quinta-feira, 30 de julho de 2026

Hepatites virais evoluem em silêncio e ainda matam por falta de diagnóstico, alertam especialistas no Julho Amarelo

Boletim do Ministério da Saúde mostra que o Brasil já reduziu a mortalidade pela doença em até 60% na última década, mas a testagem ainda é o maior desafio para eliminá-la até 2030
 

Ao contrário do que se espera de uma doença grave, as hepatites virais B e C não doem, não causam febre alta e raramente dão sinais nos primeiros anos. É justamente esse silêncio que as torna perigosas: o vírus pode permanecer décadas no organismo, destruindo o fígado aos poucos, até que a doença já esteja em estágio avançado. A boa notícia é que o diagnóstico é simples, rápido e gratuito pelo SUS. Essa é a mensagem que o Julho Amarelo, mês nacional de conscientização sobre as hepatites virais, reforça todos os anos até o Dia Mundial de Combate às Hepatites Virais, celebrado em 28 de julho. 

Os números recentes mostram por que a testagem continua sendo urgente. Segundo o Boletim Epidemiológico de Hepatites Virais 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 826 mil casos confirmados da doença entre 2000 e 2024, com quase 50 mil mortes associadas. A hepatite C concentra a maior parte da tragédia: responde por 41,5% dos casos, mas por 75,3% dos óbitos, justamente porque costuma ser descoberta tarde. A hepatite B vem em seguida, com 36,6% dos casos e 22% das mortes. 

No entanto, existem sinais de que o país está no caminho certo. O mesmo boletim aponta queda de 50% na mortalidade por hepatite B e de 60% na mortalidade por hepatite C entre 2014 e 2024, resultado da ampliação da vacinação, da testagem e do acesso ao tratamento. O avanço foi reconhecido também pela Organização Mundial da Saúde: o Relatório Global de Hepatites 2026 destacou o Brasil como exemplo internacional por já ter atingido, entre crianças menores de 5 anos, a meta de eliminação da transmissão vertical da hepatite B, de mãe para filho, com prevalência abaixo de 0,1%, a mesma que a OMS estipulou para o mundo todo até 2030. Apesar dos avanços, o próprio boletim do Ministério da Saúde alerta que ainda é preciso ampliar a testagem e a adesão ao tratamento, especialmente para a hepatite B. 

Segundo o Dr. Rogério de Jesus Pedro, infectologista e professor da Faculdade São Leopoldo Mandic, o maior desafio é a falta de sinais perceptíveis. “As hepatites B e C podem evoluir por décadas sem provocar qualquer sinal visível. Muitas pessoas descobrem a infecção apenas quando o fígado já apresenta comprometimento importante. Por isso, a testagem é tão valiosa: ela permite identificar a doença antes que ocorram danos irreversíveis e iniciar o tratamento no momento em que ele é mais eficaz.” 

Essa evolução silenciosa pode se estender por 20 ou 30 anos de inflamação crônica no fígado sem qualquer sintoma perceptível, até culminar em fibrose avançada, cirrose e, em alguns casos, câncer de fígado (carcinoma hepatocelular). É por isso que o diagnóstico precoce muda tanto o desfecho: identificada a tempo, a hepatite C tem hoje índice de cura de cerca de 97%, com tratamento à base de comprimidos orais por três a seis meses, oferecido gratuitamente pelo SUS. Há uma década, os tratamentos disponíveis eram mais agressivos e tinham menos da metade dessa taxa de sucesso.

 

Onde e como se testar 

O teste é gratuito e está disponível em Unidades Básicas de Saúde e Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) em todo o país, por meio de um teste rápido feito com uma gota de sangue e resultado em minutos. É essa agilidade que sustenta a campanha nacional "Um Teste Pode Mudar Tudo", lançada pelo Ministério da Saúde como parte da mobilização do Julho Amarelo. 

A recomendação médica é que todo adulto se teste ao menos uma vez na vida, com atenção redobrada para grupos de maior exposição, como pessoas com histórico de transfusão de sangue antes de 1993, uso de agulhas compartilhadas, relações sexuais sem preservativo e profissionais de saúde. 

“Fazer o teste não é burocracia, é a diferença entre descobrir a doença a tempo de tratar ou descobrir tarde demais, quando o fígado já está comprometido. Não é preciso esperar nenhum sintoma para se cuidar”, conclui o Dr. Rogério de Jesus Pedro.

 



Faculdade São Leopoldo Mandic

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