Estudo aponta que o abuso de smartphones e tablets afeta diretamente o sono e o desenvolvimento das crianças.
Durante as férias escolares, o aumento do tempo em frente às telas
pode comprometer o equilíbrio da rotina infantil. Uma meta-análise publicada no
American Journal of Health Promotion mostrou que crianças com maior exposição a
smartphones e tablets apresentam maior probabilidade de dormir menos, ter pior
qualidade do sono e praticar menos atividade física.
“O problema não é apenas o tempo de tela, mas quando
o celular substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento, como
brincar, praticar atividade física, conviver com outras pessoas e descansar
adequadamente”, explica a pediatra Silvia Nigro, responsável pelo Núcleo de
Medicina do Adolescente do Hospital Sírio-Libanês. Ainda de acordo com ela, é
importante observar se o uso excessivo está alterando o sono, o apetite, o
rendimento escolar ou a convivência social. Quando há perda de funcionalidade,
esse já é um sinal importante de alerta.
Uma das principais preocupações está na qualidade do
sono, já que a luz azul emitida por celulares, tablets e computadores atrasa a
liberação da melatonina, hormônio responsável por preparar o organismo para
dormir. Além disso, jogos eletrônicos e vídeos curtos mantêm o cérebro em
constante estado de alerta, dificultando o relaxamento.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda
que crianças menores de dois anos não sejam expostas às telas. Entre dois e
cinco anos, o tempo de uso deve ser limitado a até uma hora por dia; dos seis
aos dez anos, a até duas horas; e entre 11 e 18 anos, a até três horas diárias,
sempre com supervisão e priorizando conteúdos adequados para cada faixa etária.
A entidade também orienta que o uso de telas seja evitado durante as refeições
e antes de dormir.
“O ideal é desligar as telas pelo menos uma hora
antes de dormir. Para crianças que já apresentam dificuldade para pegar no
sono, esse intervalo pode chegar a duas horas. É necessário fazer uma transição
para o descanso, com atividades tranquilas, como banho, leitura e conversas em
família", alerta a pediatra Lucila Faria, do Hospital Sírio-Libanês.
Os reflexos do uso excessivo não se limitam ao
período noturno. Permanecer muitas horas diante das telas reduz o tempo
dedicado às brincadeiras, aos esportes e às atividades ao ar livre, favorecendo
o sedentarismo, o ganho de peso, alterações posturais e prejuízos ao
desenvolvimento motor.
“A criança precisa correr, brincar, pular, cair,
levantar e explorar o ambiente para se desenvolver de forma saudável. O
movimento faz parte do desenvolvimento motor, emocional e social. Quando a
rotina fica muito restrita às telas, ela perde oportunidades importantes de
movimento e interação", afirma Lucila.
Mudanças de humor também podem aparecer quando o uso
da tecnologia se torna excessivo. Irritabilidade, ansiedade, dificuldade de
concentração e resistência para interromper o uso dos dispositivos costumam
estar entre os primeiros sinais percebidos pelas famílias.
“Quando o uso de telas começa a alterar o sono, o
apetite, o rendimento escolar ou a convivência social, é importante rever a
rotina e estabelecer novos limites", complementa Silvia.
O segredo não é proibir, mas equilibrar
Mais do que restringir o acesso aos dispositivos, as
especialistas defendem que planejar a programação da semana, alternando
passeios, atividades físicas, momentos de descanso e brincadeiras em família,
ajuda a reduzir conflitos e cria oportunidades de convivência.
“Uma estratégia simples é organizar o dia em blocos.
Pela manhã, alguma brincadeira ou atividade com movimento; à tarde, um período
previamente combinado para uso da tecnologia e, à noite, reduzir os estímulos
para favorecer o sono. A tecnologia pode fazer parte das férias, mas não deve
ocupar todos os espaços da rotina", orienta Lucila.
Para Silvia, envolver as crianças na construção da
rotina é fundamental. “Quando elas participam das decisões, tendem a aderir
melhor às regras. Vale combinar previamente os períodos de tela e incluir
atividades variadas, como brincadeiras ao ar livre, jogos em família, visitas a
amigos e momentos de descanso. O ócio também é importante para o
desenvolvimento e a criatividade", finaliza.
Hospital Sírio-Libanês
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