quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os diferentes rostos da demência

Crédito: Matheus Campos
Nem sempre a perda de memória é o primeiro sinal de demência.
Em alguns pacientes, o que aparece inicialmente são alterações
de comportamento, da linguagem, da atenção ou até alucinações

Conhecer as particularidades entre eles favorece o diagnóstico precoce e melhora o planejamento dos cuidados


Quando um idoso começa a esquecer compromissos, repetir perguntas ou apresentar mudanças de comportamento, é comum que familiares concluam rapidamente: "é Alzheimer". Embora essa seja a causa mais frequente de demência, ela está longe de ser a única. Existem diferentes tipos da síndrome, cada um com características próprias, evolução distinta e necessidades específicas de tratamento. 

Segundo o médico de Família e paliativista Dr. Gustavo Bruno Gonçalves, da Palliative Care, o primeiro passo é compreender que demência não é uma doença, mas uma síndrome clínica provocada por diferentes condições que afetam o cérebro. 

"A doença de Alzheimer responde pela maior parte dos casos, mas existem outras formas de demência que podem começar de maneira completamente diferente. Nem sempre a perda de memória é o primeiro sinal. Em alguns pacientes, o que aparece inicialmente são alterações de comportamento, da linguagem, da atenção ou até alucinações", enfatiza. 

Entre os principais tipos estão a doença de Alzheimer, a demência vascular — geralmente associada a lesões provocadas por problemas na circulação cerebral —, a demência por corpos de Lewy e a demência frontotemporal, que costuma surgir antes dos 65 anos e frequentemente se manifesta por mudanças marcantes na personalidade ou na forma de se comunicar. 

O Dr. Gustavo explica que essa diversidade faz com que o diagnóstico exija uma avaliação criteriosa. História clínica, exames físicos e neurológicos, testes cognitivos, exames laboratoriais e de imagem ajudam a identificar a causa dos sintomas e, principalmente, a descartar doenças que podem provocar alterações semelhantes, mas têm tratamento. 

"Nem todo comprometimento da memória significa demência. Depressão, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, efeitos de medicamentos, distúrbios do sono e outras condições podem causar sintomas parecidos e precisam ser investigados antes de se estabelecer esse diagnóstico", ressalta o médico.


Crédito: Matheus Campos
 Depressão, deficiência de vitamina B12, alterações da tireoide, efeitos de
 medicamentos, distúrbios do sono e outras condições podem causar
 sintomas parecidos com demência

Mudanças que não devem ser ignoradas 

Além dos esquecimentos, alguns sinais merecem atenção da família. Dificuldade para administrar dinheiro ou medicamentos, desorientação em lugares conhecidos, mudanças importantes de comportamento, perda de iniciativa e dificuldade para realizar tarefas antes rotineiras podem indicar que algo vai além do envelhecimento natural. 

O especialista observa que existem situações em que mais de um tipo de demência ocorre ao mesmo tempo, especialmente entre pessoas mais idosas, tornando o quadro ainda mais complexo.

 

Retardando a progressão 

Apesar de ainda não haver cura para a maioria das demências, o diagnóstico precoce permite iniciar tratamentos capazes de controlar sintomas, retardar parcialmente a progressão em alguns casos e preservar a autonomia por mais tempo. Atividade física, estimulação cognitiva, controle de doenças como hipertensão e diabetes, alimentação equilibrada, sono adequado, vida social ativa e tratamento da perda auditiva também contribuem para reduzir o risco de desenvolver demência ao longo da vida. 

Outro ponto frequentemente cercado de dúvidas é o papel dos cuidados paliativos. Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, essa abordagem não é exclusiva dos momentos finais da vida. 

"Os cuidados paliativos podem ser iniciados desde o diagnóstico de uma doença progressiva. O objetivo é aliviar sintomas, preservar a qualidade de vida, apoiar a família e ajudar nas decisões ao longo da evolução da doença, sempre respeitando os valores e os desejos da pessoa", frisa Dr. Gustavo. 

Para o médico, o impacto da demência ultrapassa o paciente e alcança toda a família. "O cuidador também precisa de acolhimento e orientação. Receber um diagnóstico de demência não significa perder imediatamente a autonomia ou deixar de viver com qualidade. Com acompanhamento adequado e suporte multiprofissional, muitas pessoas permanecem ativas e independentes por vários anos", salienta.



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