
O experimento mostrou que os sólidos solúveis, que são os açúcares,
altamente degradáveis por microrganismos, foram mantidos nas
frutas que tiveram contato com o peptídeo e a textura também foi mantida
(imagem: Natasha Skov/Unsplash)
Estudo mostra que a molécula
preserva a firmeza da fruta sem interferir no sabor e tem potencial como
tratamento pós-colheita
Cinco minutos. Esse foi o tempo
durante o qual morangos da variedade Oso Grande ficaram em contato com o
peptídeo Ctx(Ile21)-Ha – uma molécula isolada da pele de uma rã do
Cerrado brasileiro – em experimentos realizados por cientistas da Universidade
Estadual Paulista (Unesp). Foi o suficiente para evidenciar o potencial da
molécula para aumentar a vida de prateleira da fruta, que tem alta
perecibilidade.
“Somente o peptídeo, sem nenhum
outro tipo de componente, manteve as características da fruta madura após cinco
dias, o que, para um morango, é um tempo longo de armazenamento. Não
esperávamos tanto”, descreve Eduardo Festozo Vicente, coordenador do Laboratório de
Equipamentos Multiusuários da Faculdade de Engenharia e Ciências (Lemu-FCE) da
Unesp-Tupã, onde o estudo foi conduzido, com financiamento da FAPESP.
Peptídeos são moléculas
semelhantes às proteínas, porém mais simples e menores, que executam diversas
funções no organismo. Vicente estuda o Ctx(Ile21)-Ha há quase 20
anos, desde o seu mestrado. Ele ressalva que a equipe ainda não fez os estudos
microbiológicos para entender a ação da molécula, que é antimicrobiana.
Em artigo publicado na
revista Applied Food Research, o time focou apenas nos parâmetros
físico-químicos da fruta tratada com a molécula. Descobriu que os tratamentos
com peptídeo não interferiram no sabor da fruta e não afetaram
significativamente os compostos fenólicos ou os sólidos solúveis totais,
indicando que a molécula preservou a composição química da fruta.
“Quando se armazena o morango
na geladeira por um tempo, ele será degradado naturalmente. O estudo mostra que
o peptídeo retarda essa degradação, aumentando relativamente a vida de
prateleira e mantendo as características físico-químicas do morango. A análise
do experimento mostrou que os sólidos solúveis, que são os açúcares, altamente
degradáveis por microrganismos, foram mantidos nas frutas que tiveram contato
com o peptídeo. A textura também foi mantida”, diz Vicente à Agência
FAPESP. “Não podemos falar, ainda, em termos microbiológicos, porque não
fizemos esses testes. Mas uma hipótese do grupo para futuros trabalhos é que
tenha havido uma redução de microrganismos [pelo fato de o peptídeo ter ação
antimicrobiana].”
No experimento, a equipe
solubilizou o peptídeo em água em três diferentes concentrações e ali mergulhou
300 gramas de morango por cinco minutos. Um grupo-controle foi criado, no qual
os morangos foram mergulhados apenas em água. “Depois, esperamos secar e
guardamos os morangos em uma bandejinha de PET sanitizada com etanol e coberta
com papel-filme, a 5 °C, em uma incubadora que tem um controle preciso de
temperatura. Simulamos o que um vendedor de morangos faria ao armazenar em uma
geladeira”, afirma Vicente.
As amostras foram mantidas na
incubadora por seis dias e parâmetros físico-químicos (como pH, sólidos
solúveis, textura e taxa respiratória) e bioquímicos (ácido ascórbico, fenóis
totais, açúcares e atividade enzimática) foram avaliados nos dias 0, 1, 2, 3, 4
e 5. Os experimentos foram feitos em triplicata, o que diminui sua
variabilidade e grau de erro, em colaboração com a professora Angela Vacaro de Souza, também da FCE-Unesp.
Também colaboraram na pesquisa
os professores Luís Roberto Almeida Gabriel Filho e Camila Pires Cremasco, da área de estatística e modelagem
preditiva da FCE.
Defesa
Vicente explica que o peptídeo
Ctx(Ile21)-Ha foi isolado e extraído em 2006 de uma rã do Cerrado
brasileiro (Boana albopunctata) pelo grupo da professora Mariana de
Souza Castro, da Universidade de Brasília (UnB). “Essa substância faz parte de
uma gama de defesas do anfíbio. Como ele tem uma respiração cutânea, possui um
arsenal de moléculas que formam um sistema defensivo eficiente, pois está em
contato direto com os patógenos do ambiente. O Ctx(Ile21)-Ha é
apenas uma das moléculas isoladas para estudar. E ela é muito ativa do ponto de
vista antimicrobiano.”
Segundo ele, a ideia inicial do
grupo era aplicar o peptídeo como aditivo zootécnico na nutrição animal para substituição
de antibióticos convencionais, que estão gerando muita resistência
antimicrobiana. “O projeto inicial tinha três grandes vertentes: primeira,
estudar biofisicamente o peptídeo, produzindo análogos mais potentes do que a
própria molécula original; segunda, tentar aplicá-lo, ou seus análogos, na
nutrição animal, incluindo ruminantes, gado de leite [contra mastite], aves
poedeiras, frangos de corte e suínos. A última vertente era aplicar em
alimentos, com o objetivo de aumentar sua vida útil.”
Vicente destaca a importância
do suporte da FAPESP, inclusive para a obtenção do peptídeo. “Somos um dos
poucos laboratórios do Brasil em que se consegue sintetizar, purificar e
caracterizar esse peptídeo e qualquer outro de interesse biológico.” A Fundação
apoiou o trabalho por meio dos projetos 21/06706-9, 19/07438-8 e 16/00446-7.
“Conseguimos um grau de pureza
superior a 95% na síntese da molécula, composta por aminoácidos. Ela pode ser
ingerida, pois será degradada normalmente pelo estômago, já que é um derivado
de proteína. Claro, estamos ainda em uma prova de conceito, inclusive para uso
como aditivo para alimentação animal. Mas sabemos agora que o peptídeo tem um
grande potencial para ser usado como tratamento pós-colheita em frutas
altamente perecíveis, como o morango.”
Próximos
passos
O Ctx(Ile21)-Ha
ainda não tem regulamentação de uso no Brasil, mas Vicente acredita que um
eventual processo nesse sentido não seria problema, pois já existem outros
peptídeos comerciais aprovados e em uso no país. O grupo já possui um pedido de
patente para o uso em aves poedeiras e outro em curso para uso em ruminantes.
“Precisamos ainda trabalhar na
parte microbiológica e fazer os testes necessários, e certamente esse será o
próximo passo”, adianta Vicente. “Além disso, visamos a produção do peptídeo em
larga escala em modelos consagrados pela literatura, como, por exemplo,
leveduras. E uma outra vertente seria a criação de um filme, uma película, para
envolver frutas com casca, pois a legislação impede que frutas ingeridas sem
casca sejam envoltas em películas comestíveis.”
A Instrução Normativa nº 211/2023 da Agência Nacional
de Vigilância Sanitária (Anvisa) estabelece os limites máximos e as condições
de uso para os aditivos alimentares e os coadjuvantes de tecnologia autorizados
para uso em alimentos.
O artigo Effects of the
antimicrobial peptide Ctx(Ile21)-Ha on the physicochemical and
biochemical quality of organic strawberries during post-harvest storage pode
ser lido em: sciencedirect.com/science/article/pii/S2772502226004130.
Karina Ninni
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/peptideo-isolado-de-ra-do-cerrado-aumenta-a-durabilidade-do-morango/58687
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