Fenômeno deve intensificar irregularidades de chuva e episódios de calor em importantes regiões produtoras, impactando culturas como soja, café, açúcar, algodão, trigo e cacau
O rápido fortalecimento do fenômeno El Niño deve ser o
principal fator climático a influenciar a produção agrícola global durante o
terceiro trimestre de 2026. A combinação entre temperaturas acima da média e
mudanças nos padrões de chuva aumenta o risco de impactos sobre importantes
culturas agrícolas em diversas regiões produtoras do mundo, segundo análise da
36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX,
que pode ser baixado gratuitamente aqui.
Após uma transição acelerada da neutralidade para um El
Niño fraco entre março e maio, os principais centros internacionais de previsão
climática indicam que o fenômeno continuará se intensificando nos próximos
meses. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta anomalias próximas de
2,0°C no Pacífico equatorial, patamar compatível com um evento de forte
intensidade.
Como o El Niño altera chuva e circulação atmosférica
O aquecimento anormal das águas do Pacífico tropical
altera os padrões globais de circulação atmosférica, deslocando áreas de
formação de nuvens e modificando a distribuição das chuvas em diferentes
regiões agrícolas. Além do Pacífico, o comportamento do Oceano Índico e do
Atlântico também deverá exercer influência relevante sobre as condições
climáticas no segundo semestre.
“O terceiro trimestre será marcado pela consolidação do El
Niño e por um aumento expressivo do risco climático em diversas regiões produtoras.
O fenômeno tende a modificar padrões de chuva e temperatura em escala global,
exigindo atenção redobrada de produtores e agentes do mercado”, afirma Carolina
Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX.
Impactos previstos para a América do Sul e Brasil
Na América do Sul, os efeitos do fenômeno devem se tornar
mais evidentes ao longo dos próximos meses. Após um primeiro semestre marcado
por forte variabilidade das chuvas, com volumes acima do normal em junho,
agosto e setembro tendem a concentrar um dos principais pontos de atenção para
o agronegócio brasileiro: a recuperação da umidade do solo nas regiões
produtoras do Centro-Oeste e Sudeste, fundamentais para o início da safra de
verão.
Segundo a analista, setembro será especialmente sensível
para a soja brasileira. Caso o retorno das chuvas ocorra de forma
irregular, poderão ser observados atrasos na semeadura e dificuldades no
estabelecimento inicial das lavouras.
“O mês de setembro é decisivo para o plantio da soja no
Brasil. A combinação entre temperaturas elevadas e retorno irregular das chuvas
pode comprometer a uniformidade da implantação das lavouras e aumentar os
riscos para o potencial produtivo da safra”, destaca Carolina.
Temperaturas acima da média e ondas de calor
Além das alterações no regime de precipitação, o trimestre
também deverá registrar temperaturas acima da média em grande parte dos
continentes. O cenário aumenta a probabilidade de ondas de calor em importantes
regiões agrícolas da América do Sul, América do Norte, Ásia e Oceania.
Os riscos térmicos merecem atenção especial em países como
Brasil, Paraguai, Bolívia, Argentina, Peru, Estados Unidos, Índia, China e
Austrália. Na África Ocidental, áreas produtoras de cacau em Gana e Costa do Marfim também podem enfrentar
condições climáticas mais desafiadoras.
“O calor persistente amplia a demanda hídrica das plantas
e pode acelerar o ciclo de desenvolvimento das culturas. Em fases críticas, como
floração e enchimento de grãos, esse comportamento tende a reduzir o potencial
produtivo, especialmente quando combinado com baixa disponibilidade de água no
solo”, explica a analista.
Impactos do El Niño por cultura agrícola
Os impactos devem variar conforme a cultura e o estágio de
desenvolvimento das lavouras. No caso do café, as condições climáticas durante a colheita
brasileira, concentrada entre julho e agosto, podem afetar a secagem e a
qualidade dos grãos devido a um sinal de possiveis precipitações acima do
normal. Já em setembro, o foco passa para as floradas, que dependem de uma
combinação favorável entre umidade e temperatura.
Para o açúcar, o Centro-Sul do Brasil acompanha os riscos de
interrupções na colheita em caso de chuva acima do normal, enquanto países como
Índia e Tailândia dependem da regularidade das precipitações para garantir o
bom desenvolvimento dos canaviais da próxima safra.
O mercado de algodão também deve monitorar atentamente as condições
climáticas. A irregularidade das monções representa um desafio para a Índia,
enquanto o excesso de calor pode afetar áreas produtoras na China. Nos Estados
Unidos, apesar das perspectivas favoráveis para o desenvolvimento da cultura,
temperaturas elevadas permanecem como fator de atenção.
No trigo, os riscos são distintos entre os hemisférios. O
excesso de umidade pode favorecer o surgimento de doenças no Sul do Brasil,
enquanto a Austrália enfrenta maior probabilidade de estresse hídrico em função
do padrão mais seco associado ao El Niño. Já no Hemisfério Norte, o calor
excessivo pode acelerar a maturação das lavouras e comprometer a qualidade dos
grãos.
O cacau também está entre as commodities mais expostas às
oscilações climáticas previstas para o trimestre. Na África Ocidental e na
Indonésia, o fenômeno pode aumentar a irregularidade das chuvas e elevar o
risco de estresse hídrico em momentos críticos do ciclo produtivo. No sul da
Bahia, os produtores acompanham os potenciais impactos do El Niño, enquanto o
Equador apresenta um cenário distinto, com possibilidade de condições mais
úmidas favorecendo o desenvolvimento vegetativo, mas também aumentando a pressão
de doenças.
Interação entre clima e produtividade agrícola
De forma geral, a StoneX destaca que os impactos agrícolas
dependerão da interação entre temperatura, precipitação e estágio fenológico de
cada cultura. Regiões que combinarem chuva abaixo da média e calor intenso
tendem a enfrentar maior risco de estresse hídrico, enquanto áreas com
precipitação excessiva poderão registrar dificuldades operacionais, atrasos de
colheita e aumento da incidência de doenças.
“É importante lembrar que previsões climáticas são probabilísticas. Elas não indicam impactos garantidos, mas apontam regiões onde os riscos estão mais elevados. O trimestre julho-agosto-setembro exigirá monitoramento constante, especialmente em áreas de plantio e desenvolvimento de culturas, onde a combinação entre calor e irregularidade das chuvas poderá afetar tanto o estabelecimento quanto o rendimento das lavouras”, conclui Carolina.
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