso de uma arma e assumir o volante após beber, sabendo que isso pode
resultar em morte?
A discussão sobre crimes de trânsito continua cercada
por uma palavra que suaviza tragédias: “acidente”. Acidente sugere fatalidade,
algo inevitável. Mas o que há de inevitável quando alguém decide dirigir
alcoolizado, exceder a velocidade ou ignorar um semáforo vermelho? Essas são
escolhas. E escolhas têm consequências previsíveis.
Os números reforçam essa reflexão. Segundo
levantamento do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa), o Brasil
registrou, em 2024, 13.075 mortes em ocorrências de trânsito relacionadas ao
consumo de álcool, um aumento de 6,2% em relação ao ano anterior. A taxa de
mortalidade chegou a 6,2 óbitos por 100 mil habitantes, a maior desde 2016.
Mesmo com mais fiscalização e mais operações da Lei Seca, o problema persiste.
A Lei Seca, que completou 18 anos, salvou incontáveis
vidas e tornou-se referência internacional. No entanto, a realidade demonstra
que a legislação, sozinha, não basta. Falta transformar a consciência coletiva.
Ainda existe tolerância social com quem bebe e dirige. Ainda há quem enxergue a
infração como um deslize, e não como uma ameaça concreta à vida.
Especialistas alertam que o álcool reduz reflexos,
compromete a percepção de risco e estimula comportamentos mais agressivos e
imprudentes. Em outras palavras, quem dirige alcoolizado sabe – ou deveria
saber – que aumenta significativamente a possibilidade de matar alguém.
Por isso, é necessário enfrentar um debate
desconfortável: em determinadas circunstâncias, mortes causadas por motoristas
embriagados não deveriam ser tratadas apenas como resultado de culpa, mas como
consequência de uma conduta que assume conscientemente o risco de produzir
vítimas. Não se trata de vingança, mas de responsabilidade.
Nenhuma sentença devolverá meu filho ou minha neta.
Nenhuma decisão judicial apagará a dor de milhares de famílias que, todos os
anos, recebem a notícia de que um ente querido morreu porque alguém resolveu
misturar álcool e direção. Mas a sociedade precisa decidir se continuará
chamando essas mortes de acidentes ou se passará a reconhecê-las pelo que
muitas vezes são: tragédias anunciadas, produzidas por escolhas deliberadas.
Enquanto essa mudança cultural não acontecer,
continuaremos contabilizando vidas interrompidas e famílias destruídas. E
continuaremos perguntando quantas mortes mais serão necessárias para que
dirigir alcoolizado deixe de ser visto como imprudência e passe a ser encarado,
definitivamente, como uma grave violação do direito à vida.
▼
Nenhum comentário:
Postar um comentário