Levantamento do INCA aponta 42 mil novos casos de
tumores de cabeça e pescoço em 2026. Enquanto tabaco e álcool lideram casos de
boca e laringe, o HPV impulsiona o aumento de tumores de orofaringe, exigindo
novas estratégias de atenção e prevenção.
Uma
mudança recente na regulação brasileira redefine a forma como o país encara a
prevenção oncológica. Em março deste ano, a Anvisa ampliou a indicação da
vacina Gardasil 9, historicamente associada à proteção contra o câncer de colo
do útero, vulva, vagina e ânus, para incluir a prevenção do câncer de cabeça e
pescoço induzido pelo papilomavírus humano (HPV). O marco regulatório é uma
resposta direta à mudança no perfil epidemiológico da doença, exigindo que
médicos e pacientes rompam mitos antigos sobre quem está em risco. É a primeira
vez que o país reconhece formalmente essa proteção para a vacina, e a
expectativa entre especialistas é que a notícia ajude a romper mitos antigos
sobre a doença.
O
momento é oportuno. O INCA estima 42.150 novos casos de câncer de cabeça e
pescoço no Brasil em 2026. No entanto, é preciso desmembrar essa estatística:
enquanto os esperados 4.430 novos diagnósticos de cavidade oral e 2.200 de
laringe em São Paulo continuam sendo majoritariamente causados pelo tabagismo e
etilismo, os tumores de orofaringe (fundo da garganta, amígdalas e base da
língua) apresentam um crescimento alarmante, impulsionados pela infecção
persistente pelo HPV, frequentemente em pacientes mais jovens e sem histórico
de fumo.
Apesar
dos avanços, o diagnóstico tardio continua sendo o grande gargalo. Um
levantamento do próprio INCA revela que 78,2% dos tumores da região ainda são
identificados em estágio avançado. Para orientar a população de forma precisa,
especialistas esclarecem os principais mitos sob a ótica das evidências
científicas mais recentes.
Para orientar a cobertura da imprensa, oncologistas e otorrilaringologista separam os principais mitos sobre a doença.
MITO:
câncer de cabeça e pescoço é doença de fumante e de quem bebe muito.
Tabaco
e álcool seguem entre os principais fatores de risco globalmente, mas o HPV já
responde por 60% a 70% dos novos casos de câncer de orofaringe (amígdalas e
base da língua) nos Estados Unidos e Europa. No Brasil, embora dados
específicos sejam limitados, a tendência é semelhante. A mudança de perfil foi
reconhecida oficialmente pela Anvisa neste ano, ao ampliar a indicação da
vacina contra o vírus para esse grupo de tumores. O HPV tipo 16 é identificado
em 86,9% dos casos de câncer de orofaringe associados ao vírus.
MITO:
só é preciso se preocupar se aparecer uma ferida na boca.
Rouquidão
persistente por mais de duas semanas, dificuldade para engolir e caroço no
pescoço são sinais tão relevantes quanto uma lesão bucal. "Os tumores de
cabeça e pescoço apresentam altas chances de cura quando identificados
precocemente, mas muitos pacientes ainda chegam ao consultório com a doença em
estágio avançado. É fundamental que a população esteja atenta a sintomas
persistentes, como feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão, dificuldade
para engolir ou caroços no pescoço. Esses sinais precisam ser investigados e
não devem ser encarados como algo passageiro", afirma Fernanda Guedes,
oncologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, segunda maior rede de
hospitais privados do Brasil.
Pacientes
com câncer de orofaringe associado ao HPV frequentemente apresentam um caroço
no pescoço como primeiro sinal, muitas vezes sem sintomas na garganta.
MITO:
existe um exame de rotina que detecta esse câncer cedo, como o Papanicolau
detecta o de colo do útero.
Ainda
não há rastreamento populacional para os tumores de orofaringe, cabeça e
pescoço. Por isso a recomendação prática é observar a própria cavidade bucal na
escovação e procurar avaliação médica diante de sintomas persistentes, mas é
ineficaz para o rastreio do câncer induzido pelo HPV. O vírus tem tropismo pelo
tecido das amígdalas e da base da língua (orofaringe), áreas crípticas e
invisíveis a olho nu pelo próprio paciente. "Na avaliação inicial, o
especialista examina toda a região da boca, garganta, nariz e pescoço. Quando
há suspeita de um tumor, podem ser solicitados exames como videolaringoscopia,
nasofibrolaringoscopia, tomografia computadorizada, ressonância magnética e,
principalmente, a biópsia, responsável por confirmar o diagnóstico. O paciente
não deve esperar os sintomas piorarem para procurar atendimento, pois esse
atraso pode influenciar diretamente nas opções de tratamento e no
prognóstico", explica Luigi Carrara Cristiano, do Hospital Nove de Julho.
MITO:
a vacina contra HPV serve só para mulheres e só previne câncer de colo do
útero.
A
vacina é indicada para meninos e meninas de 9 a 14 anos no SUS, em dose única,
e a versão nonavalente pode ser usada até os 45 anos na rede privada. Mesmo
assim, a cobertura da primeira dose no Brasil ficou em 76% entre meninas e 52%
entre meninos entre 2013 e 2021, segundo estudo publicado na Revista Brasileira
de Cancerologia. Como o HPV também está por trás de boa parte dos tumores de
orofaringe, a lacuna de vacinação masculina passa a ter peso direto na
prevenção desse câncer.
MITO:
diagnóstico precoce muda pouco o tratamento.
O
diagnóstico precoce muda a extensão da cirurgia, a necessidade de radioterapia
e quimioterapia associadas, e a chance de preservar funções básicas.
"Receber um diagnóstico precoce faz toda a diferença, porque amplia as
possibilidades de tratamentos menos invasivos e aumenta as chances de preservar
funções essenciais, como a fala e deglutição. Além disso, permite uma abordagem
mais individualizada, contribuindo para melhores resultados clínicos e
qualidade de vida ao longo da recuperação", afirma Marcos Magalhães,
oncologista do Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas.
Prevenção
segue dependendo de medidas simples e já conhecidas: não fumar, moderar o
consumo de álcool, manter boa higiene bucal, seguir o calendário de vacinação
contra HPV e proteger os lábios da exposição solar. A diferença, neste ano, é
que a ciência oficializou mais uma frente de proteção, e a informação sobre ela
ainda precisa chegar à população.
O
diagnóstico precoce tem impacto dramático no prognóstico. Pacientes com doença
em estágio inicial (I-II) têm sobrevida em 5 anos de 70% a 90%, enquanto
aqueles com doença localmente avançada (III-IV) têm sobrevida de apenas 25% a
60%. "Receber um diagnóstico precoce faz toda a diferença, porque amplia
as possibilidades de tratamentos menos invasivos e aumenta as chances de
preservar funções essenciais, como a fala, a respiração e a deglutição.  Além disso, permite uma abordagem mais
individualizada, contribuindo para melhores resultados clínicos e qualidade de
vida ao longo da recuperação", afirma Marcos Magalhães, oncologista do
Hospital Samaritano Higienópolis, da Rede Américas.
Pacientes
com câncer de orofaringe associado ao HPV têm prognóstico ainda melhor, com
sobrevida em 3 anos superior a 80% mesmo em doença localmente avançada.
Prevenção
segue dependendo de medidas simples e já conhecidas: não fumar, moderar o
consumo de álcool, manter boa higiene bucal, seguir o calendário de vacinação
contra HPV e proteger os lábios da exposição solar. A diferença, neste ano, é
que a ciência oficializou mais uma frente de proteção, e a informação sobre ela
ainda precisa chegar à população.
Fontes: Instituto Nacional de Câncer (INCA). Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil. Rio de Janeiro: INCA, 2026. Anvisa / Jornal da USP. "Anvisa amplia indicação da vacina contra HPV para incluir prevenção de câncer de cabeça e pescoço". Publicado em 20/03/2026. Revista Brasileira de Cancerologia. "Infecção por HPV e Controle do Câncer no Brasil: O Importante Papel da Vacinação". INCA, 2025. Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) — declaração sobre a Estimativa 2026-2028 do INCA, fevereiro de 2026.
Rede Américas
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