Debate realizado pelo COCCID da ACSP contrapôs defesa da regulamentação do setor aos alertas sobre ludopatia, desvio de recursos antes destinados ao comércio e serviços e os prejuízos sociais provocados pelos jogos online
Os jogos online vêm operando
uma mudança nos hábitos dos brasileiros, provocando evasão de receitas do
comércio para as apostas, com impactos sobre o consumo e o endividamento
das famílias devido à compulsão por jogos.
Enquanto o setor destaca a
regulamentação e mecanismos de controle, críticos afirmam que o país enfrenta
uma epidemia silenciosa de ludopatia. Para alguns especialistas, o vício em
apostas tem efeitos semelhantes aos provocados por drogas, segundo o psiquiatra
forense Guido Arturo Palomba, que chama o fenômeno de “desgraça
regulamentada”.
Mas a questão é mais profunda.
Para ouvir a opinião de especialistas, o Comitê de Civismo e Cidadania (COCCID)
da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) promoveu na última terça-feira
(16/06) o debate “Apostas Online - Dependência Mental e os Desafios
Socioeconômicos”, com a participação de Palomba, o mais respeitado profissional
da área, com trabalhos importantes sobre a mente criminosa e histórico de
atuação em casos importantes da crônica criminal brasileira.
Também participou Renato
Toporcov Simões Barreiros, especialista em Relações Internacionais, consultor
da Rede Globo, diretor de Fábrica de Cultura e especialista em comportamento de
jovens da periferia, que tratou do efeito das bens sobre os jovens no Podcast do Associativismo do Diário do Comércio. Já a advogada Marina
Zonis, head de Assuntos Regulatórios da Entain, grupo que controla empresas de
apostas e que assumiu a complexa missão de defender o segmento, classificado
por ela como a “indústria dos jogos online”.
As apostas online vêm
provocando debates frequentes entre os que as defendem como mais uma modalidade
de jogo que alimenta a esperança de grande parte dos brasileiros de ganhar uma
bolada e mudar de vida. Para seus defensores, as plataformas de jogos online e
as bets — regulamentadas pelo governo federal — não são tão diferentes das
loterias da Caixa, que arrecadam cerca de R$ 22 bilhões anuais para os cofres
públicos segundo relatório de administração da instituição de 2024.
Aliás, nesse quesito, as bets
já demonstram um forte desempenho, com arrecadação anual de R$ 9 bilhões em
2025, de acordo com dados da Receita Federal. Só no primeiro trimestre de 2026,
a arrecadação chegou a R$ 3,6 bilhões, segundo a mesma fonte.
Por outro lado, uma
pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) aponta que o prejuízo
para a economia chega a R$ 140 bilhões anuais, por conta da enorme evasão de
recursos antes direcionados ao comércio e ao setor de serviços.
Saúde
mental, regulação e controles
Antes da exposição da
representante das empresas de jogos, Renato Barreiros trouxe para a mesa sua
experiência diária com os jovens da periferia: “O jogo online está ampliando as
diferenças sociais. Crianças e adolescentes estão jogando o dinheiro do lanche
nas plataformas”, afirmou.
Em sua avaliação, está mais do
que evidente a necessidade de conter os impactos negativos dessa prática. Ele
citou uma pesquisa de mantenedoras de faculdades particulares que revelou que
24% dos alunos abandonam ou deixam de cursar o ensino superior em consequência
das apostas online.
Para Barreiros, a situação já é crítica. “Os jovens estão sendo totalmente influenciados pelo enorme investimento feito em propaganda nos veículos de comunicação e nas redes pelas bets. Os principais influenciadores, jogadores e clubes de futebol têm um enorme poder de influência sobre esses públicos.”
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| O psiquiatra forense Guido Palomba: não existe regulamentação que controle a saúde mental das pessoas. FOTO: André Lessa |
A defesa do setor foi feita pela advogada Marina Zonis. Ela apresentou as principais diretrizes criadas para monitorar o mercado nacional. “A regulação é mais do que necessária e, pelo nosso monitoramento, os apostadores já começam a demonstrar uma adequação a um jogo mais responsável.” A advogada salientou ainda que os controles exercidos pelas bets têm conseguido estabelecer limites para os usuários.
“Hoje temos condições de conter
os excessos pelas próprias plataformas. É possível programar e limitar o valor
das apostas para reduzir os danos”,
Segundo a advogada, a
“indústria do jogo” é uma atividade legítima, de grande adesão e devidamente
regulamentada, operada por empresas constituídas e com sede no Brasil. “Na
verdade, o grande problema são as empresas internacionais que operam no país
sem qualquer fiscalização. Hoje elas representam 50% do mercado e, sem dúvida,
são motivo de preocupação pela total falta de regras sobre suas atividades. É
contra elas que devemos trabalhar”, afirmou.
Visão
médica
Essa, porém, não é a posição do
psiquiatra Guido Palomba, que abriu sua intervenção de forma contundente,
reiterando que os jogos online são a “desgraça regulamentada”. Ele afirma que,
com ou sem regras, o setor contribui para uma tragédia nacional. “Não existe
regulamentação que controle a saúde mental das pessoas. Jogos online são uma
desgraça para a economia e, principalmente, para a mente dos apostadores.”
Para o médico, trata-se de um
vício similar ao da cocaína. “O viciado em drogas não consome só um pouquinho.
Assim como o alcoolista, o jogador compulsivo não admite o vício, continua
jogando e perdendo seu patrimônio.” Palomba acrescentou acreditar que, mesmo com
a intervenção do Estado, o mercado de jogos acaba sendo "dominado
pelo crime organizado."
"As bets são parte de um
negócio bilionário: movimentam de R$ 20 a 30 bilhões em apostas brutas por mês
com um faturamento mensal de R$ 3 bilhões. Investem milhões em propaganda, ou
seja, jogos online movimentam muito dinheiro, mas quem paga tudo isso é o
coitado do apostador que vende até a mãe para jogar. Vicio sempre existiu e
essa categoria de jogo é evidentemente muito viciante, provocando, em alguns
casos, até o suicídio”.
Para o psiquiatra, a regulação
não tem funcionado, e as bets continuam funcionando com o que eles consideram
autorregulação. "Isso não existe: o engraçado é que o governo proíbe bingo
e cassinos, mas esta desgraça (sic) pode."
Sua fala angariou o apoio da
maior parte da audiência presencial e online e, para o coordenador do COCCID,
Samir Nakhle Khoury, é natural que, diante de posições antagônicas, sempre é
preciso ficar atento a possíveis tensões. "Mas pretendemos continuar
debatendo temas polêmicos que atingem diretamente a sociedade brasileira”,
concluiu.
https://youtu.be/zDPNMK_dr28?si=eptARRdUW82vMJw2~ (Da esq.) João Vitor de Carvalho Almeida, coordenador adjunto do COCCID,
https://www.dcomercio.com.br/publicacao/s/vicio-em-apostas-acende-debate-sobre-efeitos-nefastos-na-saude-mental-e-no-bolso-dos-brasileiros


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