Nunca foi tão
fácil parecer produtivo. E, talvez por isso, nunca tenha sido tão importante
continuar pensando por conta própria. Sou um entusiasta declarado e usuário
diário da Inteligência Artificial (IA). Defendo seu potencial inquestionável de
eliminar tarefas repetitivas, acelerar processos e abrir espaço para o
pensamento estratégico. Contudo, o debate sobre a IA há muito tempo deixou de
ser exclusividade dos departamentos de tecnologia para ocupar o centro da nossa
rotina corporativa, trazendo consigo um paradoxo incômodo: implementamos
ferramentas em larga escala para reduzir o trabalho burocrático e aliviar a
pressão sobre as equipes, mas o que testemunhamos ao redor são recordes de
esgotamento mental, ansiedade e uma crescente dependência de respostas prontas.
O problema não
reside na tecnologia em si, mas na forma passiva como estamos reagindo a ela,
trocando o esforço analítico pela mera gestão de comandos e terceirizando nossa
capacidade de reflexão. Essa inquietação ganha contornos científicos quando revisitamos
o chamado Efeito Flynn, que documentou o aumento médio de cerca de dois a três
pontos de QI por década em diversos países ao longo do século 20. O sinal de
alerta surgiu quando essa curva começou a se inverter.
Um estudo liderado por Bjørn Bratsberg e Ole Rogeberg,
analisou mais de 730 mil recrutas militares noruegueses e mostrou que os
escores cognitivos atingiram o pico na coorte de 1975 e vêm declinando cerca de
0,2 ponto por ano desde então. Como esse declínio foi observado inclusive
dentro das mesmas famílias, com irmãos mais novos pontuando menos que os mais
velhos, os pesquisadores descartaram explicações genéticas e apontaram fatores
ambientais como principal causa. Uma revisão sistemática publicada na em uma revista encontrou tendência semelhante
em diversos países desenvolvidos.
A IA Generativa
não explica, sozinha, esse fenômeno, mas amplia um comportamento que merece
atenção. Em um estudo experimental publicado em 2025, pesquisadores observaram que participantes que utilizaram o ChatGPT
concluíram tarefas de escrita mais rapidamente, porém apresentaram menor
engajamento cognitivo e menor retenção do conteúdo produzido. Os autores
descrevem esse fenômeno como uma espécie de “dívida cognitiva”: o cérebro
executa a tarefa, mas retém significativamente menos conhecimento do processo.
Trata-se de uma dinâmica que guarda semelhanças com a aviação comercial, em que
pilotos excessivamente dependentes da automação podem apresentar perda de
habilidades críticas quando precisam assumir o controle manual em emergências.
Essa percepção é
reforçada por outra pesquisa. O levantamento mostrou que, quanto maior a
confiança depositada na IA, menor tende a ser o esforço de pensamento crítico
empregado pelos profissionais. Em contrapartida, aqueles que demonstravam maior
confiança em seu próprio conhecimento eram justamente os que mais questionavam,
validavam e refinavam as respostas produzidas pela tecnologia. Os pesquisadores
chamam atenção para o risco da chamada “convergência mecanizada”: quando todos
passam a aceitar sugestões semelhantes sem reflexão adicional, ideias, soluções
e estratégias tornam-se progressivamente mais homogêneas.
No fim das contas,
os modelos de IA são treinados a partir de enormes volumes de dados produzidos
anteriormente. São extraordinários para reconhecer padrões, sintetizar
conhecimento e acelerar decisões. Mas criatividade, inovação e visão de futuro
dependem da capacidade humana de imaginar aquilo que ainda não existe. Por
isso, acredito que o diferencial competitivo das próximas décadas estará menos
na capacidade de utilizar IA e mais na habilidade de exercer julgamento
independente, liderança, empatia e pensamento crítico, atributos que continuam
sendo essencialmente humanos.
A tecnologia deve
atuar como um amplificador cognitivo, ajudando-nos a administrar a avalanche
diária de informações e liberando tempo para atividades de maior abstração. O
erro começa quando uma ferramenta de apoio passa a substituir o intelecto. Esse
desafio também se estende à educação. Não basta alfabetizar as novas gerações
para o uso da IA; será igualmente necessário fortalecer a curiosidade, a
argumentação, a autonomia intelectual e a capacidade de formular boas
perguntas. Em um mundo repleto de respostas instantâneas, pensar continuará
sendo uma vantagem competitiva.
Essa preocupação
extrapola o ambiente corporativo. Hoje valorizamos produtos “feitos à mão” ou a
tradicional "comida caseira" justamente porque representam
autenticidade em um mundo cada vez mais automatizado. Talvez estejamos
caminhando para algo semelhante na produção intelectual e artística. A
inauguração, em junho deste ano, do Dataland, em Los Angeles (um museu dedicado
exclusivamente a obras produzidas por IA) simboliza essa nova era. É um avanço
tecnológico fascinante. Ainda assim, espero que nunca chegue o dia em que uma
livraria precise reservar uma seção intitulada “Escrito por Humanos”. Se isso
acontecer, talvez tenhamos deixado de valorizar justamente aquilo que tornou
possível criar a própria IA: a nossa Inteligência Natural (IN).
A IA continuará
evoluindo em ritmo exponencial, e essa é uma excelente notícia. O verdadeiro
diferencial competitivo do futuro, entretanto, não pertencerá a quem utiliza
mais tecnologia, mas a quem souber utilizá-la sem renunciar ao esforço
cognitivo que nos tornou humanos. Como alerta Yuval Noah Harari, uma das grandes questões da nossa
era será preservar a confiança entre as pessoas em meio às transformações
tecnológicas. Eu acrescentaria outra: preservar a confiança na nossa própria
capacidade de pensar. Afinal, se não cuidarmos deliberadamente da nossa IN,
nenhum algoritmo fará isso por nós.
E você, o que tem
feito para manter a sua IN em dia no meio de tanta IA?
Marco
Silva e Silva - diretor-executivo da GFT Tecnologies no Brasil
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