quinta-feira, 30 de julho de 2026

A queda de cabelo que confunde usuários de Ozempic, Wegovy e Mounjaro

Médico explica que a perda de fios não é causada pelos medicamentos


Quem usa canetas emagrecedoras como Ozempic, Wegovy e Mounjaro e vê o cabelo cair costuma culpar o medicamento. A associação parece óbvia, mas é equivocada. Segundo o tricologista Audir Carvalho Júnior, sócio da novofio, maior rede de tratamento e transplante capilar do país, o remédio não é o responsável direto pela queda dos fios. O problema é o emagrecimento rápido, especialmente quando o medicamento é usado em doses inadequadas ou sem acompanhamento médico e nutricional. 

O corpo, explica o médico, leva de dois a quatro meses para refletir nos fios uma perda de peso acelerada. “O cabelo que cai hoje é resultado de algo que aconteceu bem antes, geralmente na fase mais intensa do emagrecimento, e não da aplicação mais recente da caneta. Esse atraso é o que confunde os pacientes e leva muitos a culparem o medicamento, quando o problema costuma estar no emagrecimento rápido provocado pela condução inadequada do tratamento”, afirma.

Para o especialista, que integra a International Society of Hair Restoration Surgery (ISHRS) e o World FUE Institute (WFI), não existe até hoje nenhuma comprovação de que as canetas emagrecedoras causem lesão direta no folículo capilar. “O medicamento em si não faz o cabelo cair. Ele reduz o apetite, e isso é ótimo para perder peso. Mas, quando a pessoa passa a comer muito menos, emagrece rápido demais e não repõe proteína, ferro, zinco, vitamina B12 e vitamina D, o corpo entende que está em um momento de escassez”, explica, acrescentando que, como resposta e para economizar energia, interrompe temporariamente o ciclo normal de crescimento dos fios.
 

De acordo com ele, o emagrecimento saudável tende a beneficiar muito mais a saúde em geral. “As canetas emagrecedoras, se usadas de forma correta, na verdade, podem ter um efeito protetor para os cabelos. Justamente porque esse paciente, ao deixar de ser obeso, também diminui no organismo os aspectos que fazem mal ao cabelo”, afirma. Na prática, segundo o especialista, a melhora do quadro metabólico associada à perda de peso adequada pode reduzir fatores como inflamação e alterações que impactam a saúde dos fios. 

Carvalho Júnior aponta que todo fio de cabelo vive um ciclo, normalmente entre dois e seis anos, até cair naturalmente. Sem que ninguém perceba, o corpo perde cerca de cem fios por dia. O problema aparece quando um gatilho — a perda acelerada de peso é um deles — faz com que muitos fios entrem na fase de queda ao mesmo tempo. O mesmo pode acontecer no pós-parto ou em períodos de estresse intenso. "O corpo entra literalmente em modo de segurança. E o cabelo é pouco importante para as funções vitais, então é o primeiro que sofre", resume.
 

Quem corre mais risco 

Nem todo usuário de caneta emagrecedora vai perder cabelo. Além daqueles que optam por um emagrecimento rápido demais, o risco aumenta para quem adota dietas muito restritivas ou já tem alguma fragilidade nutricional prévia. Pessoas com predisposição genética à calvície também entram no grupo de atenção, não porque o medicamento cause a calvície, mas porque pode antecipá-la. "O emagrecimento rápido pode acelerar a calvície em quem já tem. Esses pacientes devem ser acompanhados pelo tricologista para avaliar, inclusive, se há necessidade de nutrição prévia ou de tratamento precoce para redução de danos como a perda do cabelo pelo eflúvio que pode ser causado pela deficiência nutricional", argumenta. 

O médico alerta ainda para o uso da medicação sem acompanhamento médico, que tem aumentado os casos de queda de cabelo que chegam ao consultório. "As pessoas usam doses até maiores do que as recomendadas, não conseguem comer e repor as vitaminas necessárias ao bom funcionamento do corpo”, destaca. 

A velocidade do processo, para ele, é o verdadeiro divisor de águas entre quem sente o efeito e quem não sente. "Quanto mais gradual for o emagrecimento, menor tende a ser o impacto sobre o cabelo. O corpo consegue se adaptar à nova realidade de nutrição, de exercício. A gente tem que saber que o cabelo gosta de estabilidade. As mudanças bruscas afetam todo o organismo", diz o médico.

 

Tratar a causa, não o efeito 

Outro ponto em que o médico é enfático: tecnologia capilar, mesoterapia, LED, microagulhamento e suplementos vitamínicos ajudam, mas não substituem a correção da causa. "Nenhuma tecnologia substitui uma boa avaliação médica para entender onde está o problema. Não existe suplementação igual para todo mundo, o melhor suplemento é aquele que corrige uma deficiência real daquele paciente", recomenda. A recomendação é sempre a mesma: primeiro entender por que o cabelo está caindo, se é nutrição, velocidade do emagrecimento ou outra condição associada, para só depois definir o tratamento certo. 

O médico faz questão de deixar um recado a quem está com medo de começar ou de continuar o tratamento com as canetas emagrecedoras por causa do cabelo. "O objetivo não é deixar de emagrecer, é emagrecer com o planejamento e no tempo correto, até para não sofrer com o efeito sanfona”, observa, lembrando que a obesidade reduz a expectativa de vida e aumenta o risco de diabetes, hipertensão e problemas cardiovasculares.


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